12/03/2022 às 14h11min - Atualizada em 12/03/2022 às 14h11min

‘’No Ritmo do Coração’’ | A Dor e a Delícia de ser Quem é

Vivian Soares Estudante e crítica de cinema. Foto: Arquivo/Pessoal
Um fun fact muito óbvio sobre a vida, é que você não pode escolher tudo. Nem a família em que nasce, o lugar de onde veio, os traumas que carrega, suas inclinações artísticas ou intelectuais. Existem coisas que fogem totalmente do seu controle. Mesmo assim, o que deveria ser uma regra é que, independentemente daquilo que você é, precisa ser acolhido; o ser humano, naturalmente, tem a necessidade de sentir pertencimento. Por isso, quando se fala em representatividade, o que se espera é que parcelas da sociedade que são ou por muito tempo foram invisibilizadas tenham espaço para contar suas histórias. Não é à toa que ‘’No Ritmo do Coração’’, fez tanto sucesso no Festival Sundance e entrou para a corrida do Oscar como candidato fortíssimo. É uma comédia dramática muito espirituosa, que entrega emoção, carisma, autenticidade e, acima de tudo, a tão clamada representatividade. 

A primeira coisa que chama atenção no longa é seu título original ‘’CODA’’, sigla em inglês que significa literalmente ‘’Children of Deaf Adults/Filhos de Pais Surdos’’, isso centraliza não só a narrativa, no geral, como também, mais detalhadamente, a trajetória inteira da protagonista. Ruby Rossi, vivida por Emilia Jones, é uma adolescente tímida, que vive em uma pequena cidade litorânea, estudando e, na maior parte do tempo, ajudando os pais e o irmão mais velho – todos surdos – a pescar, trabalho que os sustenta. A jovem é conformada com sua rotina, até descobrir um talento imenso para o canto, que só corrobora seu amor antigo pela música. A descoberta pode levá-la a uma das melhores faculdades do país, mas isso significaria ter que deixar sua família na mão. 

Pensado como um remake de A Família Bellier (2014), o filme é uma jornada de amadurecimento sobre a dor e a delícia de ser quem é, contando, assim como a vida, com seus altos e baixos, momentos hilários e tocantes; apesar de o espectador ser coagido ao riso em diversas cenas inusitadas, o olhar humanizado da diretora Sian Heder soube exatamente como atingir o lado mais sensível do mesmo nos momentos certos, criando uma atmosfera tão divertida quanto emocionante. É também, graças à condução fenomenal de Heder que se torna impossível não se envolver com a trama e personagens desde o primeiro minuto. No entanto, a representatividade esperada não poderia ser alcançada somente com uma história sobre surdos, por isso, todo o elenco que compõe a família Rossi – exceto a intérprete de Ruby, claro – é surdo, Marlee Matlin, que interpreta a matriarca, é inclusive uma grande ativista pelos direitos dos surdos. 

Ver um filme de pauta tão importante ser construído com delicadeza e humor ímpar, é um presente e tanto, não só para a temporada de premiações, como também para que a comunidade surda se sinta acolhida e abraçada, para que tanto quem vive essa realidade quanto quem não, perceba que não tem absolutamente nada de errado em ser quem é. Como observação final, é preciso dizer que todos brilharam em seus papéis, e que além da comoção inerente ao tipo de premissa do filme, a jornada de autodescobrimento de Ruby, concomitante a sua vida intrafamiliar é absolutamente de tirar o fôlego, a trilha sonora é lindíssima, e os takes valem cada minuto do seu tempo.
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