24/07/2021 às 21h37min - Atualizada em 24/07/2021 às 21h37min

Da mais não...

José Altino Jornalista diário, escritor, aviador, ex-fundador da União Sindical dos Garimpeiros da Amazônia Legal, ex-membro do Conselho Superior de Minas. Foto:Arquivo/Pesssoal.]
Cheguei à velhice. Sob protestos, mas cheguei. Ave Maria, que Deus me cuide!

 Há pouco tempo, escrevi algo sobre uma ida ao médico, em que, imaginando-me doente, reclamava até de calor extremo. Dizia ainda acreditar estar ficando até mais baixo. Uma simpática e objetiva leitora me tascou um cruel e-mail, dizendo que meu mal não era doença e sim idade. Achei graça, dei um muxoxo e fiquei na minha. Agora, entretanto...

Venho de mais uma correria pelos grandes sertões do Brasil. Para quem nunca disse, posso afirmar que não só em pequenos aviões, mas também de carro, já percorri quase todos os rincões nacionais. Tudo é impossível, mas conheço bastante do país e da gente por onde passo e vivo.

Uma aventura marital de cinco anos, com uma gaúcha de pernas bem grossas, lá de Santana do Livramento, na fronteira, fez com que eu tivesse a oportunidade de andar pelos caminhos, de norte aos pampas do sul brasileiro. O trabalho já havia me levado ao Nordeste, sonhos e ideais, para a Amazônia e Centro-Oeste.

Ainda hoje meus interesses reclamam minhas atenções no sul do estado do Pará, a exatos 3.450 km de minha morada num bairro, logo ali. Anteriormente cumpria o trajeto em pequenos aviões. Qualquer coisa de oito e meia, nove horas de vôo. Tirava de letra... E sozinho até a “boa” companhia chegar. Porém, passado algum tempo, comecei a chegar, lá ou cá, e minha alma dois dias depois. Eu ali, teimando em pôr a culpa no avião ou no mau tempo da rota, ou mesmo no moderno stress, lógico.... Até que não deu mais.

Com tantos sinais evidentes de pane no corpo e no espírito, sem aposentá-las, guardei as asas e embarquei de vez nos automóveis. O que realmente nunca me chateou, até porque gosto muito, e posso continuar voando baixo. Com isso tenho visto melhor o meu país funcionando, também aprendendo mais a admirar e respeitar a vida e o trabalho alheio. 

E é um Brasil formidável que sempre vejo. Mais humano, mais humilde, simples e trabalhador. Preços e custos, honestos e acessíveis, inclusive nos combustíveis. A cada quilômetro uma pequena venda, uma produção pouca, barata, mas que sustenta. Atrás deles, nos largos campos, rebanhos, dos melhores que já vi; plantações maiores que as que conheci.. 

 E engraçado, diferente de nossa região, por lá, quase ninguém reclama. Estão tão ocupados, cumprindo a parte deles, que não se lembram do trabalho que o governo deveria fazer e nem sempre o faz. Isso tudo me deixa satisfeito e feliz, apesar de estourado.

Realmente tenho ainda chegado pior agora, já não venho como antes, após quarenta e duas horas de viagem, apertado e motorizado. São longas retas ou serras poucas, sem fim. Por ser bom volante noturno, essa é sempre minha hora, na qual exagero, como um curiango da madrugada, até na velocidade. Durante o dia, ainda na direção, cansado, tonto, a vontade é parar e deitar ao chão na margem da estrada. Já sei que chegando a casa, a mulher e o prazer terão que esperar uns dois dias. Que fazer? Paciência...se bem que agora ela esperta. tem ido comigo.

Só lamento mesmo que, pelo tempo que me resta, não vá ver acontecer o que o Brasil me sinaliza. Vai ser o grande armazém do mundo e imensamente poderoso.

Consola-me que a vida seja uma seqüência de vidas e que possamos existir para sempre, estando presente através de outros. Bem por isso, Pai, que me precedeu nos ares e nas estradas poeirentas de chão daqueles tempos, deixou bem vivas em mim sementes de curiosidade útil e construtiva.  Na seqüência, meus filhos já adoram movimento e detestam uma boa cama. Ainda bem... o “guerreiro” cansou.
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