05/07/2020 às 07h00min - Atualizada em 05/07/2020 às 07h00min

Osvaldo Serrão

Osvaldo Serrão. Foto:Arquivo Pessoal.
15 ANOS SEM O MESTRE

No dia 15 de junho de 2005, a confraria dos advogados criminalistas paraenses perdia uma de suas mais excelsas estrelas. Morria, no apogeu da vida, e no ápice da carreira, o ilustre Jurista Paulo de Tarso Dias Klautau.

Completando no próximo dia 15, 15 anos de seu falecimento, relembro, com saudade, a homenagem que prestei à sua memória no auditório da Ordem dos Advogados do Brasil, logo após o óbito:

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Senhor Presidente, Senhores Conselheiros, Colegas Advogados, Familiares do saudoso Homenageado.

Fugirei do trivial, e não lerei seu currículo acadêmico. Vou deixar meu coração falar para os anais desta Casa sobre o ser humano Paulo Klautau.

A tanto, farei brevíssima digressão sobre a história de minha carreira. 

De origem social humilde, tinha eu tudo para não dar certo.

Ainda assim, tive o privilégio de concluir o curso de Direito aos 21 anos; idade em que, no geral, se ingressava na Universidade.

Nesses 30 anos de atuação profissional – orgulhosamente, sempre na área penal – de certa forma, atuei nos grandes processos do Estado do Pará.

Essa fantástica experiência me proporcionou a singular honra de labutar diariamente com uma plêiade de notáveis advogados e advogadas. 

Fiz dezenas de colegas. Tive, todavia, apenas dois grandes amigos, cada um em seu tempo: os talentosos criminalistas Odilson Novo e Paulo Klautau; que, pelo afeto sincero, me adotaram como uma espécie de ‘irmão mais novo’.

Odilson, conheci na militância da advocacia. Paulo, como presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, de quem, fui, honrosamente, conselheiro.

Sou, pois, testemunha ocular do dia a dia profissional de dois homens ímpares, no caráter e no talento.

A construção da amizade humana não é apenas fascinante, mas enigmática.

O parente, por exemplo, fenômeno biológico, é uma imposição da natureza. O amigo, ao contrário, quem imperativamente escolhe é sempre o coração.

Odilson e Paulo, antes da amizade, já eram meus grandes ídolos. Fonte maior de inspiração para minha opção pelo direito criminal.

Nesse aspecto, aliás, fui duplamente contemplado pelos deuses da Justiça. Primeiro, por ser contemporâneo dos dois mitos. Segundo, pelo privilégio de com eles conviver. Uma espécie de benção dos céus.

Tínhamos semelhante visão do Direito, e às vezes, até uma estranha sincronia de pensamento quando trabalhávamos juntos na mesma causa.

Deles aprendi a lição de que o verdadeiro criminalista jamais pode automatizar-se, porque a matéria prima da nossa atividade é sempre o drama da vida. 

E que cada causa patrocinada - seja ao lado da dor da família da vítima, como do remorso do acusado - pela energia espiritual irradiada, a nós sempre haveria engrandecerá como ser humano.

Certo é que ao longo de nossas vidas, demo-nos prova de bem querer e respeito recíprocos, mesmo quando em lados processualmente opostos. 

Eram verdadeiros artesãos do direito. E, apesar de minha razoável experiência, sempre foi extremamente difícil litigar em causas que tinham Odilson e Paulo como patronos, porque, não raro, ao articular suas teses, atingiam a jugular processual do adversário. 

Verdadeiros escafandristas das entrelinhas, sempre surpreendendo com o chamado “algo mais”, de que falava o saudoso Evaristo Morais Filho. 

Ao lado dos dois, participei de memoráveis defesas. Ambos, porém, por estranha ironia, soltaram minhas mãos no meio de decisivos combates jurídicos. Odilson – que assomaria comigo a tribuna - faleceu à véspera do julgamento de cliente acusado de participação na morte de ilustre parlamentar. 

E agora Paulo, meu companheiro de causa, se afasta, abruptamente, de mim no clamor de uma das tarefas mais difíceis de minha carreira: o processo dos acusados pelo assassinato da religiosa Doroty Stang.    

O saudoso Evandro Lins e Silva, falecido com quase 100 anos de idade, certa vez afirmou que a longevidade impõe um doloroso tributo ao remanescente: a inevitável solidão pelo gradual perecimento dos companheiros de viagem. 

Nesse contexto, aliás, sempre tive para mim que a morte em si, como fenômeno biológico, quase nada representa, isoladamente considerada. 

O que efetivamente vale, e faz o coração sangrar, é a pungente dor saudade do nunca mais, da lembrança do ser querido, do vazio deixado pela ausência, dos costumes e hábitos diários, do reflexo da imagem nos objetos pessoais, a da energia pessoal que pouco se esvai; enfim, a aura. 

No particular, minha relação afetiva com Paulo era demais curiosa. Passávamos, às vezes, semanas sem nos ver pessoalmente. 

Mas, paradoxalmente, possuíamos uma compulsiva necessidade de nos falarmos ao telefone, pelo menos duas vezes do mesmo dia.

Em nossas conversas, certa vez me disse que o estudioso do Direito sofre de um mal que ele denominava de ‘solidão acadêmica’: justo a falta de um colega de igual coturno para trocar opiniões e sugestões técnicas.

Hoje tenho exata noção da mensagem, porque não possuo mais o amigo de todo fim de tarde, para comentar nossas atuações do dia. 

Fiquei sem o companheiro que ao sair do escritório às sextas-feiras à noite, sempre se despedia, dizendo-se às ordens para qualquer eventualidade do meu final de semana.

Na sexta que antecedeu sua morte, sabendo-me tenso por um julgamento que faria na segunda-feira, limitou-se a desejar-me êxito. Nem mais uma palavra. 

Particularmente, o senti cansado. Parecia estranhamente abatido. Sem, porém, qualquer queixume, qualquer lamúria, qualquer reclamo. 

Mal podia eu imaginar que o guerreiro estava, naquele dia, se despedindo de mim, dando-me o derradeiro adeus.

Agora, amenizada a dor pungente, fico a refletir sobre o significado daquele momento, porque suas palavras ainda ecoam vivamente em minha memória. 

Imagino que, como bom maratonista, naquele telefonema me entregava, simbolicamente, a tocha olímpica, como a lembrar-me que a luta não podia parar.

Perdi, enfim, minha referência profissional. Perdi a palavra amiga que sempre amai-nava meus arroubos.  

Certo é que os velhos e queridos colegas de minha geração, lamentavelmente, estão indo embora para a advocacia criminal celestial.  

Hoje, bem refletindo, começo a ter a levíssima sensação de que estou, pouco a pouco, ficando sozinho em nossa confraria.


Osvaldo Serrão 
Crônicas – advogado, presidente da Associação Brasileira dos Advogados Criminalistas
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