16/10/2021 às 14h36min - Atualizada em 16/10/2021 às 14h36min

Brasil embargado

O que parecia “teoria da conspiração” começa a se tornar real

Gil Reis ​ Consultor em Agronegócio Foto:Arquivo Pessoal.
Assistíamos, como meros espectadores, aos embargos impostos a países como o Irã e Cuba. O assunto durante algum tempo serviu para bate-papo nas rodas domingueiras com cerveja e churrasco rolando. Aos poucos, os tais embargos foram sendo esquecidos. Fazia parte dos debates as razões dos embargos, se eram merecidos ou não, uma vez que raríssimos debatedores conheciam os “meandros” das razões que os provocaram e as razões dos países embargados. A mídia sempre noticiou superficialmente a ação, o aprofundamento não interessava e sim manchetes escandalosas – país X embargou país Y e o mundo acompanhou. O que a mídia também não enfatizou foi a situação dos povos dos países embargados, que passavam a sofrer as penalidades que eram aplicadas aos governantes. O que sempre ficou claro é que os embargantes atribuíam, implicitamente, aos cidadãos a coautoria dos crimes de seus líderes.

Na minha opinião, os embargos são quase uma declaração de guerra, com os combates sendo travados com as armas do comércio. Numa guerra tradicional, a mensuração dos mortos e feridos é bem mais fácil, nos embargos a contabilidade é quase impossível. O país fica completamente isolado do mundo como conhecemos, impedido de vender no mercado internacional o que produz e o resto do mundo impedido de lhe vender o que necessitam. “Grosso modo” é o que acontece. Felizmente, para o povo, existem países que não obedecem integralmente ao embargo e vendem por “vias transversas” o que a população embargada precisa. Mesmo assim, é praticamente impossível suprir todas as necessidades.

Costumo dizer que o Brasil é “um ponto fora da curva” onde as impossibilidades se concretizam. O professor Thomas Lovejoy, biólogo americano, disse em uma entrevista:

– (…) o problema real é este nacionalismo estúpido e os projetos de desenvolvimento aos quais ele leva. (…) Os brasileiros – e eu sei disso de uma experiência de dezessete anos – pensam que podem desenvolver a Amazônia, que podem tornar-se uma superpotência. Vivem de peito estufado com isso. Portanto, você tem que ser cuidadoso. Você pode ganhá-los com pouco. Deixe-os desenvolver a bauxita e outras coisas, mas reestruture os planos para reduzir a escala dos projetos de desenvolvimento energético alegando razões ambientais. 

Venho alertando há muito, em meus artigos, que o dito “mundo ocidental”, além da cobiça sobre a Amazônia, tinha pretensão de nos expurgar do “geocomércio” e nos isolar. Alguns tolos acreditavam que as minhas advertências eram meras “teorias da conspiração”. Entretanto, já começam a se tornar reais e os que acreditaram vêm cumprindo os regramentos internacionais a um custo altíssimo. Poucos puseram em dúvida ou se manifestaram em relação às teses que dão sustentação ao “ambientalismo desvairado” que, como um furacão, vem tentando devastar a nossa produção rural. Vou repetir o que tenho dito “à exaustão”: O que regula o consumo dos produtos do agro é o bolso dos consumidores. Será que ainda não perceberam que a maior parte da população do nosso país é pobre e são justamente eles, os pobres, os nossos maiores consumidores? Não se iludam, esse quadro de pobreza não é privilégio nosso e se repete na maioria dos países do mundo.

Creio que todos devem ficar atentos. A Europa e os EUA se unem para promover o embargo econômico do Brasil, proibindo a aquisição do que produzimos no nosso agro, sob a alegação que provêm de áreas desmatadas. O mais grave ainda é que, na “contramão” de um preceito do Direito, o ônus da prova não caberá a quem alega, mas a quem produz. As legislações restritivas estão prestes a ser aprovadas.

O mais extraordinário no embargo que se avizinha é que será total em relação a produção do agro brasileiro e “meia boca” ou zero para os embargantes. Traduzindo em “miúdos”: não poderemos vender nada para os EUA e UE, em contrapartida, eles poderão vender tudo para nós. Fomos expurgados como vendedores de produtos do agro do “geocomércio” e mantidos como compradores. Seremos transformados em “território de desova”.

Paralelamente, um grupo de empresas, em sua maioria “brasileiras”, irá à COP26 alegando que são “bons meninos” e que vem cumprindo os regramentos internacionais e pretendendo se contrapor às propostas do governo. Está inaugurado um governo paralelo, capitaneado por multinacionais e algumas empresas brasileiras. Será o tão propalado, em livros e filmes, “o fim dos tempos” para o Brasil?

Um amigo fez uma postagem sobre o que está ocorrendo.

“Acho que essas exigências precisam ser muito bem avaliadas por nós, pois a depender de como isso vai funcionar na prática, poderá resultar em destruição do comércio, com o Brasil perdendo participação no mercado. Já vimos isso acontecer com a carne bovina, cujas exigências burocráticas supostamente por razões sanitárias, levaram a uma perda significativa das exportações brasileiras após 2008. Estamos pressionando pela ratificação do acordo Mercosul-UE e corremos o risco de ver ratificado o acordo sem ganhos concretos para o Brasil por conta dessas medidas protecionistas.” 

Enquanto isso, diante da notícia internacional de que o governo francês está sendo processado por descumprimento de seu próprio código ambiental e o da UE, outro amigo comenta: 

“Como sempre, europeus não cumprem suas próprias metas, embora sejam ótimos a impor regras aos ex-colonizados...Quanto ao agro europeu, agora jogaram tudo (o milagre da produção orgânica, sem defensivos e sem adubos "químicos") para a partir de 2030. E, de outro lado, estão re-autorizando defensivos defenestrados pelo furor ambientalista. Nada como o ambientalismo para abduzir os reais problemas da humanidade (a fome e a miséria), substituindo esses pela salvação do planeta. Aliás, a França (segundo dados oficiais da própria UE) é um dos países da Europa que sonega informações ao Comissariado sobre o cumprimento das normas ambientais pelos seus agricultores...Imagina se não estivessem quebrados e ainda fossem o "centro do mundo"... Hora de exigirmos reciprocidade em relação ao pseudo compliance europeu.”

Os países de fora do “mundo ocidental” estão assistindo calados as ações conjuntas dos EUA e UE, pois, além de não concordarem e, também, estarem sendo atacados tem todo o interesse na aquisição do que produzimos. Está na hora de pararmos de “choramingar” aos pés do “mundo ocidental” e ampliarmos as negociações de novos mercados.
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