12/07/2020 às 07h15min - Atualizada em 12/07/2020 às 07h15min

Como conversar com as crianças sobre coronavírus?

Dra Denise Morelli Foto:Arquivo/Pessoal

Ainda que os pequenos não façam parte do grupo de risco e sejam menos propensos a desenvolverem a doença, isso não os impede de ficarem confusos. Seja por terem parado de ir à escola, por ver as pessoas andando de máscaras ou ainda por absorverem o amedrontamento de quem os rodeia. Para contornar a situação, a melhor saída é conversar com as crianças. Mas como?

Deborah Moss, neuropsicóloga e especialista em psicologia do desenvolvimento, explica que o primeiro passo é apostar em recursos lúdicos, como brincadeiras. Só é importante estar atento ao fato de que as atividades devem ter uma linguagem mais fácil de ser entendida, mas não podem contar mentiras sobre o assunto. Portanto, nada de inventar que um beijinho vai impedir que o filho fique doente, por exemplo.

“Você pode dizer que temos soldadinhos que batalham contra o vírus, porque o nosso corpo tem recursos para se defender. E foca também em falar que as pessoas mais velhas têm soldadinhos não tão fortes quanto o das crianças”, lembra a especialista sobre a importância de encontrar caminhos para também esclarecer que idosos, como os vovôs e as vovós, fazem parte do grupo de risco.
Livros e desenhos curtinhos feitos para a conscientização da gripe, por exemplo, também podem entrar no processo educativo, já que algumas crianças assimilam melhor com exemplos visuais.

Independente da atividade lembre-se que a explicação sobre o coronavírus (e de qualquer outro assunto) precisa ser básica, respeitando o nível de entendimento do pequeno. E é importante também sanar as dúvidas que ele tiver.

Tem que esperar as crianças fazerem perguntas. Claro, tem que falar o básico, pois elas veem na TV, ouvem os adultos comentarem e vão pegar informações e assim vão chegar um monte de dúvidas. Mas os pais precisam responder de acordo com o que a criança já tem de repertório.

Nesse processo, o baixinho pode acabar se confundindo um pouco, mas é importante voltá-lo para a realidade. A ideia é trazer o contexto, a explicação e fazer com que a criança tire suas próprias conclusões. Às vezes, ela tem ideias fantasiosas, como “ah, e se a gente fizer uma mágica para o vírus sumir? Nesse momento, você pode remanejar a conversa dizendo que seria ótimo se isso acontecesse, mas enquanto ninguém descobre essa mágica, precisamos cuidar daqueles que estão correndo perigo com o risco da doença e reforçar, que a ideia é se proteger dentro de casa. A informação verdadeira está ali, mas sem causar alarde.

1. Faça perguntas abertamente e ouça a criança
Comece convidando a criança a falar sobre o assunto. Descubra o quanto ela já sabe e siga a partir daí. Se ela é muito nova e ainda não ouviu falar sobre o surto, talvez você não precise levantar a questão – apenas aproveite a oportunidade para lembrá-la sobre boas práticas de higiene sem introduzir novos medos.

Verifique se você está em um ambiente seguro e permita que ela fale livremente. Desenhos, histórias e outras atividades podem ajudar a começar uma conversa.

Mais importante ainda, não minimize ou se esquive das preocupações da criança. Assegure-se de reconhecer os sentimentos dela e lhe garantir que é natural sentir medo dessas coisas. Demonstre que está ouvindo, prestando toda a atenção ao que ela fala e tenha certeza de que ela entende que pode conversar com você e seus professores sempre que quiser.


2. Seja honesto(a): explique a verdade de uma forma que a criança entenda
As crianças têm direito a informações verdadeiras sobre o que está acontecendo no mundo, mas os adultos também têm a responsabilidade de mantê-las protegidas dos problemas. Use uma linguagem apropriada para a idade, observe suas reações e seja sensível ao seu nível de ansiedade.

Se você não sabe responder às perguntas delas, não invente. Use isso como uma oportunidade para explorar as respostas juntos. Sites de organizações internacionais como o UNICEF e a Organização Mundial da Saúde são ótimas fontes de informação. Explique que algumas informações online não são precisas e que é melhor confiar nos especialistas.


3. Mostre à criança como proteger ela mesma e seus amigos
Uma das melhores maneiras de manter as crianças protegidas contra o coronavírus e outras doenças é simplesmente incentivar a lavagem regular das mãos. Não precisa ser uma conversa assustadora. Cante junto com a Galinha Pintadinha ou com o Palavra Cantada, ou dance para tornar o aprendizado divertido.


4. Ofereça segurança
Quando vemos muitas imagens perturbadoras na TV ou online, às vezes pode parecer que a crise está ao nosso redor. As crianças podem não distinguir entre imagens na tela e sua própria realidade pessoal, e podem acreditar que estão em perigo iminente. Você pode ajudar sua criança a lidar com o estresse, criando oportunidades para ela brincar e relaxar, quando possível. Mantenha rotinas e agendas regulares o máximo possível, principalmente antes da hora de dormir, ou ajude a criar novas rotinas em um novo ambiente.

5. Cuide de você
Você poderá ajudar melhor suas crianças pelo seu próprio exemplo. As crianças assimilarão a sua resposta às notícias, o que as ajudará a saber que você está calmo(a) e no controle.

Se você estiver ansioso(a) ou chateado(a), reserve um tempo para si mesmo(a) e procure outras famílias, amigos e pessoas de confiança em sua comunidade. Reserve algum tempo para fazer coisas que o(a) ajudem a relaxar e se recuperar.


6. Encerre as conversas com cuidado
É importante saber que não estamos deixando as crianças em perigo. À medida que a conversa termina, tente avaliar o nível de ansiedade observando a linguagem corporal, considerando se elas estão usando o tom de voz habitual e prestando à sua respiração.
Lembre a suas crianças que elas podem ter outras conversas difíceis com você a qualquer momento. Lembre-as de que você se importa, está ouvindo e está disponível sempre que elas se sentirem preocupadas.

Um dos maiores erros que podemos cometer, além de mentir sobre a situação ou usá-la como barganha e ameaça, é não permitir que a criança expresse suas emoções. Os recursos lúdicos, como brincadeiras, podem ser excelentes aliados para esse momento de diálogo, que precisa ser permeado pela verdade.

Uma vez que explicamos para as crianças o que está acontecendo, precisamos também ensiná-las a se cuidarem. Nas redes sociais, viralizou uma forma de conscientizar as crianças sobre a importância da constante e adequada higienização das mãos: em um recipiente, é colocada água com tempero, para representar o mundo e o coronavírus que se espalhou por ele. Em seguida, é pedido que a criança coloque o dedo na mistura. Ao tirá-lo, ela logo percebe muitos pedacinhos do tempero grudado em seu dedo. Para limpá-lo, a criança deve molhar o dedo em um segundo recipiente, contendo água e sabão e, em seguida, o colocá-lo novamente no prato com tempero. Nesse momento, as crianças ficam encantadas: o sabão repele o tempero e isso facilita a assimilação da importância de lavar as mãos com água e sabão para afastar o coronavírus.

É natural que, nesse processo de assimilação e acomodação das informações, as crianças possam tentar encontrar caminhos de resolução permeados pela fantasia, como destruir o coronavírus com superpoderes. Podemos explicar que os cientistas estão usando todos os seus superpoderes para criar uma vacina, mas que, até que isso aconteça, precisamos nos cuidar. Pode-se retomar com as crianças o que significa esse autocuidado.

Não deixemos o pânico nos dominar e que essa seja uma grande oportunidade para exercermos o autocuidado, a empatia, a compaixão. Traumas coletivos são superados com ações coletivas, mas que se iniciam no individual; vamos começar a exercer nossas habilidades dentro de casa, na construção desse diálogo sincero e adequado com nós mesmos e com as nossas crianças!






Denise Morelli 
Psicóloga Jurídica na POLITEC, Coordenadora Nacional da Especialização em Criminologia e em Psicologia Jurídica e Inteligência Forense do INFOR, Professora de diversas Universidades em cursos de graduação em Direito e Psicologia, Especializações e Mestrados, Palestrante Nacional e Internacional, Tutora da Secretaria Nacional de Segurança Pública - SENASP.
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