28/08/2021 às 15h12min - Atualizada em 28/08/2021 às 15h12min

O MUNDO ELEGERÁ POLÍTICOS OU DIRETORES EXECUTIVOS NAS PRÓXIMAS ELEIÇÕES?

Rogerio Reis Devisate Advogado. Defensor Público/RJ junto ao STF, STJ e TJ/RJ. Palestrante. Escritor. Foto:Arquivo Pessoal.
 
Já notaram que há muito tempo foi organizada a “comunidade econômica europeia” e não a “comunidade política europeia”?
A economia tanto domina as pautas governamentais que os políticos poderão ser substituídos por gestores empresariais, como diretores executivos de empresas (CEO - Chief Executive Officer).
As empresas transnacionais têm ditado as regras no mundo. Aqui, decisões políticas nacionalistas, como a criação da Petrobrás, da Eletrobrás e da protetora legislação trabalhista sofreram resistência de vários setores, inclusive por alegada necessidade de captação de recursos estrangeiros. Recentemente, o Pré-Sal foi loteado para exploração por multinacionais e as mineradoras “de fora” dominam a cena há anos.
1945 foi um ano curioso. Finda a 2ª Guerra Mundial, Winston Churchill foi levado a renunciar, após ter liderado os Aliados na luta e vitória contra os Nazistas. Podemos crer que a liderança política do grande estadista inglês cedeu lugar às pautas econômicas. Aqui, Vargas era também tirado do poder.
A força econômica pauta o mundo desde então. A Guerra Fria só a temperou e, após a queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética, temas como o Estado Mínimo defendido pelo Consenso de Washington, o surgimento da Comunidade Econômica Europeia e a ascenção econômica da China têm, sob certa ótica, disputado quem oferece empregos mais baratos – e não melhorias de salário ou de vida aos trabalhadores.
Como exemplo, em 2007, sindicatos americanos admitiram o corte dos salários pela metade (menos de 15 dólares, por hora) para que certo modelo mundial de grande montadora ali fosse fabricado. Mesmo assim, a fabricação foi para o México, por 4,50 dólares por hora – e, na China, fábricas pagam até 1,50 dólares a hora... 
Aliás, os EUA precisavam apoiar países europeus na 2ª Guerra porque eram credores de muitos deles e, sem o Plano Marshall e o auxílio na reconstrução europeia, poderiam não receber os seus créditos. Hoje, a China é a maior credora individual dos EUA e, no tabuleiro político-econômico, os EUA enfrentam cenário oposto. Paradoxo curioso. 
A corda sempre está na cabeça do enforcado e o jogo exige que se mantenha o cadafalso na posição certa, para que não aconteça o golpe final. Acordos, tratados, eleições e  revoluções, tudo envolvido num grande cenário.
Em meio a tudo isso, sempre ocorreram as “fake news”, outrora usadas em guerras, batalhas e espionagem.  Apenas hoje estão mais popularizadas, pelo advento das redes sociais, levando-nos a não acreditar em tudo que lemos e, portanto, a não confiar em quase nada. Não se pode viver assim!
As fronteiras territoriais já caíram ante a circulação de capitais no mundo globalizado. Curiosamente, decisões políticas levaram ao fechamento das fronteiras entre os países, quando a Pandemia dominou a cena. Então, ainda há esperança de decisões políticas capazes de reagir à pressão econômica. 
A reação ou contrarreação das sociedades de pessoas e da política representativa terá de ser à altura das invisíveis forças manipuladoras dos mercados.
 
A lógica da gestão empresarial não resolve tudo. Nem tudo é movido pelo lucro, como exemplificam os serviços públicos de saúde e educação. 
 
As forças políticas têm sido questionadas no mundo todo. Significativa parte da população não se identifica com nada ou apenas segue um grupo com o qual se agrada no momento ou o que entende por maioria ou, por falta de opção, se posiciona não votando ou anulando o voto.
 
A pauta dos debates é basicamente econômica: superávit, balança de exportações, inflação, guerra fiscal, atração de investimentos estrangeiros, criação de comunidades econômicas... Nas rodas de conversa mais se escuta falar do aumento da gasolina, do preço do pão e da carne, da “carestia” e da crise atingindo empresas e endividamento das famílias e além, é claro, do gol perdido, do gol feito, da pandemia e de coisas assim. Portanto, fala-se bem menos dos direitos trabalhistas flexibilizados nos últimos anos ou das questões inerentes ao papel do Estado, sobre programas ou propostas de médio e longo prazo ou como deverá estar o país daqui há 10, 20 ou 30 anos. No plano global o quadro não é diferente.
 
Aliás, como falamos na introdução, exemplo de que a pauta econômica derruba a pauta política está na própria estruturação da CEE – Comunidade Economica Européia, formada em 1958, numa aliança continental como “comunidade econômica” e não como “comunidade política”. Somente em 1993 ressignificou-se como União Europeia.
 
Apesar disso, a Inglaterra já se afastou do colegiado e hoje a imprensa noticia que a Grécia constrói muro com 40 km de comprimento, em sua fronteira com a Turquia, para conter o avanço dos refugiados, inclusive afegãos. 
 
A pauta econômica engole a pauta política, dividindo as rédeas do mundo ou tomando o comando do mundo – para a qual somos consumidores, produtores ou peso, no lugar de cidadãos, eleitores e destinatários das ações políticas.
 
Politicamente tudo é previsível e passível de reconhecimento e implantação – os óbices são de ordem financeira. Por anos,  não se cuidou das bolsas para os pesquisadores, dos investimentos em solução dos gargalos estruturais que encarecem nossa produção agrícola e industrial, da disponibilização de investimentos públicos em pesquisas e ciência, de investimentos qualificadores para o ensino e a saúde públicas, ferrovias e transporte intermodal. O “custo Brasil” é alto... 
 
Com isso, por décadas, temos sobrevivido numa prática que lembra o popular ditado de “se vender o jantar para se pagar o almoço”.
 
O Brasil se tornou independente, indenizando Portugal. Desde então, por motivos e momentos vários, o endividamento externo aumentou e a dependência de investimentos estrangeiros não se reduz. Deixamos de ter pauta nacional e nacionalista para nos deixar pautar por tabelas econômicas e metas do FMI e do Banco Mundial.
 
Deixamos de ser o que deveríamos para ser o que desejaram que fôssemos!
 
Nossa independência política é tão real quanto a nossa dependência econômica.
 
O choque é inevitável, pela sensação comum a muitos (aqui e no mundo!) que não se sentem representados ou satisfatoriamente atendidos pelos gestos políticos, segundo a ideia do “possível”, tentando demonstrar sua insatisfação em atos e manifestações talvez confusos em suas mensagens... algo como o “decifra-me ou te devoro” expressa na egípcia Esfinge.
 
Pode ser que os povos queiram que a Soberania seja exercitada com toda a sua força, com o possível sendo deixado de lado e dando lugar ao “impossível”, sob pena de chegar a ter de decidir simplesmente entre gestores empresariais ou diretores de grandes empresas para, no lugar dos políticos, se gerenciar os países, apenas em busca de “lucro”.
A propósito: lucro para quem?
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