02/08/2020 às 03h48min - Atualizada em 02/08/2020 às 03h48min

RITUAIS ANCESTRAIS AO TEATRO GREGO

Romualdo Palhano. Foto:Reprodução/Facebook/Pagina Pessoal.


Certamente, mesmo antes da Grécia, manifestações cênicas voltadas para culto a vários deuses já existiam em várias latitudes, principalmente no Egito e Antigo Oriente, como comprova estudos históricos e arqueológicos. Nas cercanias do mar vermelho o rei Deus do Egito era o único legislador e a mais alta autoridade aqui na terra, a ele realizavam-se muitas homenagens que eram apresentadas com utilização da música, dança e diálogo dramático. Nesse período era a realeza o único princípio ordenador das coisas. O Antigo Testamento enfoca esse período de sabedoria e vida luxuosa do Egito.

Nabucodonosor promovia um festival do Ano Novo, cuja manifestação pouco se sabe. Na Mesopotâmia havia a manifestação do “casamento sagrado” que era um ritual mítico. Detectou-se na dança egípcia de Hator, momentos da utilização de pequenos diálogos. Ainda no Egito, estudiosos encontraram em Abidos, vestígios do “Drama, Morte e Paixão de Osíris”. Acidade de Abidos era a Meca dos egípcios.

Em várias manifestações a deuses antigos detectou-se indícios da presença de mimo, farsas, anões e atores mascarados que divertiam as cortes da época, como se fossem verdadeiros bobos da corte no Oriente antigo. Além de Osíris e Isis, também eram cultuados vários outros deuses como Marduk e Mitra. 

Se por um lado, existia o culto aos deuses, por outro, também havia o culto aos mortos, e nessas manifestações funestas, era constante a presença de música e dança, banquetes procissões e oferendas, de acordo com achados arqueológicos em catacumbas e tumbas egípcias. Imagens pintadas e esculpidas revelam manifestações aos deuses Rá, o deus do paraíso, e a Osíris, o senhor dos mortos. Osíris era o deus que estava mais próximo do ser humano.

Em 1882 o egiptólogo Gaston Maspero, em seus estudos revelou o caráter dramático dos textos das pirâmides. De certa forma, havia nessas manifestações apresentação em primeira pessoa que sugeriam enganosamente um suposto diálogo que ainda não foram endossadas por pesquisas recentes. Outra questão fundamental era a presença de um público, situação que só vem a acontecer na democracia grega.

Uma das questões do novo passo que deu o teatro na Grécia Antiga é o fato de que em Atenas já reinava um processo democrático, o que faltava no povo egípcio que não conhecia o conflito entre a vontade dos homens e a necessidade dos deuses. Quando Théspis fala – eu sou Dionísio – ele foi totalmente revolucionário, o que nunca iria acontecer na cultura egípcia porque seria total desavença em relação ao poder autocrático do Faraó. 

É notório que a Grécia antiga tenha herdado esses rituais, entretanto não podemos negar que foi justamente nesse país que os primitivos rituais foram, ao longo dos anos, se transformando, tomando novas formas como festividades e atividades culturais até determinar os cultos teatrais como forma de representação e arte, à qual conhecemos hoje.



Romualdo Palhano 
Professor Titular da Universidade Federal do Amapá, pós-doutor em teatro pela Universidade Federal da Paraíba – UFPB, doutor em teatro pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro.

 
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