14/06/2020 às 07h00min - Atualizada em 14/06/2020 às 07h00min

Maçons no campo de concentração nazista

Nilson Montoril Júnior. Foto:Arquivo Pessoal.
Há alguns anos deparei-me com uma informação na internet sobre uma loja maçônica fundada em um campo de concentração. É exatamente isso, caro leitor: uma célula de liberdade, tolerância e amor, dentro da expressão máxima do terror e maldade humana. Assim surgiu uma das mais belas páginas da história da franco-maçonaria.
 
Sabe-se cerca de duzentos mil maçons em toda Europa ocupada foram enviados para os campos de concentração, não podendo, obviamente, duas doutrinas tão antagônicas conviverem dentro do regime nazista. O ódio que Hitler nutria pela maçonaria foi claramente divulgado num documento de 1931 dirigido às autoridades do partido nazista e dado como um "Guia e Carta de Instrução", que declarava: "A hostilidade natural dos camponeses contra os judeus, e sua hostilidade contra o maçom como um servo do judeu, devem ser trabalhados até um frenesi.".
 
Em um trecho de um discurso sobre a ameaça maçônica Hitler declarou: "Todas as abominações supostas, os esqueletos e caveiras, os caixões e os mistérios, são coisas simples para as crianças. Mas há um elemento perigoso e que é o elemento que copiei a partir deles (os maçons). Eles formam uma espécie de nobreza sacerdotal. Eles desenvolveram uma doutrina esotérica não apenas formulada, mas transmitida através dos símbolos e mistérios em graus de iniciação. A organização hierárquica e da iniciação através de ritos simbólicos, isto é, sem incomodar o cérebro, mas através do trabalho sobre a imaginação através da magia e dos símbolos de um culto, tudo isso tem um elemento perigoso. Vocês não vêem que o nosso partido tem de ser uma Ordem? Uma Ordem. Na ordem hierárquica de um sacerdócio secular entre nós mesmos ou os maçons ou a Igreja, só há espaço para um dos três e não mais ... Nós somos o mais forte dos três e devemos nos livrar dos outros dois".
 
Em 8 de agosto de 1935, dois anos após chegar ao poder, Hitler dissolve a maçonaria alemã por intermédio de um decreto e logo todos os templos maçônicos são roubados e destruídos. Muitos maçons alemães são presos e assassinados pela Gestapo, a polícia secreta do regime e as dez Grandes Lojas da Alemanha foram dissolvidas. Muitos entre os dignitários proeminentes e membros da Ordem foram enviados para campos de concentração. A Gestapo aproveitou as listas de membros das Grandes Lojas, saquearam suas bibliotecas e coleções de objetos maçônicos e seus membros entraram para a clandestinidade ou foram deportados paras os campos de concentração. A perseguição foi transportada para a Áustria, quando o país foi capturado pelos nazistas, e o mesmo procedimento foi repetido quando Hitler assumiu a Tchecoslováquia, e em seguida, a Polônia, Holanda e Bélgica.
 
“LIBERTÉ CHÈRIE” (“Liberdade Querida”) foi uma das poucas Lojas Maçônicas que sem tem notícia fundadas dentro de um campo de concentração nazista durante a Segunda Guerra Mundial. A Loja foi fundada em de 15 de novembro de 1943 por sete maçons belgas e integrantes da resistência dentro do Campo de Concentração 6 HUT EMSLANDLAGER VII, localizado na cidade de Esterwegen, norte da Alemanha. 
 
O nome da loja deriva do VI verso de La Marseillaise:
 
“Amour sacré de la Patrie
Conduis, soutiens nos bras vengeurs
Liberté, Liberté chérie
Combats avec tes défenseurs !”. “Amor sagrado da Pátria
Conduz, apoie nos braços nossos vingadores
Liberdade, liberdade querida
Luta com os seus defensores!”)
 
O brasão da loja continha o dístico iluminista “Liberte, Egalite e Fraternite”, ladeando um triangulo em listras brancas e azuis, cor do uniforme dos prisioneiros, contendo no centro um triângulo vermelho invertido, símbolo dos prisioneiros políticos. Por fim, duas letras “N” o ladeiam, uma alusão a “Nacht und Nebel” (“Noite e Névoa”), uma alusão ao decreto secreto promulgado em 07 de dezembro de 1941 denominado “diretrizes para a acusação de crimes contra o Reich ou a potência ocupante nos territórios ocupados”, determinando a deportação de suspeitos de integrarem movimentos de resistência na França, Bélgica, Luxemburgo, a Holanda e Noruega para a Alemanha, para que ficassem presos até a execução. A razão de tal título era porque as prisões deveriam ser executadas no horário noturno, com objetivo de acobertar a ação e de inspirar o terror. O decreto foi promulgada pelo chefe do Alto Comando da Wehrmacht (OKW), WILHELM KEITEL e considerado crime de guerra e crime contra a humanidade, sendo incluído nos Julgamentos de Nuremberg.
 
A Loja foi criada dentro do barraco nº 6. O primeiro comboio de presos políticos “NN” (Nacht und Nebel) chegou na sexta-feira, 21 de maio de 1943 e o segundo em 28 de maio de 1943. Estavam dentre os primeiros prisioneiros os maçons FRANZ ROCHAT (1908-1945), farmacêutico, contribuidor do jornal clandestino “La Voix des Belges”, iniciou na Loja Maçônica “Les Amis Philanthropes N°3”, em Bruxelas; JEAN SUGG (1897-1945), representante comercial de produtos farmacêuticos, membro da resistência e membro da Loja “Les Amis Philanthropes N°3″, em Bruxelas; GUY HANNECART (1903-1945), advogado, dirigente do jornal “Voix des Belges” e membro da Loja “Les Amis Philanthropes N°3”, em Bruxelas; PAUL HANSON (1889 – 1944), Juiz de Paz no cantão de Louveigné, pertencente ao serviço de informação e membro da Loja “Hiram à l’Orient”, de Liège; FERNAND ERAUW (1914 - 1997) Diretor no Ministério do Exército e Tenente do Serviço Secreto Belga, iniciado na Loja “Liberté Chèrie”.
 
Todos os cinco foram alojados no barraco nº 6 e se reuniam na mesma mesa com outros prisioneiros. No barraco haviam militares, funcionários públicos, médicos, advogados, jornalistas, padres, professores, estudantes, comerciantes, trabalhadores, aristocratas. Os grupos se formaram por adesão devido às afinidades linguísticas e participação em organizações de resistência. Os alemães permitiam orações coletivas e sacerdotes católicos eram trazidos no período noturno para administrá-las. No Barraco nº 6 os fiéis eram muito mais numerosos e domingo de manhã se reuniam na parte inferior do dormitório para a missa. Os Maçons também se beneficiavam do encontro e, enquanto os demais participavam da missa, uma das mesas era esvaziada de seus ocupantes, ficando os maçons separados dos demais por armários. Então, relativamente isolados, os maçons podiam fazer suas sessões ainda como um Circulo Fraternal.
 
Porém, com a chegada de novos Irmãos, o Circulo Fraternal se transformaria em Loja Maçônica. De fato, em meados de outubro de 1943 novos obreiros chegaram ao campo: LUC SOMERHAUSEN (1903-1982), Jornalista, iniciado na Loja “Action et Solidarité”. Como ele era bastante experiente e sabia como fazer para criar a futura Loja, escreveu os estatutos. Em comunicado, ele obtém o reconhecimento oficial da Loja pelo Grande Oriente da Bélgica como ”Liberté Chère”; JOSEPH DEGUELDRE (1904-1981), médico, membro da Loja “Travail” em Verviers e membro do serviço secreto belga. Ele está sentado à mesa 2 com um grupo de combatentes da resistência de sua região, mas participa das sessões no domingo de manhã; e AMÉDÉE MICLOTTE 1902 – 1945), Professor, membro da Loja ”Verdadeiro Amigos da União e Progresso”. 
 
Com este quadro é permitida a fundação da Loja e o seu reconhecimento na segunda metade de novembro de 1944. Dois a três meses mais tarde, chegaram ao Campo de Concentração dois outros maçons: JEAN BAPTISTE DE SCHRYVER (1903-1945), em 7 de Fevereiro de 1944, coronel, membro da Loja “Liberté” de Gand, Bélgica; e HENRY STORY (1897-1944), em 18 de Março de 1944, um diretor de banco e membro da Loja “Septentrion”, também de Gand. 
 
PAUL HANSON foi eleito Venerável Mestre. Nas sessões eram praticados rituais bastante simplificados (a cujo sigilo eles pediram à comunidade de padres católicos que iam ao Campo de Concentração). 
 
Após a primeira sessão ritual, com a iniciação de FERNAND ERAUW (1914-1997) dentro do Campo de Concentração de Esterwegen, único caso na história, outras sessões foram preparadas tematicamente. Uma delas foi dedicada ao símbolo do Grande Arquiteto do Universo, outra denominada “O futuro da Bélgica”, e mais uma sobre “A posição das mulheres na Maçonaria”.
 
De todos os valorosos irmãos apenas SOMERHAUSEN, DEGUELDRE e ERAUW sobreviveram ao final da guerra. A Loja encerrou seus trabalhos no início de 1944.



Nilson Montoril Júnior
Advogado, maçom e músico
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