15/01/2022 às 16h44min - Atualizada em 15/01/2022 às 16h44min

“O Elogio da Loucura” de Erasmo de Roterdã e a realidade política brasileira

Vicente Cruz Presidente do Conselho de Administração, advogado sênior e Estrategista Chefe do IDAM (Instituto de Direito e Advocacia da Amazônia) Foto:Arquivo/Pessoal
Na obra “O elogio da loucura”, Erasmo de Roterdã, faz uma sátira pesada à sociedade de sua época envolta em hipocrisia e abandono de caros valores. Para tanto, o astuto intelectual humanista personificou a loucura em uma encantadora realidade, deixando de lado suas características de doença ou mal indesejado para torná-la uma virtude necessária ao homem para viver as mais extraordinárias experiências. No Brasil, no momento, há um aberto elogio da loucura quando se aplaude a grosseria, o negacionismo, o anti-intelectualismo e tantas outras práticas estúpidas, só que não como sátira social, mas como como caminho para uma suposta sociedade melhor. 

Erasmo de Roterdã afirmava ser mérito da loucura haver no mundo elos que liguem pessoas a seres perfeitamente imperfeitos e defeituosos. Essa lição é atemporal, transcende ao tempo do insigne teólogo, pois se observa ainda hoje, a ocorrência desse fenômeno, sobretudo no plano político. No Brasil, por exemplo, a grosseria, o destempero, a falta de educação, a rudeza, a preguiça, a falta de metas, e tantas outras imperfeições humanas, passaram a ser vistas como virtudes de governantes e não como gargalos impeditivos de uma boa gestão. O pior, é que há uma militância atenta para que essas práticas sejam aceitas como absolutamente normais e virtuosas

O Brasil entra no ano eleitoral com a mesma digladiação louca entre a ciência e sua negação com que terminou o ano predecessor no que se refere ao enfrentamento da pandemia. Observa-se a claque da loucura na mais absoluta e atenta militância. A proposta política para o enfrentamento desse mal é colocar no debate nacional a inconciliável aliança entre a balbúrdia e o progresso. Não há esperança de haver qualquer sinal de progresso com o triunfo da loucura. Ou o país se reconcilia coma sanidade ou caminhará em linha reta para o precipício do retrocesso.

O choque para o Brasil sair do malévolo espectro da loucura é se reconciliar sem titubeios com a sanidade. A inflação, o desemprego, o retrocesso no setor produtivo e o encolhimento do produto interno bruto são os estímulos necessários para essa virada de chave. O país não pode se contorcer em dores no debate insosso entre pessoas. O duelo necessário é no campo das ideias e proposições para que país se desvencilhe da letargia no desenvolvimento e retome o caminho do crescimento, do combate à miséria e da oferta de emprego sem chamar a loucura de rainha ou madame como ironizou Erasmo de Roterdã na caprichosa obra.
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