02/08/2020 às 03h46min - Atualizada em 02/08/2020 às 03h46min

A magia feminina na Amazônia

José Altino. Foto:Arquivo Pessoal.

Presença ponderadora, e ponto de equilíbrio.

Dizem que toda mulher tem toque especial, beleza própria com seus pessoais encantos, mas poucas se comparam à mulher do norte do Brasil. Por algum motivo, talvez capricho, elas interagem com a natureza e se permitem serem originais, simples, sensuais. Abusam das cores e misturam-se com o exotismo do lugar, complementando o cenário.  Por lá o bom tempero exige o que lhe é fundamental, macho e fêmea, percebem e exercitam isso. 

Se alguém chegar durante o dia no garimpo, pela própria profissão e arte em mover terra, o que irá ver geralmente são homens sujos e impregnados pelo barro da lida. Poderia se dizer que estão imundos, maltratados, descuidados de tão envolvidos com aquele áspero trabalho, não se preocupando com aspectos ou aparências. Ali, o garimpeiro permanece dia inteiro. E se nessa comunidade não existir mulher, não há vaidade que se alevante. Quando a noite chega, simplesmente toma seu banho, aquieta-se, vai dormir.                                                                                      

Se existir a presença de uma mulher, uma única, mesmo que não seja para ser dele, transar com ele, namorar, paquerar, apenas sua presença já faz surgir uma preocupação natural. Além de tomar banho, apronta-se com aprumo, até veste-se de branco para aparecer. Como o pavão abrindo as suas plumas na presença da fêmea, talvez para ofuscar mesmo os seus pés. Isso muitas vezes não significa que exista o menor sentimento de compromisso em relação a ela. Simplesmente é o sentido real de que, se existe ali a mulher, há que existir o macho, cumprindo-se os dogmas primordiais da mãe natureza.

Não conheço nenhum outro lugar no mundo onde a presença da mulher é tão venerada e respeitada. Na Amazônia, tanto com relação aos garimpos como em outras comunidades, a mulher é sempre vista como extremamente necessário ao círculo. Se não existe sua presença, nota-se que ao passar o tempo aumenta a agressividade masculina. Poucas semanas, os tornam extremamente mal-humorados, sem paciência uns com os outros. Vai daí para pior. Quando falamos em mulher no garimpo, os do mundo exterior as veem como prostituta e não são, e mesmo se o fossem ninguém as veria dessa maneira. 

Temos as mulheres garimpeiras que seguem profissionalmente como os homens o trabalho e ninguém jamais as tocam sem abertura ou mesmo permissão. Cozinheiras ou cucas são reverenciadas e até veneradas, e isso não ocorre apenas na sociedade garimpeira. De modo geral, também entre os mateiros, madeireiros e todos os outros. Existe praticamente um código de ética e de respeito. Normalmente se fazem barracas para elas separadas das demais, chamadas de “fuscão”. Lá vivem, e se acautelam para ninguém por elas se interessar, evitando com isso possíveis disputas ou discórdias no grupo. É um dos melhores salários pagos, a única que ganha realmente salário e em ouro. Apenas elas, os demais estão numa empreitada em economia de participação sem vínculo empregatício. Por essas e outras peculiaridades, a cozinheira é uma das pessoas mais importantes do grupo. Recebe as maiores atenções. Nunca a sobre carregam com trabalhos. Elas cuidam apenas dos seus afazeres e da saúde dos homens. São as enfermeiras do grupo também.

Em vários pontos da Amazônia, existem mulheres que são excelentes madeireiras, outras garimpeiras e donas de garimpo, comandando comunidades inteiras de homens. Por isso mesmo são mais respeitadas ainda. Em alguns lugares, como Poconé em Mato Grosso, nos anos de 1985 a 1995, apesar de ser uma comunidade tipicamente garimpeira e consequentemente masculina, era administrada oficial e extraoficialmente por mulheres. Oficial porque na época mulher comandava a prefeitura, a delegacia, o maior comércio de lá, um hotel e era também uma juíza quem resolvia as causas. Extra oficialmente pela força das mulheres da região, elas se auto intitulavam de “pantaneiras”. Não nos esquecendo das autoritárias esposas daqueles fazendeiros. 

Quanto às mulheres de garimpo, como são chamadas por lá, e não de prostitutas, repito, são as primeiras a saberem da abertura de um garimpo. Elas chegam de qualquer jeito. De carona, a pé, de barca, do jeito que for e permanecem nas imediações de onde o pessoal sairá. Ali contraem a primeira dívida: a passagem de avião que, com certeza, um dia pagarão. Elas vão vivendo e fazendo novos compromissos na cantina, na compra de roupas, de remédios e perfumarias. A grande maioria paga. É comum a todas elas a esperança de um dia se casarem com um “bamburrado” e serem levadas de lá.

Essa é a magia do lugar. Na verdade, muitas vezes os garimpeiros, bamburrando ou não, se casam com aquelas moças. Fazem então uma barraca um pouco mais afastada, tirando-as do “baixão”. Nunca mais elas atendem a outro homem, até para não acabarem mortas e ninguém mais as verá como prostitutas. Esse é o motivo de serem chamadas de mulheres de garimpo, para não ficarem estigmatizadas. Todas se tornaram excelentes donas de casa, mães dedicadíssimas com gratidão à realização do sonho.  

Como tive criação mineira, muitas coisas ficaram sem explicação, mas aceitei a convivência e compreendo que esses costumes que lá existem, são bem anteriores à minha chegada e que vão continuar assim por um longo tempo, em absoluta magia...




José Altino
Jornalista diário, escritor, aviador, ex-fundador da União Sindical dos Garimpeiros da Amazônia Legal, ex-membro do Conselho Superior de Minas.
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