30/10/2021 às 16h49min - Atualizada em 30/10/2021 às 16h49min

O JAGUNÇO E SEU GALO DE ESTIMAÇÃO

Adilson Garcia Professor, doutor em Direito pela PUC--SP, advogado e promotor de justiça aposentado. Foto:Arquivo Pessoal
O ouro verde (“coffea arabica”) e as férteis terras roxas das regiões de Maringá e Londrina, trouxeram uma leva de imigrantes do Japão, Alemanha, Portugal, Espanha, Itália e Polônia, além de migrantes de outras regiões do Brasil, mormente nordeste.
No processo de colonização do norte do Paraná, as empresas de terras davam carência e inúmeras facilidades para a compra de áreas rurais para quem queria trabalhar.

Entretanto, naquela época não havia muito tolerância para com os invasores de terra. Não havia o MST e nem governinhos rubros medíocres incentivando, apoiando e financiando a baderna fundiária que se formou nos últimos tempos.

Assim, os esbulhos possessórios eram resolvidos no cano do Smith & Wesson.

Vejam, eu não sou contra a reforma agrária. Mas também não sou a favor de caboclo folgado se apossar da propriedade daquele que encheu a mão de calos no cabo da enxada e lacerou os joelhos de feridas rezando para não ter granizo, geada e veranico na sua lavoura.

Ao mesmo tempo em que a CF/88 determina que a terra deve cumprir sua função social, também insculpiu nos direitos fundamentais a proteção à propriedade.

Enfim, não existe direito contra direito. O que existe são situações antagônicas que merecem ser esmerilhadas para se encontrar o melhor direito.

De acordo com o Estatuto da Terra, “considera-se reforma agrária o conjunto de medidas que visem a promover melhor distribuição da terra, mediante modificações no regime de sua posse e uso, a fim de atender aos princípios da justiça social e ao aumento de produtividade” (art. 1º, § 1º).

Já sob a ótica marxista, para Lenin “reforma agrária é o confisco sem indenização de todas as terras dos latifundiários em benefício dos camponeses”. Por conta disso, 600.000 camponeses foram mortos no processo de reforma agrária da extinta URSS, que criou as imensas fazendas estatais (sovkhoses) e cooperativas agrícolas (kolkhoses), responsáveis por gerar sangue e fome nos campos soviéticos.

Hugo Chaves, no seu viés populista ao falar de reforma agrária, afirmou que “essa é a meta: proporcionar a todo o nosso povo a maior soma de felicidade possível. É necessário entregar as terras aos pequenos agricultores, aos que a trabalham, para acabar com o latifúndio na Venezuela”.

Bem, vocês estão vendo no que deu a Venezuela, que se afogou em cima de um mar de petróleo por conta de suas opções políticas e ideológicas anacrônicas.

Bora parar de fugir do tema? Vamos à nossa crônica do jagunço Ditão? Rss.

Como eu disse, o método terapêutico contra os grileiros não era nada ortodoxo. Daí surgiu a profissão dos jagunços, que eram contratados para “limpar” as áreas invadidas. 

E dentre os jagunços mais famosos estavam o Galo Cego, Pedrão Lourenço e o Ditão, sem contar outros de menor quilate.

Ditão era hóspede do hotelzinho tipo dormitório que minha mãe Neguinha e tia Julia tocavam ali na rua Santos Dumont, perto da av. Herval, no centro de Maringá. No fundo do hotel, Ditão guardava umas gaiolas com vários galos de briga, pois era viciado em rinhas. 

Também havia um hóspede famoso, o locutor sertanejo Santana, que andava pra cima e pra baixo com seus galos de briga. Ele e Ditão improvisavam rinha no fundo do hotel, mas minha tia botava todo mundo pra correr de lá com a vassoura na mão.

Tempos depois, quando o cabo da sua arma já estava cheio de risquinhos, com esse dinheiro “sujo” Ditão comprou um terreno duas quadras abaixo, vizinho de onde hoje é a Escola Municipal Osvaldo Cruz e lá fez o seu barraco de peroba.

Mas Ditão não se livrou da molecada da rua. Era o Brechó (o escriba), Lalau, Koiti (japa), Bepo (primo Ademar), Jaso e o Valdete. Não tinha essa história de “bullying”, por isso a gente tirava sarro um do outro, mas o mais visado era o Valdete por causa do nome de mulher. 

Depois de adulto, acho que pelo “trauma de infância”, mudou o nome para Luis Valdete e hoje é um conceituado corretor de imóveis “pé vermeio”. Mas o sarro continua até hoje. Kkk.

Ditão era um gigante de quase 2 m de altura, mal encarado, brabo e carregava na cinta uma peixeira de 20 polegadas envenenada na bananeira e uma garrucha. E tinha um ciúme desgraçado de seus galos. Dentre eles havia um galo vermelho, campeão dos campeões. Traziam galos de São Paulo e dos pampas gaúchos para serem mortos pelo galo do Ditão nas rinhas maringaenses. Ditão e o galo vermelho disputavam quem matava mais. Era uma simbiose macabra, um páreo duro. (Rss).

Certa feita, Ditão esqueceu o portão aberto e a galinhada escapou pelo bairro, inclusive o galo bom de briga. Ditão contou com o apoio da nossa trupe e conseguimos capturar todas as penosas. 

O galo era uma fonte de renda adicional para o jagunço, mas pensa que Ditão nos recompensou? Não disse nem um “muito obrigado”. E ainda nos pôs pra correr de lá. De tão ruim, Ditão ridicou as mangas espadas caídas no chão do seu quintal, as mais deliciosas do pedaço. Ele odiava a molecada do bairro. Aliás, ele era o ódio em pessoa.

Por isso nossa gangue infantil resolveu se vingar do Ditão: nós decidimos comer o galo de briga de estimação. É mole? Era muita vontade de morrer! Lógico que iria dar B.O.

Quando Ditão saiu para “limpar” alguma gleba e zerar mais um CPF, pulamos a cerca. Eu com um punhado de milho como isca peguei o galo vermelho pelo pescoço para ele não gritar e os outros pegaram o galo pela perna de 2 polegadas de grossura e as esporas capeadas por pontas de aço afiadas.

Levamos bem longe, lá para a casa da avó do Jeso, que ficava perto do Brinco da Vila, o CT do Grêmio Maringá, de passado glorioso nas décadas de 60 e 70, lá na Vila Operária. 

Pensa num galo duro de cozinhar, mas estava uma delícia (rss). Fizemos um buraco no chão e enterramos as penas para não deixar vestígios. 

Ditão ficou furioso. Ofereceu recompensa e ameaçou matar todo mundo. Algum fofoqueiro falou que o galo estava escondido na mercearia do Japa “come queijo com barata”, o pai do Koiti. Ditão entrou chutando as portas e as latas de querosene que estavam empilhadas na bodega e apontou a garrucha para o velho Japa.

Sem ele esperar, Koiti espetou com a espada do bisavô samurai que cortava até pensamento a jugular de Ditão e ele baixou a arma. Quando voltou o olhar para o balcão, o velho Japa “come queijo com barata” já estava com uma boito calibre 16 de cano serrado apontada para a fuça dele. 

Ditão botou o rabo entre as pernas e bateu em retirada e passou a temer o valente Japa, pois como se sabe, esse povo de zoinho puxado é muito sério, honesto e trabalhador. Tem que respeitar.

-Galantido, non?

Mas Ditão não se deu por conformado. Queria porque queria beber o sangue de quem roubou o galo dele. Virou uma obsessão.

Algum cagueta falou para ele que foi a nossa trupe! Estávamos jogando betes no meio da rua, quando Ditão apareceu do nada. E começou a tirar a peixeira da cinta que parecia não acabar nunca.

-Vou capar quem roubou meu galo! Soube que foram vocês!

Putz, Ditão pegou o Valdete pelo colarinho, o mais lerdo da turma que não conseguiu escapar, levantou lá no segundo andar e encostou nariz com nariz. Valdete tremia que nem vara verde e seu calção de xita ficou melado.

-Vou te matar, moleque feladaputa!

A gente estava se cagando de medo também, mas nessa hora a amizade falou mais alto. Voltamos todos, cada um armado com um balaústre que arrancamos das cercas e partimos pra cima do Ditão.

-Larga ele! Larga ele, seu jagunço corno! Larga!

E daí o pau comeu. Imagine só uns 10 moleques dando pauladas para todo quanto é lado.

Sobrou até pro Valdete, porque o Ditão não o soltava nem pelos carilhos e o usava como escudo. 

Desculpa aí, Valdete, digo Luis (rss), vou confessar uma coisa: fui eu que acertei o teu lombo com uma “rimpada”, que ficou com um vergão por 2 semanas. Kkk!

Foi muita cacetada e a peixeira do Ditão caiu no chão. Um moleque gaiato a pegou e ia furar o brabão. Mas Ditão puxou a garrucha de 2 canos e nós saímos correndo. O jagunço errou os dois disparos, já azuretado de tanta paulada. Kkk!

Daí eu fui entender porque a garrucha era conhecida por “2 tiros e uma carreira”! (Rss).

Voamos pra cima do Ditão, ele correu, mas tropeçou e caiu no chão. Foi outra sessão de “pauterapia”. Nunca mais Ditão se meteu com a molecada do bairro. 

E ficamos famosos nas redondezas. Tínhamos um time de futebol chamado “Os Vermeios” por causa do nosso uniforme de camiseta Hering branca tingido com corante Guarany. 

Quando íamos disputar partidas nos outros bairros valendo tubaína e sanduíche de mortadela do Frigorífico Central, “nóis era” os caras, os considerados!

-Olha, o time dos piás que deram uma sova no jagunço Ditão!?!!!! 

Quando vocês ouvirem dizer que moleque tem parte com o cão, acreditem! 

É coisa do satanás! Nem o capeta pode!
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