20/11/2021 às 16h52min - Atualizada em 20/11/2021 às 16h52min

METAVERSO NEGA O VERSO: PODER SEM IGUAL.

Rogerio Reis Devisate Advogado. Defensor Público/RJ junto ao STF, STJ e TJ/RJ. Palestrante. Escritor. Foto:Arquivo Pessoal.
O Nome da Rosa é o título de um dos grandes livros da história. Fala do Poder do conhecimento. O texto se desenrola em torno do acesso aos livros e à biblioteca, esta simbolizando a fonte do conhecimento. Quem tem o poder sobre a biblioteca decide quem pode ter acesso ao saber ali depositado e ao conhecimento de si próprio.
 
Sob esse prisma, aquela biblioteca é o meio para preservar as valiosas obras e, ao mesmo tempo, o cofre do conhecimento que não está disponível a todos. Por qual motivo? Porque o conhecimento e a sabedoria libertam...
 
Gosto dos livros em papel. Compro-os, coleciono-os e tenho o prazer de sentir de cada um o cheiro do papel e da tinta, ler o prefácio e consultar as bibliografia. Preciso conhecer o livro como um todo, por acreditar que isso melhora a relação do leitor com a obra. 
 
Atualmente, o conhecimento e a sua difusão estão a cargo dos grandes conglomerados tecnológicos, que não se parecem com as tradicionais bibliotecas. Não vemos os pórticos, as escadarias, os corredores e as galerias. Não vemos as estantes com os livros, as mesas para leitura ou as outras pessoas carregando e consultando obras. No mundo da Internet, somos solitários que se sentem integrados, navegando em busca de conteúdo. 
 
Quem guarda as nossas fotos de família e onde? Onde estão arquivados os virtuais acervos de livros, monografias e textos digitais? Onde se guardam as infinitas fotografias que circulam pela rede mundial de computadores? Tudo o que entra na rede tem um destino no grande acervo virtual e sequer sabemos quem detém as chaves e o controle do acesso a tudo isso.
 
É acervo em código binário. É linguagem que poucos compreendem e essa representação tecnológica é em tudo diferente dos livros em papel, com capas sedutoras e protetoras dos conteúdos, que mexem com a nossa humanidade. 
 
A poesia sempre provocou os humanos. Dos doces amores declamados às dores gritadas em guturais vocalizações, diante das privações, fome e sofrimento (como em Morte e Vida Severina), às cândidas mensagens em confronto com o amargo fel destilado nas palavras de dor e ódio (como na Divina Comédia).
 
Se podemos sentir a poesia nos versos, a palavra Metaverso deveria significar mais do que os versos da poesia conhecida. Seria algo como versos extremamente poéticos, já que o prefixo Meta indica algo que transcende, que excede, que vai adiante e além. Nessa ideia, Metaverso seria algo além da poesia e, portanto, além dos sentimentos.
 
Ledo engano.
Metaverso é expressão que traz consigo algo não imaginado pelo mais comum dos seres humanos. É palavra que indica conteúdo além da internet conhecida e das suas cotidianas possibilidades. 
 
Propõe-se uma grande revolução tecnológica, pela qual estaremos dentro do conteúdo consumido, algo como estar dentro da estória do livro, interagindo com os personagens, como avatares ali posicionados, presenciando o amor de Romeu e Julieta, o desenrolar de Vinte Mil Léguas Submarinas e as angústias narradas por Victor Hugo, em Os Miseráveis. 
 
Como seria observar a execução do trabalho dos grandes pintores de outrora, chegar às fossas abissais sem sofrer com a grande pressão que deformaria os nossos corpos nas profundezas oceânicas ou nos sentir em vôo pelo espaço? 
 
A proposta é algo além do concebível e o infinito seria o limite para a criatividade humana, por meio dessas potencialidades tecnológicas.
 
Namoro pela internet, trabalho, diversão e compras ganharão outra dimensão.
 
Imagino o nó que isso dará na cabeça de muitos, que hão de confundir o seu real e o seu avatar. Haverá gente perdida de si, diante da sobreposição do mundo perfeito e nada real e aquele que exige vida social, empatia, coragem e tolerância e onde sopra o vento que nos traz o verdadeiro cheiro das flores, matas e mar?
 
Haja remédios com tarja preta e consultórios cheios de gente se autoindagando “ser ou não ser” ou “quem sou “o” eu nessa história?”
 
Ter a “sensação” de tocar em algo (um corpo nú, um animal ou a água corrente de um riacho) não é o mesmo que passar os dedos pelo fruto da natureza.
 
O que vem do equipamento tecnológico não significará a realidade. Poderá ser parecido, mas não é real – mesmo que seja algo muito além do que hoje chamamos de realidade virtual. 
 
Pelo que se alvitra construir, haverá integração entre a realidade e a virtualidade a tal ponto que uma não seria nada sem a outra. O Facebook já mudou o seu nome para Meta e isso é só um sinal da iminente revolução, ainda em sua fase embrionária. Os textos a respeito são motivadores e, ao mesmo tempo e de algum modo, assustadores.
 
Há filmes sensacionais que tocam nesse universo, como Matrix, Tron e Avatar, embora o que se conceba esteja muito além dessa filmografia e das mais ousadas propostas conhecidas. Seria possível um tal grau de interação com pessoas que não convivem fisicamente conosco que talvez haja o abandono da realidade nua e crua por essa sedutora vida virtual. Se já é estranho voltar de longa viagem de férias, imaginemos como seria viver essa dualidade!
 
Outra questão relevante envolve o acesso aos dados e a real vida privada das pessoas... Nada comparável às fofoqueiras inocentes da literatura.
 
Alguns poderão enxergar revolução tecnológica, atração de investimentos, aspectos de economia e lucros. Mais do que isso, penso, é uma corrida por Poder.
 
Observemos que não são os países que produzem, dominam e usam essas tecnologias.
 
Viveremos uma revolução maior no Poder. Hoje ainda são Países que gerenciam as pessoas e as suas vidas e necessidades. São os governos dos países que lhes provê segurança contra inimigos e adversários de outras nações, que olham por saúde, trabalho e emprego etc. Do ponto de vista do indivíduo, nossas necessidades privadas envolvem tantas coisas, inclusive comida diária, casa, roupas, escola, emprego, votar em eleições, transporte...
 
Ocorre que, com o Metaverso, o Poder não estará com as pessoas, grupos sociais, partidos políticos, líderes religiosos ou associações profissionais. Também não estará com países e governos e governantes.
 
O Poder real estará nas mãos dos gestores e mantenedores dessa tecnologia poderosa que se avizinha. Teremos uma ou duas ou três empresas gerenciando a vida de bilhões de pessoas e manipulando-as com a “realidade” dos cenários e sensações maravilhosas que poderão lhes proporcionar – e, num exercício mais livre de indagações e com metáfora, de levá-las à marchar para o abismo e se atirar no mar, como os lemingues. 
 
Os Eua iniciaram o Século 20 contra os grandes Trusts, inclusive atingindo a então poderosíssima Standard Oil, de John D. Rockfeller. De algum modo, aquele fato se assemelha ao aqui considerado.
 
Nas mãos de poucos está todo o conhecimento do mundo, armazenado em linguagem binária, arquivável não em bibliotecas que sejam imensos pavilhões de livre acesso, mas em centrais disfarçadas e bem distantes dos curiosos. 
 
A chave dessas bibliotecas e do conhecimento e sabedoria que encerram está nas mãos de muitos poucos e o mundo caminha sob essa autocracia poderosa, que determina o que deseja e que leva-nos ao rumo traçado, sem que para isso possamos votar em eleições ou plebiscitos.
 
No romance O Nome da Rosa, citado logo no início deste texto, a biblioteca pega fogo enquanto se tenta salvar alguns livros raros, como se estes fossem a alma da própria humanidade! Que a chave do conhecimento e da sabedoria no Metaverso não signifique nos manter do lado de fora, com frio e fome e nos distraindo com utopias virtuais, enquanto poucos se mantém no mundo real, aquecidos e bem alimentados
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