11/09/2021 às 14h21min - Atualizada em 11/09/2021 às 14h21min

Capitulação ou blefe – o dilema da loucura presidencial

Vicente Cruz Presidente do Conselho de Administração, advogado sênior e Estrategista Chefe do IDAM (Instituto de Direito e Advocacia da Amazônia) Foto:Arquivo/Pessoal
Na obra Fragmentos do espólio, um compêndio de anotações de Nietzsche durante um certo período de sua vida, Flávio R. Kothe, no prefácio da obra, diz que Nietzsche afirmou que não temos nenhum sentido que nos dê acesso direto às coisas e que tudo acaba sendo interpretação (o que também é uma interpretação). Alinhado com esse raciocínio filosófico, impõe-se interpretar a conduta do presidente Bolsonaro ao emitir uma nota de desculpas, após as manifestações de 7 de setembro, onde ele, para sua plateia, disse que, doravante, não iria mais cumprir ordem judicial, em flagrante conflito com a Constituição. Na nota, afirma que suas palavras ofensivas foram proferidas no “calor do momento” e que não refletem seu pensamento.

Para alguns, a nota assinada pelo presidente Bolsonaro e redigida pelo seu conselheiro de ocasião, o ex-presidente Michel Temer, em que recua em suas manifestações hostis à democracia, trata-se de uma revelação verdadeira que expõe o caráter e a personalidade indigente do gestor maior da nação brasileira. Para esses intérpretes sociais é mais pura confissão da alma frágil de um chefe do executivo que jamais teve as rédeas da situação, agindo sempre por impulsos emocionais irresponsáveis. Sendo este ser frágil, sua confissão pública é uma capitulação genuína de quem, por obra do infortúnio, teve um encontro inesperado com a realidade.

Outros, contudo, dentre os quais seus mais renhidos asseclas, afirmam que o conteúdo da nota se trata de um recuo estratégico, ou blefe, na linguagem marginal das esquinas políticas, feito apenas para fazer seus adversários baixarem a guarda e permitir um outro movimento, agora sim, com mais ousadia e eficácia. Para os defensores dessa interpretação, Bolsonaro é um estrategista nato, astuto, perspicaz e que jamais agiria dessa forma se não tivesse um bem elaborado planejamento de suas ações. Para justiçar essa ideia, dizem que os militares que o cercam, todos estrategistas de ações militares, lhe emprestam fino assessoramento. É a hipótese mais aceita pela militância.

Do lado de cá do inusitado imbróglio político, há outra interpretação possível dessa realidade triste e pungente do presidente brasileiro. Bolsonaro é, sim, um homem capaz de proferir verdades frias e sensíveis como fazem os serial killers, ancorado na fragilidade doentia de um ser portador de uma patologia horrível que ceifa vidas em série, mas é, também, capaz de calcular friamente o próximo passo para praticar, com mais crueldade, o que antes disse que se arrependeu. À luz da psiquiatria forense, no dizer de Márcia Melo Carone, esse tipo de indivíduo é portador de um sério transtorno na personalidade, com uma particularidade relevante, posto que sua patologia é congênita, nata e que não possui possibilidade de cura, isto é, impossível de ser regenerado com nenhuma aptidão para viver em sociedade de forma pacífica.
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