19/07/2020 às 07h00min - Atualizada em 19/07/2020 às 07h00min

AMOR E SUPERAÇÃO

Rui Guilherme. Foto:Arquivo Pessoal

Em tempos politicamente incorretos, deficientes físicos com problemas de locomoção eram genericamente chamados “aleijados”. Com deficiência visual, cegos. Com deficiência auditiva, surdos, e por aí vai. Se alguém, em eras passadas, visse alguém na rua em cadeira de rodas, ou andando com muletas, e a este se referisse como deficiente físico, certamente causaria estranheza. Por que não dizer logo que era um aleijado, e não um cadeirante, expressão que ninguém usava?

Amigo meu desde a juventude teve poliomielite na primeira infância. Da moléstia, resultou que uma das pernas ficou seca. Ainda assim, quando jovem andava com dificuldades, bamboleantemente, mas sem fazer uso de muleta; nem sequer bengala. E mais: jogava bem vôlei; na pelada, era disputado como goleiro, fazendo defesas arrojadas que garantiam a vitória de seu time. Gostava de música, adorava cinema, frequentava praia, bebia como um escocês. Em suma: se era aleijado, ninguém na turma dava importância para isso. Sua infância foi feliz, sua juventude, idem. Era destemido, e só veio a precisar das muletas depois que – pasme-se! – passou meses hospitalizado ao sofrer um acidente em seu último salto de paraquedas.

Tive amigos cegos com os quais vivi tempos memoráveis em que nos reuníamos uma vez por semana para ouvir música erudita. Chamávamos essas reuniões de “audições”. Nossas audições ocorriam nas casas daqueles que dispunham de bons equipamentos de som. Os discos eram vinil 33 1/3 r.p.m., chamados “long playing”. Aos meus amigos deficientes visuais eu me referia carinhosamente como minha “cegada”. Era possível perceber a chegada da cegada às audições pelo toc-toc das bengalas articuladas que eles usavam para andar, serelepes, por toda parte sem ajuda de videntes. Entre a cegada, um professor de violão e tenor lírico de bela voz, com a qual nos brindava com áreas belíssimas como “Nessun dorma”, da ópera Turandot, de Puccini, e “Una furtiva lagrima”, da Lélisir d’amore, de Donizetti. Outro dos cegos foi primeiro lugar no vestibular de Direito, que cursou com brilhantismo, vindo depois a fazer uma segunda graduação em Letras. Aprovado com louvor em concurso público, tornou-se festejado professor de Literatura Luso-Brasileira.

Meu amigo goleiro completou oitenta anos. Não está indo à rua por causa da pandemia. Desde a aventura desastrada com o paraquedas, anda com uso de muletas, mas vai tocando seu barco.

O tenor cego, amigo/irmão queridíssimo, foi-se com um fulminante ataque cardíaco, causando grande comoção no seu enorme círculo de amigos e admiradores.

Do culto professor de literatura, há anos não tenho notícia. Soube que constituiu família, levando vida feliz.  

Na minha cegada, havia cinco deficientes visuais. Todos moviam-se bem. Lembro com carinho do toc-toc de suas bengalas e da alegria de viver daqueles amigos tão caros, cada um deles um exemplo de vida.

Entre o círculo de amigos rotulados “normais”, não me lembro de ninguém dispensando especiais cuidados a qualquer dos “aleijados”. Eles eram, para nós, pessoas comuns, talentosas, capazes de comentários espirituosos, sem travos de amargura, seja por não poderem enxergar, seja por não poderem correr.

De minha parte, sempre demonstrei meu amor por eles como o fazia em relação a qualquer amigo vidente, ambulante; ou seja, “normais” e “deficientes” (as aspas cabem nas duas categorias, pois categorias na verdade sequer existiam. Afinal de contas, quem de nós é normal?). Todos eram tratados da mesmíssima forma. Não acho que isso fosse uma qualidade especial de nenhum de nós. Simplesmente agíamos com a mais perfeita naturalidade, o que tornava nossa convivência agradável e prazerosa. Vivíamos com felicidade nossos momentos comuns de cultura e de esporte, ao ponto de ainda hoje sentirmos saudades daqueles tempos.

Uma canção interpretada pelo americano Nat King Cole, intitulada “I thought about Marie” , diz em um certo trecho que, quando o compositor se lembrava dos tempos em que ele e Marie viveram juntos, apesar das dificuldades, “it wasn't too bad” (“não foi de todo ruim”). Fico satisfeito ao constatar que aquela sadia naturalidade com que nos tratávamos uns aos outros era fruto de amor fraterno e cem por cento verdadeiro. E que isso de algum modo contribuíu para amenizar eventuais tristezas de nossos amigos que não podiam ver, ou que se moviam com dificuldade.

O grande mérito, contudo, sempre foi deles, daqueles a quem a vida privara ou limitara nas suas aptidões físicas. São eles os verdadeiros artífices em seu processo de superação. O amor que lhes devotáramos ajudou de alguma forma, mas é deles o louro de suas incontestáveis vitórias.



Rui Guilherme 
Juiz de Direito e Escritor.
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