19/06/2021 às 16h20min - Atualizada em 19/06/2021 às 16h20min

A AMAZÔNIA NÃO SE DOMA COM ESPINAFRE.

Rogerio Reis Devisate Advogado. Defensor Público/RJ junto ao STF, STJ e TJ/RJ. Palestrante. Escritor. Foto:Arquivo Pessoal.
Da próxima vez que olhar um poste na rua, multiplique por três a sua altura e imagine que chegou a esse nível a atual cheia do Rio Negro (cerca de 30 metros de altura, igualando o recorde de 1902).

30 metros de altura equivalem a um prédio de 10 andares. Uma imensa quantidade de água corrente, que se espalha por quilômetros além das margens habituais.

Para se ter uma ideia, tal cheia afogaria a cidade de Paris, já que muitos dos seus prédios não passam de 12 andares de altura.

Esse é pequeno exemplo do que é a Amazônia e dos desafios que representa.

Vivem na Amazônia brasileira cerca de 23 milhões de pessoas, número próximo ao de pessoas que vivem na Austrália.

Ideias estrangeiras já a tentaram manejar de várias formas,  o que inclui os projetos Jari e a Fordlândia. O primeiro, há mais de 50 anos iniciou desmatamento de parte da floresta para instalações da fábrica e para o plantio de árvores estrangeiras, para a produção de celulose. O segundo, há cerca de 100 anos, desmatou parte da floresta para plantação de seringueiras e a industrialização da borracha.

Como já falamos no Projeto Jari há semanas, hoje abordaremos esse visionário projeto de Henry Ford, cujas instalações ficam há pouco mais de 100 quilômetros de Santarém, no Pará.

Naquele tempo, era a Inglaterra que dominava o comércio mundial da borracha, que era plantada nas suas colônias asiáticas, com sementes biopirateadas do Brasil.

Para contornar o monopólio inglês, a Ford adquiriu área com cerca de 1 milhão de hectares, próxima ao Rio Tapajós. Logo começou a construir as instalações do parque industrial e da vila de trabalhadores.

A clareira se abria na floresta enquanto estradas e prédios surgiam, com caldeiras movimentando as turbinas que geravam energia. Residências, hospital, cemitério, instalações fabris, paisagismo e arruamento fora do nosso padrão - verdadeira revolução em plena selva.

Sabemos que o projeto não vingou, tendo sido abandonado por volta de 1934. A floresta vencia mais uma batalha contra os que a tentavam domar.

Duas curiosidades do tempo merecem destaque.

A primeira delas é de que era nativa a borracha de boa qualidade que o Brasil possuía, que decorria dos processos que a força da natureza levou tempos para concluir, distribuindo a seringueira em meio a outras árvores. Dessa diversidade é que advinha a força, a produtividade e a saúde da árvore da borracha. Assim, em Fordlândia não poderia ter êxito a implantação da linha de produção de borracha, inspirada na ideia da “linha de produção” dos carros, oriunda das suas fábricas em Detroit.

Plantadas simetricamente e aos milhões, as mudas plantadas ficaram vulneráveis a doenças e imprestáveis para produzir o látex.

Como se não tivessem aprendido a lição, criaram um 2º centro, em  Belterra, onde repetiram o modo de cultivo – desta vez com sementes vindas do Ceilão, supostamente mais resistentes. Todavia, como avançavam as pesquisas com a borracha sintética e com o fim da Segunda Guerra Mundial, a Ford deixou a Amazônia e vendeu as suas terras amazonenses para o governo brasileiro – e hoje as construções estão abandonadas e a floresta retomou os campos artificiais.

A outra curiosidade talvez pudesse fazer parte do anedotário, não fosse de extrema importância, como reflexo da cultura e da autodeterminação dos povos.

Os trabalhadores resistiram àquela imposição de cultura estrangeira. Se a Lei Seca existiu nos EUA (de 1920 a 1933), por qual motivo foram proibir os trabalhadores brasileiros de tomar pinga? Some-se a isso a dieta com base em flocos de milho e espinafre.
Com esses ingredientes, a insatisfação foi crescendo até que se transformou na “revolta das panelas”, com os trabalhadores protestando contra tudo aquilo e reclamando da falta de feijão com farinha na dieta – e, claro, da pinga, que era contrabandeada até dentro de frutos.

Como se vê, não é de hoje que se almeja a tomada da Amazônia, inclusive com registro de que o ex-Presidente americano William Taft (1909-1913), na ambiência do Primeiro Congresso Pan-Americano, teria anunciado que todo o hemisfério seria deles, já que o seria “moralmente”.

Hoje, outras vozes ecoam falando em proteção da floresta – o que inegavelmente não pode deixar de ser feito – e querendo determinar ações e processos dentro do soberano território brasileiro...

Todavia, não é crível se falar em salvar a Amazônia ou se decidir o seu destino por procuração – já que está sob o nosso pálio, historicamente, bem como dos demais países da Região.

Rápida pesquisa nos informa que noutros países é cultural a construção de casas com madeira, hoje em modelos de todos os tipos, em releitura mais sustentável das raízes desses povos, relembrando dos tempos nos quais a madeira era abundante e barata – e por isso extraída para construção de tantas casas.

Ao longo da história, quanta madeira já não se extraiu das florestas para se construir casas grandes, imensas e luxuosas – por exemplo, nos EUA, onde há tantas construções com esse material?

Aqui, as casas de alvenaria acabam sendo reflexo cultural protetor das matas e florestas.

Como visto, ainda é atual a ideia de que muitos falam em salvar a nossa Amazônia, sem dizer de quem, buscando a sua a guarda e tutela e esquecendo-se de que a floresta existe porque a conservamos – e bem – diante das grandes áreas devastadas no mundo.
Aliás, curiosamente, há dias foi noticiado que indígenas viveram na floresta por 5 mil anos sem destruir o seu bioma, o que nos faz refletir e indagar: por qual motivo ainda temos Floresta Amazônica e as maiores florestas urbanas (Tijuca, Pedra Branca e Cantareira, as duas primeiras no Rio de Janeiro e a última em São Paulo) e a Europa não tem os seus “indígenas” vivendo nas suas florestas?

Os que destruíram os biomas e florestas que tinham agora parecem cobiçar a grande Amazônia por questões ambientais... Se não cuidaram das “suas” florestas, por qual motivo cuidariam da nossa? Parafraseando aquele ditado popular, “a grama do vizinho parece mais verde” e, nesse caso, só porque o vizinho (nós) ainda temos “grama”.

A nossa Amazônia não é do mundo e isso significa que devem ser respeitadas a Soberania e a autodeterminação do Brasil e dos brasileiros, bem como a cultura nacional, o que inclui hábitos alimentares, conhecimentos tradicionais, línguas, valores, crenças e a integração desses 23 milhões de brasileiros com a Região Amazônica – sob o manto da Bandeira verde, amarela, azul e branca.
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