12/07/2020 às 07h09min - Atualizada em 12/07/2020 às 07h09min

​A MORTE A MINHA ESPREITA

Osvaldo Serrão. Foto:Arquivo Pessoal.
As crônicas que escrevo sobre os episódios mais curiosos e pitorescos de minha carreira têm impedido que, muitos deles, caiam no bueiro do esquecimento irreversível. 
É que quando discorro nas teclas do computador, acabo, inconscientemente, fazendo um exercício de memória, parecendo, às vezes, flutuar, em êxtase, numa assustadora viagem de retorno a situações que vivenciei no meu passado profissional.
A advocacia criminal sempre foi para mim um prazeroso exercício dessa emoção. 
Percebo que cada causa que trabalho, não raro, traz um rastro de mistério e enigma, que, nesse aspecto, nunca se compara com a anterior.
São dramas e tragédias das pessoas que sempre chegam com sua sutileza e peculiaridade, independentemente de classe social.
Convivi e convivo, lado a lado, com as duas faces da dor: dos acusados e das vítimas.
Porém, o lado mais comovente é quando represento os interesses da família do morto, porque buscando incorporar a emoção da causa, tento aquilatar, por aproximação, a dimensão da dor da saudade ...da dor do nunca mais do ser que se foi. 
Técnica e sentimento acabam se misturando, numa frenética perseguição da verdade dos fatos e punição dos culpados.
Nessa nobre missão, por inúmeras vezes, acabei me deparando com o fantástico mundo do inimaginável, como ocorreu num misterioso assassinato de jovem senhora, que pela brutalidade, comoveu todo o nordeste brasileiro.
Quem me contratou foi o próprio viúvo. A partir dali, passou a colar em mim 24 horas, pessoalmente ou por telefone. 

Toda hora queria informações detalhadas sobre as diligências policiais. ‘Doutor, alguma novidade pra hoje’. ‘Não meu amigo. Até agora, nada.’
Dia a dia, avaliávamos e analisávamos juntos, meticulosamente, todo o trabalho policial.
Mas, como proceder o advogado nos processos de júri? Aos meus olhos, as questões processuais, geralmente, se tornam irrelevantes para o objetivo maior da causa. 
Afinal, o que os jurados querem mesmo saber é como realmente se deram os fatos, quem praticou ou participou da conduta, e qual o perfil e histórico de seus personagens.
Adotando essa técnica ao longo das minhas reflexões, comecei a eliminar nomes de pessoas externas que poderiam estar envolvidas com o crime, e, ao mesmo tempo, direcionar meu raciocínio para as entranhas da própria família da vítima.
E, me perguntava: ‘Homicídio patrimonial ou passional? Ciúme, adultério, etc...? 
Enfim, buscava encontrar a chamada ‘ponta do iceberg’. 
Ocorre que todas as vezes que tocava nesse assunto com meu contratante, ele sempre os descartava com as mais variadas desculpas e argumentos.
‘Que é isso, doutor. Éramos um casal feliz. Confiava cegamente na minha mulher’. 
‘Pois é, meu amigo, mas as pedras do tabuleiro do jogo não estão batendo’.
Mal poderia imaginar o que estava me esperando, a partir do momento lhe disse isso.
O enigma maior foi que, à proporção que minhas suspeitas ganhavam vida, ficava a me perguntar quais as verdadeiras intenções, quanto a mim, da pessoa que me contratara.
Precisava testá-lo. Passei, então, habilmente, a lhe sonegar as informações que julgava mais relevantes.
O resultado foi que, pelo meu silêncio, acabou perdendo o domínio dos avanços da investigação.
E nessa minha angústia, comecei a desconfiar, também, dos próprios policiais, porque todas as linhas investigativas que lhes sugeria eram, estranhamente, descartadas. 
Havia muito dinheiro e interesses em jogo, e eu não sabia mais onde estava pisando 

E meu contratante, a cada dia, aparentava mais nervosismo; às vezes, até se descontrolando emocionalmente. Nenhuma lágrima, porém, escorria do visor dos seus olhos.
Eu não tinha mais dúvida: era ele o mandante do crime. 
E, a mais escabrosa conclusão: havia me contratado, porque precisava de um profissional de confiança que pudesse, de boa-fé, ir lhe repassando o rumo do trabalho policial.
Na verdade, o que não estava nos seus planos é que eu descobrisse o que realmente havia acontecido.
Certo é que, pela minha atuação, começava a contrariar diretamente seus interesses. E isso constituía um grave risco a minha própria vida.
‘Será que o advogado descobriu a verdade sobre mim? O que faço, agora, com ele?’
E me perguntava, de vez em quando: ‘Doutor, tenho notado o senhor diferente. Está acontecendo alguma coisa?’. ‘Não amigo, está tudo bem. Só um pouco cansado’.
Passei a me apavorar. ‘Se mandou matar a própria esposa, mãe dos seus filhos, o que poderá fazer comigo? 
Pânico maior quando soube que o suposto executor do crime havia sido assassinado no cárcere, numa espécie de ‘queima de arquivo’.
Estava, enfim, sozinho, e, o pior: sentado no epicentro daquele gigantesco polvo criminoso, com seus poderosos tentáculos mortais, direcionados a minha pessoa.
Precisava sair urgentemente da causa para proteger minha própria vida, mas não encontrava um pretexto, uma motivação, que pudesse convencer meu contratante. 
Inventava as mais variadas desculpas. E ele, ‘não, não e não; ‘estamos indo bem’.
De sua parte, tinha plena consciência que me tornara um grave perigo para ele. Necessitava, por isso, continuar me mantendo na sua alça de mira, e permanentemente.
Um fulminante infarto, porém, acabou me desvencilhando dele para sempre.
Já a verdade que descobri, levarei para o túmulo. 
Afinal, simples suspeita ou intuição, sem prova, de nada valem aos olhos da lei.



Osvaldo Serrão 
Crônicas – advogado, presidente da Associação Brasileira dos Advogados Criminalistas
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