19/06/2021 às 16h28min - Atualizada em 19/06/2021 às 16h28min

O desafio marajoara e o Mito de Sísifo (tributo ao meu pai)

Vicente Cruz Presidente do Conselho de Administração, advogado sênior e Estrategista Chefe do IDAM (Instituto de Direito e Advocacia da Amazônia) Foto:Arquivo/Pessoal
Numa manhã nublada de abril, decidi sair do serviço e ir à casa de meu pai no bairro do laguinho. Como não era terça, sábado ou domingo, dias em que costumava visitá-lo, meu pai se surpreendeu.  Na ocasião, trajava um impecável terno azul, ajustado pelas mãos artesanais e perfeccionistas do bom alfaiate Vadoca, seu amigo dos tempos do Mercado Central. Ao sentar, meu pai ficou de frente comigo e pôs suas pesadas mãos sobre meus ombros. Era esse meu sonho - disse com sua voz firme - ver os meus filhos formados e trabalhando num local decente, sem fazer força e limpos. Conhecia de cor todas as histórias de meu pai, mas nunca ousei ignorá-las, porque sempre havia uma novidade nas suas narrativas. Dessa vez o que me surpreendeu foi dizer, bem pausadamente, que não tinha atravessado em vão o Rio Amazonas.

Aquela afirmação, imediatamente, me fez interrogá-lo com um olhar que ele bem conhecia. Disse ele que todos os habitantes da Ilha do Marajó que atravessam o Rio Amazonas para morar em Macapá trazem consigo um propósito comum: trazer dias melhores para si e para suas descendências. O desafio ou revolta é conseguir tal intento. A vida na floresta é dura, dizia, mas isso só é perceptível com uma experiência na cidade, vendo as facilidades que a vida citadina proporciona àqueles que aceitam o desafio de mudar suas realidades. Papai topou esse desafio, sabendo que entrava numa competição em que as derrotas eram frequentes. Sabia que não eram raros os casos em os aventureiros marajoaras viam frustrado seus objetivos, tendo na cidade uma vida tão indigna quanto a que tinham na floresta.

Papai – como tantos outros marajoaras – propôs-se a ser mão de obra barata para viabilizar o sonho de oferecer dias melhores para si e seus descendentes. O preço que pagou pela ousadia foi caro. O caboclo amazônico em geral, e em especial o caboclo marajoara, quando se aventura a morar na cidade expõe-se a toda sorte de preconceito. Seu jeito de falar, de agir, de se vestir, tudo se consubstancia em desvantagem competitiva e pilhéria social. Matar uma onça por dia passa a ser seu lema. Não são escassas as mudanças de ofício para poder sobreviver na cidade. Papai foi carpinteiro, trabalhou em oficina de lanternagem de veículo e açougueiro, mudanças necessárias para poder sobreviver na nova selva que escolheu para viver e agasalhar o sonho de proporcionar aos descendentes uma educação que nunca teve.

Ao ver alguns de seus filhos graduados, papai ousou desafiar a filosofia existencialista de Albert Camus, descrita na obra O Mito de Sísifo, em que assevera que o homem vive em sua existência em busca de sua essência, de seu propósito, mas se depara com um mundo caótico, desconexo, ininteligível, guiado por dogmas e teorias acachapantes que inviabilizam a felicidade. Seus netos foram mais além e aumentaram a ousadia do marajoara errante que atravessou o Rio Amazonas para desafiar ou se revoltar com o destino. Ramon, seu neto e meu filho, honrando o desafio do avô, ao lograr aprovação em outro curso superior, em universidade pública, após já ser graduado, prestigia o pensamento de Camus e lá do alto manda o recado que chegou no topo da montanha com a pedra debaixo dos braços, dando sentido à luta aparentemente sem sentido de seu avô. Para os marajoaras não há onças invencíveis, imaginem pedras.
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