02/08/2020 às 03h39min - Atualizada em 02/08/2020 às 03h39min

A CANSEIRA

Paulo Rebelo. Foto: Arquivo Pessoal.

Às vezes, um caso de transtorno mental impõe ao médico um profundo exercício de paciência, levando-o à reflexão sobre sua capacidade profissional, não raro, à frustração.

É quando o médico é levado ao limite de sua competência humana.

Atendi uma senhora na casa dos 55 anos, professora, mãe de um casal de jovens adultos e separada há 15 anos.

Até então, não tinha tido a COVID-19, mas segundo ela, o que apresentava eram, sim, sintomas da COVID-19, mesmo com exames complementares normais. Nada a convencia do contrário.

Diante disso, o medo da morte a fez insegura e cética quanto a opinião médica; desenvolveu alguns poderosos mecanismos de defesa do EGO que, além da natural dificuldade provocada pelo seu caso clínico, punham ainda mais obstáculos à resolução do problema.

Nenhum médico descobria qual era o seu diagnóstico. Eu seria mais um.

Apresentava falta de ar e com isso vinham a pressão alta e “arritmia” que nunca tinha tido, acompanhada de um rosário de sintomas exuberantes para si e por isso, muitas idas ao pronto atendimento. Impressionava-lhe as equimoses e as mãos pálidas e frias, por vezes, arroxeadas.

Desde sua separação, tornou-se pai e mãe dos filhos, a chefe da casa. Então, a ansiedade e o estresse diários eram “normais”. Dizia estar acostumada à solidão e ao trabalho e distanciamento dos filhos.

A atual situação da pandemia da COVID-19 e sua história de vida fizeram-na desenvolver TAG – transtorno de ansiedade generalizada com fortes manifestações cardiovasculares e transtorno do pânico, algo que rejeitava e portanto, era o tipo de paciente que não tomava qualquer medicamento ainda que prescrito por médico, principalmente, “tarja preta”, isto é, controlado, “para não ficar acostumada”.

Fomos descobrindo isso juntos e, dolorosamente, para ela aos poucos.

Ao lado de certa curiosidade por sua vida triste e monótona, fui desenvolvendo certa compaixão por ela, mesmo sendo confrontadora; auto didata, era pessoa profundamente retraída e desconfiada, mas acima de tudo, merecedora de piedade pela sua visível fragilidade humana.

Todos os exames subsidiários eram normais, exceto traços de doença autoimune, tudo leva crer, agravada pela ansiedade, tensão e estresse diante da pandemia da COVID-19, o que, curiosamente, acabava por relativizar para si a seriedade de seus transtornos mentais.

A sua fixação: também, agora estava “doente do coração”.

Até os medicamentos que lhe passavam lhe faziam mal e às vezes, nem os tomava. Os meus estavam juntos!

Assim, antes mesmo que o caso se tornasse um “problema pessoal” entre o médico e paciente, diante de todas essas dificuldades, encaminhei-a ao psiquiatra, definitivamente.

Também, dei-lhe uma série de incumbências como realizar a tomografia computadorizada do crânio, pois alegava ter “algo na cabeça”.

Ao levantar, disse-me: “doutor, eu não estou louca!”.

Disse-lhe: “pois, vá ao psiquiatra, sim, antes que fique!”

Um belo dia, volta ao consultório. Queria apenas falar comigo. Aquele cenho franzido, ora entristecido ora assustado, dera lugar a um largo sorriso.

Não havia realizado nem metade do que havia lhe solicitado. Não me aborreci. Para quê ? No fundo, não precisava.

“Aconteceu um milagre?”, perguntei-lhe. “O que o senhor acha?”, disse. “A sua carinha mostra que a senhora está ótima! Posso lhe perguntar o que a senhora fez de lá p cá?”, indaguei.

“Doutor, praticamente, não tomo nenhum remédio, só uns calmantes, de vez em quando. Refleti muito sobre o senhor me disse e olha que não fiz tudo que o senhor me pediu, não.” e sorrindo, matreiramemte, disse: “apenas criei vergonha na cara!”

Abraçou-me e disse: “me perdoe a enorme canseira que lhe dei, mas muito obrigado!”



Paulo Rebelo
Médico e poeta
 
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