26/07/2020 às 07h00min - Atualizada em 26/07/2020 às 07h00min

ME TIRA DAQUI! (quero ir embora para casa)

Paulo Rebelo. Foto: Arquivo Pessoal.


Eu costumava atender passageiros e tripulantes estrangeiros que passavam de navio pela costa amapaense.

Uma vez fui chamado à bordo para atender uma americana na casa dos 40 anos. O meu diagnóstico inicial era de abdômen agudo, provavelmente, por apendicite aguda, o que foi confirmado e assim, com sucesso, ela foi submetida à retirada do apêndice no mesmo dia por um colega cirurgião.

Como tudo na época, muito foi resolvido à base de boa vontade e improvisação. Não faltou ajuda.

Ocorre que o motorista da ambulância, para mostrar serviço, achou de cortar o caminho através de bairros da periferia, cujas ruas, até hoje, são esburacadas, sujas e esteticamente feias de aspecto abandonadas.

O sacolejo era tamanho, causando tanto desconforto na barriga da mulher, que ela gritava muito e perguntou em inglês: “where am I, please?* E antes que eu respondesse, com dificuldade, sentou-se na maca, baixou o vidro fosco da janela e quando viu a urbanização caótica e sem estética alguma da periferia, em pânico, gritou:

Help me! Take me out of here. I wanna go home!**

Ansiosa, respirava rapidamente e desmaiou para desespero da acompanhante que imaginava uma parada cardíaca da amiga. Nada disso.

O fato é que, sem saída, foi operada aqui mesmo e com sucesso, graças a Deus.

Ainda assustada com que lhe acontecera, mostrou-se uma pessoa meiga e educada, fragilizada, mas muito agradecida. Sem jeito quis me pagar pessoalmente com dólares. Claro que não aceitei, mas se concordasse, que distribuísse aquela importância entre o pessoal técnico q cuidara muito dela, mesmo sem falar uma só palavra em inglês, exceto, “GOOD?”*

Uma semana depois já estava comendo o nosso filhote e creme de cupuaçu para alegria de todos, recontando a sua “aventura na Amazônia”, fazendo a sua “piada da ambulância”.



Paulo Rebelo
Médico e poeta
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