26/07/2020 às 07h00min - Atualizada em 26/07/2020 às 07h00min

A cara do novo parlamento brasileiro: mais valentes, menos intelectuais e políticos

Vicente Cruz. Foto: Arquivo Pessoal.

No centenário de Florestan Fernandes, um intelectual brasileiro do mais alto coturno, houve várias reflexões sobre a vida e obra desse ilustre brasileiro que se dedicou à sociologia como poucos. Dentre os vários atributos de Florestan Fernandes estava sua dedicação ao estudo de sua própria origem, que estruturou sua famosa pedagogia do cotidiano. Como político – foi deputado federal constituinte - fletiu seu esforço para a classe trabalhadora e para a educação como instrumentos de reflexão para uma prática revolucionária no país. Sua militância, contudo, era a militância que se esperava de um político preparado para os debates com domínio profundo sobre os temas. Esse perfil de político hoje é saudade.

De fato, qualquer cidadão brasileiro que dedique a estudar o perfil da maioria dos atuais detentores de mandatos eletivos no parlamento federal ficará decepcionado.  A democracia é bela, ainda não houve modelo político que a superasse, daí seu triunfo como expressão da vontade soberana do povo. Todavia, como qualquer realidade, tem seus dissabores. Dentre eles, está a possibilidade do erro na liberdade de escolha. Há registro histórico de excelentes escolhas como a de Florestan Fernandes, mas há, também, as deprimentes, como de atores pornôs, cuja atuação reflete seu próprio desempenho como profissional do sexo. Há, ainda, profissionais da segurança pública que dão a entender que por comporem um grupo chamado “bancada da bala” podem torturar, matar e enterrar seus opositores sem qualquer piedade. Suas propostas de trabalho cingem-se a achincalhar e ameaçar seus adversários com linguajar chulo, pobre e estúpido, próprio dos recessos poucos recomendáveis a cidadãos decentes.

O debate no parlamento brasileiro ganha mais músculo, porte de arma e um vocabulário reprovável. Ao invés de belos e profundos discursos, observa-se exercício indigente do achincalhe rasteiro, da miséria discursiva, da indelicadeza de postura. Hoje o debate de ideias transmudou-se para o debate pessoal, da mesquinharia verbal gratuita e do confronto físico. Deferem às autoridades o mesmo tratamento que os delinquentes deferem a seus comparsas nos guetos da criminalidade, num espetáculo deprimente de futilidades.

Não se pretende imaginar ou construir uma ideia de um parlamento constituído de intelectuais e sumidades. Almeja-se que o parlamento - como expressão da democracia – seja ambiente de bons quadros, de pessoas ponderadas, inspiradas pelo espirito público de alcançar o bem-estar social pelo debate sadio, jamais pelo desejo diabólico de ver o adversário destruído por ataques covardes, morais ou físicos, como nas arenas da marginalidade insidiosa.

O parlamento numa democracia é a vontade soberana do povo expressa em pessoas, legitimamente escolhidas. Eventuais equívocos na eleição desses atores decorrem do erro de quem escolheu. Se temos um parlamento com mais músculos, mais berros e menos compostura e decência, debite-se aos eleitores. A crise é grave e as causas conhecidas. Estados com elevados indicadores da qualidade da educação, elegem, com maioria esmagadora de votos, candidatos apenas pelo sobrenome, em detrimento de quadros com biografias honradas que verdadeiramente poderiam mudar a realidade do país. Se não é possível encher o parlamento de pessoas da estirpe de Florestan Fernandes, há de se fazer o favor de não encher o parlamento de pessoas caricatas, cuja máscara seria rejeitada até em bailes de carnaval suburbano.



Vicente Cruz
Presidente do Conselho de Administração, advogado sênior e Estrategista Chefe do IDAM (Instituto de Direito e Advocacia da Amazônia)
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