04/12/2021 às 18h00min - Atualizada em 04/12/2021 às 18h00min

FILHO DA ÉGUA

Paulo Rebelo Médico e poeta. Foto: Arquivo Pessoal
Aos 65 anos, papai passou a enxergar “tipo uma nuvem nos olhos”. Atrapalhava o seu trabalho como prático do rio amazonas. Envelheceu cedo, dado à vida de muitas agruras impostas pela pobreza da infância e, depois pela vida desregrada da maturidade.

Caboclo amazônida, ignorante, durante um tempo, ele dizia que era um feitiço que haviam lhe lançado, agora sabe-se lá porquê, “confirmado” pelo Pai de Santo, o LICO, seu consultor espiritual.

Bem, como piorou muito apesar dos “trabalhos espirituais para desfazer o mal”, inapelavelmente, acabou indo mesmo para cirurgia da catarata em ambos os olhos.

Conforme o jargão marítimo, ficou no estaleiro por 30 dias, aproximadamente, para reforma. No pós-operatório, sentado na varanda da casa, o velho já sem os curativos nos olhos, como nos velhos tempos, assanhado, ficava mexendo com as jovens que passavam frente à sua casa. Era um psiu para cá, outro psiu para lá, até que mamãe injuriada da vida, ainda mais tendo que cuidar dele, disse alto: “mais antes ter deixado esse velho filho de uma égua cego de vez!

Ao que disse: “poxa, mulher, estás me rogando praga?!”
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