17/04/2021 às 16h15min - Atualizada em 17/04/2021 às 16h15min

PILIKIA PAU!

Rui Guilherme Juiz de Direito e Escritor. Foto: Arquivo Pessoal

Dedico este artigo à minha irmã que aniversariou dias atrás. Começo relembrando os quinze anos dela. Morávamos, então, os três irmãos, com nosso pai, mãe, avó e tio-avô, e mais os – como dizia meu irmão mais velho – adidos como se efetivos fossem para efeitos de alimentação e pousada num casarão colonial no bairro da Cidade Velha, em Belém do Pará.

Sempre havia pelo menos quatro colegas da escola onde eu estudava praticamente morando conosco. Integravam meu grupo de estudo, mas eram também companhia para farras, aventuras e esporte, além, é claro, de candidatos a namorados das amigas de minha irmã caçula. Um deles acabou casando com minha irmã, constituindo, os dois, uma família unida, numerosa e feliz.

O sobradão era muito, muito velho. Impunha que se fizesse pintura das paredes internas e outros remendos para a festa de quinze anos. Não tínhamos dinheiro para contratar uma firma para fazer os serviços. Então, o tio-avô tomou a iniciativa. Nós, os rapazes, seríamos os pintores, faxineiros, eletricistas, decoradores e tudo mais que se fizesse necessário. Tarefas nada fáceis, mas encaradas com otimismo e vigor próprios de nossa juventude. E de tal modo nos saímos bem na empreitada que o velho palacete ficou resplandecente.

Naqueles anos dourados, as meninas nutriam paixão por certos ídolos. Uns, do cinema, bonitões tipo Alan Delon e Rock Hudson. Este último, então, era o ai-meu-Deus das mocinhas, que nem desconfiavam que o ator preferia meninos a meninas. Nem nós, que morríamos de inveja dele, o sabíamos. E embora os detestássemos figadalmente (por pura inveja), nem por isso deixávamos de surripiar meias da mamãe para fazer toucas com as quais dormíamos na expectativa de acordar com o cabelo moldado para imitar os topetes dos astros idolatrados.

Outros pelos quais nossas musas suspiravam eram cantores da época, que nem o quase eterno Roberto Carlos e Sérgio Murilo – este, um esganiçado que cantava fino, mas bombando com sucessos como “Marcianita”. Um garoto próximo à turma, chamado Sérgio, tentava imitar o intérprete da “Marcianita”, o que logo lhe valeu o apelido de Sergio Gorilo.  

A festa de quinze anos de minha mana foi inesquecível. Mas também foi ótimo ver a caçula anos depois, hoje matriarca, a concelebrar com seus amados filhos, netos e diletas amigas, umas quase contemporâneas dos tempos da Cidade Velha, outras adquiridas depois que o sobradão naufragou igual um Titanic em que o iceberg tivesse sido substituído pela velhice, desabando sobre nossas cabeças pouco tempo após o baile de aniversário e quase nos matando, eu, o pai e o tio-avô.

É muito bom lembrar. Os tempos atuais de tanta tragédia são covidativos para recordar e sonhar com coisas bonitas. Atenção, revisão: em covidativos omiti propositadamente a letra n. O trocadilho é por minha conta e risco, e o mau gosto é todo meu.

E por falar em sonhos, esta noite voltei ao Havaí. Quem não conhece nada da música havaiana, procure fazê-lo. É linda. O som da guitarra, o melodioso falsete dos cantores, a suavidade da língua dos ilhéus, tudo nos transporta para praias de areia dourada, para o azul intenso das águas do Pacífico, para a poesia da dança, a sensualidade sem maldade da hula.

Mantivemos durante muitos anos ligação umbilical com o Havaí. Lá moravam tia pelo lado paterno, seu marido, filhas e genros, netos, nossos amados familiares que nunca saíram de nossas memórias.

Sob tais evocações tão ternas: meus pais, irmãos, avós, amigos, musas inspiradoras e parceiros de aventuras, tudo isso misturado ao sonho em que volto ao Havaí, vem-me a compulsão de dizer para quem me queira ouvir: pilikia pau! Isso, na fala havaiana, é a expressão que se usa para dizer que problemas existem, mas vão passar. Para nosso alívio diante dos dramáticos dias em que a humanidade vem sendo fustigada pelo vírus tão nefasto, que não se perca de vista a esperança - e até a certeza - de que vamos vencer a pandemia. Então... pilikia pau!

Acrescente-se, para finalizar, um muito obrigado pela vida que temos vivido. Pelas tantas benesses que a Providência tem sido pródiga em nos conceder. Pelos nossos sonhos, pelas nossas realizações, pelas nossas recordações, pelo tempo em que pudemos desfrutar do convívio com tanta gente boa, pela nossa educação, e até mesmo pelo que pudemos aprender com os nossos insucessos e contrariedades. E que o digamos em havaiano: mahalo! Mahalo nui! Obrigado, meu Deus, muito obrigado!
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