19/06/2021 às 16h22min - Atualizada em 19/06/2021 às 16h22min

A REZA DO REMADOR

Rui Guilherme Juiz de Direito e Escritor. Foto: Arquivo Pessoal
Acho que isso acontece com todo mundo. Mas, como não sou porta-voz de ninguém, se não acontece com todo mundo, comigo, pelo menos, ocorre com frequência me deparar com gente de que gosto de cara; ou, ao contrário, outros com os quais sinto que dificilmente vou me dar bem. Claro que, ao longo dos anos, didaticamente a vida me ensinou a burrice que é prejulgar. Uns, que me despertaram de saída antipatia gratuita, vieram a tornar-se pessoas queridas. Outros, do outro time, com os quais senti que me daria muito bem, com a convivência acabaram revelando se não o mau caráter, pelo menos que não mereciam continuar no meu círculo de amizade.

O remador e sua mulher formam um casal do qual todo mundo parece gostar. E aqueles que gostam, gostam pra valer. É o que pude perceber no meio daqueles conhecidos em comum.

O morador da cidade grande desenvolve uma certa cautela no contato com o próximo. É emblemático o diálogo frequente no Rio de Janeiro travado entre a turma do chope eventual depois da praia: - “Poxa, cara, você é muito legal! Aparece lá em casa qualquer dia”, mas nunca dá o endereço. E ainda pode no chope seguinte o carioca dizer na maior cara de pau:- “Pô, cara, eu te esperei e você não apareceu! Que bom que a gente tá se vendo de novo!”; e o papo rola com a maior naturalidade, superficial como sempre.
O nortista de um modo geral, quem sabe se por serem menores as cidades, quando chama alguém para ir à sua casa, se prepara, e à própria família, para receber o convidado. Há até laivos da hospitalidade do beduíno. Este último, fiel aos ditames do Corão, ao receber alguém em sua tenda mata a derradeira cabra, põe à mesa as tâmaras mais maduras, o melhor chá, o mais suculento queijo, pois o viajor a quem está sendo dado abrigo pode ser um anjo mandado por Alá.

Recebemos o remador e madame em nossa casa, em eventos de que tomavam parte outros amigos das mais diversas procedências. Fiéis às nossas origens paraenses, sempre gostamos de abrir nossa casa em festa, naturalmente que na era ACV (antes do corona vírus). Em alguns desses convescotes, com farta mesa de guloseimas nortistas, tivemos a alegria de contar com o casal do qual trata este artigo. Formou-se, dessa maneira, uma ligação afetiva que veio crescendo com o tempo.

O casal é fervorosamente católico. Sua devoção é genuína e contagiante. A forma com a qual rezam comove pela autenticidade da qual se reveste. Exercem, os dois, uma gentil liderança nos movimentos da paróquia, dos quais participamos.

Ele, um empresário bem sucedido, sempre foi dado aos esportes náuticos. Remador de prancha, modalidade a que aderiu já maduro, ganhou significativa quantidade de troféus nas competições de que participou. Moram em frente à praia. Na visita que lhes fizemos, além de rezarmos juntos o terço, conversamos longo tempo animadamente, com direito a consomé de batata baroa, bolo de coco e vinho do Porto para arrematar, tudo servido com carinho fraternal.

À certa altura, falou-nos a anfitriã que fica vendo da janela do apartamento o marido dar uma parada nas vigorosas remadas de sua prancha, para nela sentar e ficar se deixando flutuar nas ondas gentis de Copacabana. Nesse momento, o remador, no balanço do mar entra em contato direto com o Poder Superior. Agradece comovido pelas dádivas que vem recebendo com tanta prodigalidade, pela saúde que lhe foi devolvida milagrosamente quando o Senhor despegou um braço da cruz, curando-lhe o corpo abalado pela enfermidade.

Agradeço ao casal querido pela hospitalidade. Sobretudo pelos momentos de devoção em que, juntos, rezamos pelo fim da pandemia. Minha voz é fraca, mas com a ajuda da Mãe Maria, a quem clamamos como advogada e intercessora, pode ser que meus pedidos sejam magnanimamente acolhidos pelo Todo Poderoso. A Ele, minha gratidão por tudo que já passei nesta vida. Pelos bons momentos que a memória me permite reviver. Pelos dias procelosos, em que recebi do alto o cabedal de forças necessário para prosseguir em minha jornada. Pelos meus erros – e foram muitos! – e pelos eventuais acertos. Pelos inimigos, se é que os tenho, para que me perdoem pelo mal que lhes posso ter desejado. Na minha estupidez, se me escapou que aquele que odeia fica bebendo do próprio veneno que destila.

Meu amigo remador premiado, certo que foi a força de seus braços que lhe fez ganhar a velocidade necessária para abiscoitar o troféu almejado. Mas quem lhe deu energia para remar, equilíbrio para suster-se de pé, impávido, na sua prancha, e com ela singrar o percurso da prova atingindo em primeiro lugar a meta de chegada, quem lhe deu e lhe dá o vigor para a sucessão de conquistas é aquele braço amoroso que se despregou por instantes da cruz. A Ele, e ao Pai, e ao Paráclito, toda honra e toda glória, agora e para sempre. Amém.
Relacionadas »
Comentários »