19/07/2020 às 07h00min - Atualizada em 19/07/2020 às 07h00min

SE OS MORTOS FALASSEM, OS VIVOS NÃO MENTIRIAM TANTO

Osvaldo Serrão. Foto:Arquivo Pessoal.


A solidão sempre foi a grande companheira do advogado criminalista, principalmente, do tribunal do júri, nas reflexões sobre a causa do seu cliente.

De minha parte, dependendo da causa, sempre gostei, não mais agora, de fazê-las aos sábados de manhã, no, às vezes, assustador silêncio do gabinete. 

Passei, enfim, grande parte de minha vida vivendo as emoções emanadas dessa espécie de santuário particular.

Lendo e relendo todo o processo. Me transportando, mentalmente, para o dra-mático cenário do crime. E, conversando mentalmente com seus personagens. ‘Por quê fez isso? ‘Por que não evitou a tragédia?’ O que a vítima lhe fez de tão grave? ‘Você provocou o acusado? Por quê? etc....

E assim, como um paciente artesão, ia, pouco a pouco, construindo minhas teses. 

Mas, aquele sábado parecia diferente. Já tinha me organizado, pelo menos duas vezes, para ir embora, e algo parecia me segurar no escritório.

Já próximo das treze horas, toca o interfone da recepção, anunciando um grupo de estudantes que queria insistentemente falar comigo.

Como era mês de junho, imaginei que queriam vender votos de concurso de miss caipira, muito comum à época.

‘Acho que não é isso’, ‘elas estão chorando muito’, disse o recepcionista. ‘Então, mande-as subir’.

Me narraram, então, em prantos, que no dia anterior, uma coleguinha delas havia sido atropelada à porta da escola, por um veículo em alta velocidade.

E que, não bastasse a dor da tragédia, quando a velavam hoje de manhã, uma delas, inadvertidamente, ao passar a mão nos olhos da falecida, percebeu que a cavidade interna dos seus olhos havia dado lugar a duas grandes bolas de algodão.

‘O senhor precisa ir lá na capela conosco pra ver que não estamos mentindo’.

Apesar da relutância, lá fui eu, sem imaginar a odisseia que estava me esperando.

Realmente, a cena era comovente. Pela quantidade de pessoas, parecia que todo o alunado havia decidido ir se despedir da coleguinha que partia.

O mais emocionante era que as lagrimas derramadas sobre seu corpo pareciam regar a imensa quantidade de flores depositadas no ataúde.  

Como ela era querida por sua comunidade, meu Deus.

Consegui me aproximar do caixão e realmente vi, e fotografei, o estrago que havia sido feito nos olhos da menina.

Era evidente que suas córneas foram o alvo maior da criminosa subtração. Afinal, o tráfico de órgãos humanos estava em plena expansão. Mas, já em Belém?

E, no silêncio do pensamento, indagava: onde teria sido feita a extração? No instituto médico legal, na funerária, ou noutro lugar? Por quem, e a mando de quem? 

Nessas alturas, toda a mídia policial já havia sido acionada por elas. 

O caso começava a ganhar dimensões inimagináveis, embaladas pela dedicação de suas bravas coleguinhas.

“Por favor, doutor Serrão, não nos abandone, só que não temos dinheiro para pagá-lo’. Aquelas palavras, em coro uníssono, açoitavam, sem parar, meus ouvidos. “Por favor, doutor, não nos deixe agora. Só temos o senhor’.

Já envolvido emocionalmente no drama, parecia, àquela altura, que estava mesmo a implorar que me fizessem aquele pedido. A causa era nobre demais.

‘Tá bom. Vou entrar nessa luta com vocês. Não precisam me pagar nada’.

Voltei para o escritório e comecei a traçar a linha técnica que iria adotar.

Pensei, repensei, e conclui que precisava impedir o sepultamento. Uma futura exumação iria demorar demais. Consegui, então, pelo plantão judiciário, impedir o enterro, que iria ocorrer já no dia seguinte. E o corpo voltou para o IML. 

Começara, pois, a causa com o pé direito, para deleite das menininhas. 

Na segunda-feira, requeri a abertura de inquérito policial, ao mesmo tempo em que pedi um promotor para acompanhar as investigações. 
  
Diversos depoimentos foram coletados, com as mais absurdas versões.  

Certo mesmo, é que estávamos fechando o cerco sobre os criminosos. Faltava somente acharmos a ponta do iceberg.

Era, assim, mais que evidente que eu estava incomodando alguém. E que, como consequência, precisava ser freado a qualquer custo.

E iniciaram, então, os mais variados pedidos para eu sair da causa. Uns, hábeis e dissimulados, outros, cinicamente escancarados.      

O tempo passava e, por coincidência ou não, minha visão começava a falhar, principalmente na hora das leituras. E aquele incômodo diário era cada vez maior.

Então, caí na besteira de comentar o fato com um dos intermediários que me procurara, e a quem, aliás, conhecia de longa data.

Dias depois, voltou ao escritório com a seguinte história: ‘Serrão, pouca gente sabe que sou espírita. Ontem, a noite participei duma sessão, onde se conversou sobre o caso dessa moça. Estou lhe trazendo uma mensagem. Saia dessa causa para o próprio bem de sua saúde. Os espíritos não estão satisfeitos com você’.

‘Mas, por quê. ‘Onde estou errando. Essa menina poderia ser nossa filha’.    

‘Não é por aí’. ‘Os espíritos acham que ainda que essas córneas tenha sido retiradas criminosamente, elas, com certeza, irão ajudar alguém a recobrar a visão’. 

Argumento forte, mas que não me convenceu. E, apesar de estar piorando a cada dia, continuei corajosamente meu trabalho.

Mas aquela conversa, ou ‘recado do além’ começou a me incomodar. 

Como sempre ocorria quando estava numa enrascada profissional, corri, desesperado, para o ombro amigo da minha saudosa mãe, em busca de socorro.

‘Meu filho, que bobagem’. ‘O criei, desde pequeno, temendo tão somente a Deus’.

‘Você já foi ao oftalmologista’. ‘Não mamãe, não fui’. ‘Então, vá. Ele irá examiná-lo e tirar suas conclusões’. Aquela era a sensata orientação que eu precisava ouvir.   

E fui. Na consulta, certamente nada comentei com o médico sobre meu drama profissional. Queria, mesmo, ouvir uma opinião científica isenta.

Após me examinar cuidadosamente, disse-me: ‘O senhor não tem nada de grave nos olhos. Está, simplesmente, com ‘uma baita duma conjuntivite’.

Que absurdo, estavam querendo me tirar da causa até com crueldade.

Ao contrário, voltei mais energizado, agora, com o ganho dessa absurda experiência de vida, que haveria de me ajudar a me acautelar ao longo de toda a carreia, principalmente aprendendo a não tirar conclusões precipitadas em nada.

Afinal, o tempo sempre será o senhor da razão em qualquer circunstância da vida.
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Homenageio com esta crônica o talentoso perito criminal Domingos Tochetto.




Osvaldo Serrão 
Advogado, presidente da Associação Brasileira dos Advogados Criminalistas.
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