12/07/2020 às 07h02min - Atualizada em 12/07/2020 às 07h02min

E no Rio Madeira...

José Altino. Foto:Arquivo Pessoal.

Tudo parado. Disputa feroz, a quilômetros de distância de Guajará-Mirim, entre trabalhadores garimpeiros ocupantes há três décadas e empresa construtora chegante do Sul com papel na mão, fantasiada de mineradora. Exigências de lá e cá, advogado vai, advogado vem... A violência campeava apesar de correr em juízo um processo legal. Tirinhos e defuntos apareciam vez por outra às margens do rio 

Chefiava a segurança dessa empresa um coronel aposentado egresso de farda, homem autoritário e prepotente. Ficava dentro do acampamento, cercado de “guaxebas” por todo lado. O oficial de justiça de Guajará ia chamá-lo, ele nunca estava. Voltava para intimá-lo, e outra vez não estava. Sempre assim. Porém, um dia conseguiram que o avisassem pela radiofonia da presença do oficial, aguardando-o no acampamento. Não lhe disseram que o acompanhavam mais duas pessoas do nosso grupo e um delegado civil, todos próximos e ouvindo pela fonia seu boçal trovejar dizendo ser tudo merda e bosta, e que só resolveria as coisas em Brasília, não com aquele juizinho de “porra”!

Até o operador de rádio da companhia ficou sem graça. Eu estava do lado de fora do acampamento da empresa, e quando de lá os outros saíram, contaram o que havia sucedido e a resposta do coronel. Se o homem falou daquela forma ao rádio, imagine como reagiria pessoalmente. O oficial concordava ser “o homem” difícil. 

Tive uma ideia, ainda mais sabendo da figura simpática e também simplória do juiz de Guajará-Mirim. Melhor seria irmos buscar o juiz. Convencido o oficial lá fomos nós busca-lo. Na chegada, apressei-me evidentemente, a entrar com ele para poder contar ao “doutô” puxando a conversa ao tom que desejava finalizando narrando com a resposta que veio de lá. Evidentemente, dourando um pouco mais a pílula, com merda e tudo. O oficial, já simpático a nós, não quis tirar meu recheio. 

Fofocas a parte, propus ao magistrado ida ao rebelde desobediente. Pensei...  “Que maldade”! Ele, já meio puto com a confusão e ofendido em seus brios, resolveu ir. E condução para lei, padre e médico na Amazônia é coisa precária. Para a Justiça, então, os recursos são bem minguados. Sem outro jeito, o magistrado foi conosco na caminhoneta C-10, cabine simples a percorrer aquele poeirão.... Estava um calor de rachar e a umidade terrível piorava tudo... 

Propositadamente vidros fechados, calor do inferno! Terrível, o juiz suava mesmo, formava barro corpo afora, até eu já estava ensopado. Vadu, meu companheiro, dono da caminhoneta, derretia-se sem reclamar, pois, sabia o que estávamos armando. Chegamos entre onze e meia e meia-noite. Perguntei ao ilustríssimo se ele queria comer alguma coisa no nosso acampamento, que ficava antes da empresa. Avisou me apenas que aquilo não era visita social, estava indo intimar ou prender alguém.  Com esse raivoso desabafo, fiquei mais animado. Para mim, estava indo no rumo que queria. 

Na cancela da empresa se dirigiu ao chefe da guarda em tom severo: “O senhor, por favor, avise ao coronel que o juiz de Guajará deseja falar com ele”. Pelo recado, percebi que a onça iria roncar, haveria mal-entendido; porque não dissera que era o próprio. O desdobramento e o que aconteceu mostrou que estava certo. Recado dado, logo aparece o homem, só de calça de pijama e sandália. Saiu numa varanda, gritando e esbravejando: “Mas que merda! Isso não é hora de incomodar ninguém com esta coisa de juiz porra nenhuma”. E chegado ao portão, deparando se com aquele crioulo todo suado, cheio de terra, que nem mais cor tinha, pensou que fosse um porqueira qualquer lhe trazendo o recado. “O que esse merda de juiz quer rapaz? Por que fica incomodando a gente numa hora dessas, com um bando de vagabundos desses”? Referindo-se a nós...

O pau quebrou! O juiz aos brados chamou a polícia, “Juiz de merda, não! Sou o juiz de Direito da comarca de Guajará-Mirim e o senhor respeite-me”. Está preso a partir deste momento. E determinou aos policiais, recolher as armas dos capangas, prender, e meter as algemas no coronel.  Surpreso com a nova situação, o preso agora humilde, pedia se vestir. “Não! Você não vai vestir nada, não vai apanhar nada, agora vai como está! ”. De calça de pijama e sandálias, foi para cima da carroceria da caminhoneta, sob nossos silenciosos aplausos. 

Coube a mim retornar o magistrado a seu lugar. Estava cansado e a estrada desgraçadamente ruim. Na passagem por Periquitos, Vadu pediu para ficar, dizia precisar tomar algumas providências. Prossegui então. Um prazer ficar olhando pelo retrovisor, e o preso quicando descamisado e algemado sem firmeza. Que doce vingança! Deixei o juiz e seu novo acompanhante em Guajará ao raiar do dia, quase seis horas da manhã. Minha ansiedade era tanta para ver como estavam às coisas na sequência, que mesmo àquela hora, botei a caminhoneta na estrada e voltei a Periquitos. 

Emocionante chegar à área e ver mais de trezentas balsas, todas fora da margem trabalhando lá no meio! Os pretendidos direitos da empresa já repousavam nas aguas profundas do rio Madeira. Magnífico! Peguei uma voadeira e fiquei igual a um bobo, pelo menos com cara, passeando entre as balsas, de lá para cá, e de cá para lá, envaidecendo-me com os acenos e porque não, ouvindo gritos, é Campeão!!



José Altino
Jornalista diário, escritor, aviador, ex-fundador da União Sindical dos Garimpeiros da Amazônia Legal, ex-membro do Conselho Superior de Minas.
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