26/07/2020 às 03h00min - Atualizada em 26/07/2020 às 03h00min

NÃO CHORE POR MIM. SOU O QUE SOU

Osvaldo Serrão. Foto:Arquivo Pessoal.


Meu relógio biológico me desperta todos os dias, implacavelmente, sempre e sempre às 04 hs da manhã, mesmo aos fins de semana ou feriados.

É um velho hábito que me acompanha desde estudante, e que acabei incorporando na vida diária.

Mas, não incomodo o sono de ninguém. Simplesmente, me recolho ao, para mim, apaixonante mundo do meu gabinete.

E, nessa silenciosa solidão, nem percebo, não raro, o belíssimo amanhecer do dia se espraiar no ambiente até chegar e massagear meu rosto.

Nessa faina, leio, pesquiso e redijo, sempre embalado pelo aveludada música dos imorredouros Ray Conniff, Cauby Peixoto, dentre tantos outros.

Esse, sem dúvida, é, e será, um permanente ritual até o derradeiro dia da minha vida. Não tem retorno. É via de mão única. Coisas da alma. Sou feliz. E assim morrerei.

   E, nessa fantástica viagem do aprendizado e conhecimento, fico a refletir sobre uma questão extremamente intrigante: poucas vezes paramos para analisar o conteúdo das friolentas letras dos textos. 

Leitura, às vezes, mecanizada, sem reflexão sobre a mensagem nela inserida.

É nessa desatenção, nem percebemos que as palavras possuem vida, alma e sentimento próprios.

Fico, então, a imaginar quanta sabedoria se esvai no espaço do universo ao longo da história da humanidade. Mas, não deveria ser assim.

Interessante é que, às vezes, a releitura de um texto acaba desnudando uma mensagem até então, despercebida pelo leitor desatento. 

Foi o que aconteceu comigo quando li pela enésima vez ‘O Escorpião e o Sapo’, fábula que escancara uma dolorosa verdade que se adequa a episódios do dia a dia da vida de qualquer um de nós.

Tratase da história de um obscuro e inexpressivo escorpião que vivia numa montanha, absorto em maquiavélicos pensamentos, que chegavam a lhe corroer a alma: acordado ou dormindo, sonhava com o imerecido estrelato profissional. 

Só que não queria, ao contrário dos leais colegas, enfrentar as sinuosas estradas das florestas e colinas, das pedras e vinhas, para alcançar seus objetivos. 

Para ele, o caminho mais curto era atravessar o caudaloso rio que o separava da comunidade jurídicaque, sem qualquer mérito pessoal, sonhava pertencer. 

Mas, sabia que sozinho jamais conseguiria chegar a outra margem, por um obstáculo intransponível: a par do seu voo técnico ser rasante,  não sabia nadar. 

Fosse como fosse, precisava encurtar a distância. 

De repente, percebe um escoteiro sapo sentado à margem do rio, observando atentamente a frenética dança das suas caudalosas ondas.

Sim. Um sapo. Esse mitológico anfíbio, que, embora assustador, seu nome, paradoxalmente, serve de enredo de músicas para ninar nossas crianças.

Enfim. Pensou, repensou, e decidiu tentar convencê-lo a servir-lhe de trampolim para a arriscada travessia rumo à imerecida fama. 

Escrevendo, como em transe, sinto como se estivesse no lugar daquele sapo.

Com irritante voz de falsa humildade, o cumprimenta: ‘Olá, meu bom amigo’ 

‘Sei que é um advogado bom e generoso. Já ajudou tanta gente na carreira. Será que poderia fazer a gentileza de me dar uma carona, me carregando nas costas para atravessar o rio?’.

   O sapo, ressabiado pelas amargas experiências vividas com outros malas, pergunta-lhe hesitante: ‘Se conseguir atravessá-lo, qual garantia terei, de que, no final, não lhe sendo mais útil, não tentará me matar, como os outros? 

‘Todas’. Murmurou o escorregadio escorpião, ‘Porque, depois que fizer por mim, lhe serei tão grato, que seria um imperdoável insulto de minha parte recompensar-lhe  com algum mal’.

O bondoso sapo, se viu, então, envolvido pela labiosa conversa do malandro.

Viagem longa, água lamacenta. E o pesado escorpião sem alça rastejando em suas costas, de um lado para o outro, sempre tentando esconder as afiadas garras. 

Ao chegar do outro lado da margem, completamente exaurido pelo esforço despendido, o sapo se surpeeende com uma forte picada nas costas. 

Do canto dos olhos viu o escorpião, sutilmente retirar o ferrão de sua carne. 

Já agonizando pelo letal veneno, ainda consegue perguntar-lhe: ‘Poxa. Depois de todos os riscos que corri para ajudá-lo, porque fez essa traição comigo?’

Às gargalhadas, respondeu-lhe: ‘Seu tolo. Se você realmente me conhecesse, saberia que a história de minha vida é repleta de exemplos do que sou capaz de fazer para alçancar meus objetivos. Essa sempre foi minha natureza. SOU O QUE SOU’.

‘E mais: quer conhecer a história do meu caráter? Converse com meus antigos colegas, e terá a resposta’. Disse-lhe em frenéticas gargalhadas.

‘Pois é. Mesmo assim, por tudo de bom que lhe fiz, eu não merecia isso’, foi a derradeira frase que o sapo conseguiu pronunciar na rouquidão dos moribundos.

Pelo sim, pelo não, afinal, quem de nós, nunca teve na vida, pessoal ou profissional, um predador com esse perfil, camuflado de amigo ou de irritante bajulador? 

De minha parte, tenho a leve sensação de que já há um, a minha espreita, somente aguardando o momento para dar o bote e depois a picada.



Osvaldo Serrão 
Crônicas – advogado, presidente da Associação Brasileira dos Advogados Criminalistas
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