21/05/2022 às 16h26min - Atualizada em 21/05/2022 às 16h26min

​O samba do crioulo Guedes

Vicente Cruz Presidente do Conselho de Administração, advogado sênior e Estrategista Chefe do IDAM (Instituto de Direito e Advocacia da Amazônia) Foto:Arquivo/Pessoal
O Ministro da Economia Paulo Guedes é o típico protótipo do gestor que hiberna. Semana passada, após um profundo estágio letárgico, apareceu e anunciou, empolgado, que “o inferno da inflação passou” no Brasil, ignorando todos os índices econômicos. Para John Mearsheimer, professor de ciências políticas da Universidade de Chicago, a mentira, embora arriscada e alvo de condenação moral, é tida por políticos de todos os matizes como um “útil” instrumento de governo. A tese é defendida no livro “Por que os Líderes Mentem”. Paulo Guedes incidiu nessa potoca estrategicamente útil. A inflação dispara e, pasmem, o próprio governo divulgou, logo em seguida, que sua projeção para o próximo mês superou suas próprias expectativas de forma negativa, ou seja, a inflação está aí, devorando o poder de compra dos brasileiros.

O Ministro Paulo Guedes se assemelha ao advogado fora da causa que quando consultado sobre um conflito de interesses tem a solução pronta, mas que quando nela vai atuar começa a apontar dificuldades que antes sequer tinha aventado. Quem não se lembra do economista fanfarão que quando o presidente Bolsonaro estava em campanha apresentava pronta solução para todos os males da economia brasileira? Hoje Paulo Guedes - como titular da de uma das pastas mais importantes do governo - sequer sabe a projeção da inflação para o mês seguinte e põe-se a mentir como um pescador bêbado.
Paulo Guedes é o típico assessor grotesco que o presidente Bolsonaro tem convidado para titularizar seus ministérios. Ainda está fresco na memória dos brasileiros o vídeo vazado de uma reunião ministerial em que o ministro boquirroto enfatiza – com ironia acurada – que “já tinha colocado a granada no bolso dos inimigos”, referindo-se aos servidores públicos que estavam há dois anos sem aumento salarial. Vangloriar-se de não haver dado aumento salarial a uma classe de trabalhadores tão importantes para a nação cheira ao mais reprovável comportamento de um executivo do setor público que cogita fazer da exploração do trabalho uma agenda de governo.

Não há como esconder que Paulo Guedes é uma experiência frustrante para todos os brasileiros. Como disse Erasmo de Rotterdam no seu primoroso livro “Elogio da Loucura”, “não é mérito da loucura haver no mundo laços de amizade que nos liguem a seres perfeitamente imperfeitos e defeituosos?” Talvez tenha sido essa loucura a inspiração do presidente Bolsonaro para manter Paulo Guedes na direção da economia brasileira. O certo é que o ministro faz uma gestão recheada de delírios permanentes só aceitáveis dentro de um ambiente de caos. É um verdadeiro samba do crioulo Guedes.
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