17/04/2021 às 16h19min - Atualizada em 17/04/2021 às 16h19min

Amor e Monstros (Netflix)

Vivian Soares Estudante e crítica de cinema. Foto: Arquivo/Pessoal
 
Em 1949, o antropólogo Joseph Campbell propôs uma estrutura comum a vários mitos chamada ‘’Jornada do Herói’’, que influencia produções literárias e cinematográficas até hoje. ‘’Amor e Monstros’’ é uma aplicação divertida e contemporânea do monomito de Campbell, trazendo, através de uma estética colorida e humor ácido, o crescimento pessoal de um herói em busca do amor e de sua identidade.

Joel Dawson (Dylan O’Brien), a princípio, não tem exatamente as características esperadas de um herói. É medroso, impulsivo, inconsequente, distraído e não sabe nem o básico sobre autodefesa. Mesmo assim, após sete anos de isolamento em um mundo pós-apocalíptico tomado por insetos e anfíbios mutantes gigantescos, ele decide percorrer quilômetros até a colônia de Aimee (Jessica Henwick), sua ex-namorada de adolescência.

Apesar da premissa simples, o filme se reinventa em seus próprios clichês, atribuindo, por exemplo, um tom de fábula na relação entre Joel e seu cachorro, em que o jovem fala com o animal e ele responde com gestos. A narrativa cheia de cores e desenhos e a personalidade cativante do protagonista  sustentam a progressão da história de forma muito leve, mesmo que os momentos de clímax sejam devidamente tensos.

Sendo um filme despretensioso exemplar, ‘’Amor e Monstros’’ acerta por seu clima divertidíssimo, reinvenção e ousadia.

Pássaros de Verão (Amazon Prime Video)
 
Há poucos diretores com sensibilidade o suficiente para construir dramas históricos ao estilo de grandes tragédias épicas. ‘’Pássaros de Verão’’ é um grande acerto dos cineastas colombianos Ciro Guerra e Cristina Gallego, remontando às origens do narcotráfico na Colômbia ao estilo de um poema épico, dividido em cantos.

Tudo começa com o ritual da tribo indígena Wayuu, no qual Zaida (Natalia Reyes) é apresentada aos demais como mulher após um período de isolamento. Rapayet (José Acosta), se apaixona de imediato pela jovem e, sem perspectiva de emprego para pagar o dote e se casar com a moça, ele se vê obrigado a vender maconha para estrangeiros. Mas o que começou como um negócio ‘’inocente’’ toma proporções avassaladoras à medida que o mundo de ostentação, guerra e morte do tráfico vai se revelando e começa a ameaçar as vidas de sua família e tribo.

A cultura e tradição indígenas cedem lugar à cobiça dos alijunas (palavra em Wayuu para designar forasteiros), e assim, sua vivência simples é totalmente corrompida pela sede de poder. Seguindo a premissa das tão conhecidas tragédias gregas, o filme se consagra como uma história de ascensão e decadência.

Cheio de ritos, tradição, amargura e objetividade, ‘’Pássaros de Verão’’ faz total jus ao próprio título, sendo, acima de tudo, uma história sobre efemeridade.
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