02/08/2020 às 03h50min - Atualizada em 02/08/2020 às 03h50min

Marcos Reatégui

Marcos Reátegui. Foto:Arquivo Pessoal
O AMAPÁ, PROJETADO PARA SER UM PARAÍSO, HOJE NÃO É EXATAMENTE ISSO. OS SERVIDORES QUE TRABALHAM NA SAÚDE, QUE SOFRIAM COM A FALTA DE CONDIÇÕES PARA CUIDAR DE NOSSA GENTE, DEPOIS DO COVID-19, E DAS MORTES DECORRENTES, SOFRERAM ABALO EM SUA SAÚDE FÍSICA E MENTAL. FALTOU SEQUÊNCIA AO TRABALHO. 

 
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A falência do sistema público de saúde do Amapá, fruto de três décadas de corrupção e incompetência, não atinge apenas aos cidadãos que dependem dos postos de saúde, hospitais e centros clínicos. Afeta duramente, também, aos profissionais que trabalham para oferecer saúde ao povo, pois sofrem dor física e psicologica, ao assistir ao sofrimento e dor dos pacientes, para os quais não tem condições de ofertar adequadamente serviços de saúde, apesar de não terem culpa, eis que tem a causa do problema reside na absoluta falta de estrutura do Estado.
 
O trabalho na saúde já é, por sí, algo que exige muito dos profissionais do setor, fato que os leva ao limite da dor humana. Atuar todos os dias no limiar do sofrimento e da morte não é tarefa fácil e acaba sendo uma provação para médicos, enfermeiros, auxiliares de enfermagem, técnicos e tantos outros trabalhadores e trabalhadeiras da saúde. No Amapá, a vida profissional dessas pessoas sempre foi mais difícil e sofrida que de outros Estados, em razão do sucateamento da rede pública de saúde, pela falta de estrutura, de materiais, de equipamentos, enfim, pelas péssimas condições de trabalho que, há décadas, obrigam aos profissionais da saúde pública do Amapá, trabalharem em constante esgotamento físico e mental, lutando pela vida dos pacientes e contra a sabotagem praticada pelos deveriam garantir boas condições de trabalho, mas não o fazem por conta da corrupção e incompetência.
 
Com a explosão da pandemia, os profissionais da área da saúde do Amapá passaram a sofrer mais, negligenciados que foram, mais uma vez, pelos gestores públicos. Nos postos de atendimento, faltaram equipamentos de proteção individual. Não se teve o cuidado de criar um centro médico para atender a esses profissionais em caso de suspeita ou contaminação pela Covid-19. Nenhuma medida foi tomada para proteger especificamente aos profissionais da saúde, que eram os guerreiros que arriscavam suas vidas na linha de frente dessa batalha.
 
Então, o Amapá perdeu valorosos profissionais da saúde pública. Dói pensar no desgaste psicológico daqueles que, além de não poderem ajudar quem poderia ser salvo, perderam colegas de trabalho, amigos e amigas, e, agora, continuam saindo de casa, todos os dias, para enfrentar a batalha pela vida, deles e nossa. Quão devastador deve ser para um profissional da saúde encarar a rotina de trabalho neste momento tão delicado, carregando nas costas essa bagagem emocional? Como isso reflete no ambiente de trabalho e nas famílias dessas pessoas?
 
O governo estadual deveria, no mínimo, ter garantido EPIs de qualidade, ter criado grupos de apoio para monitorar a condição emocional dos profissionais da saúde, ter destinado ao menos um local, como o Hospital de Amor, gentilmente cedido pelo Dr. Henrique Prata, para atender e isolar os profissionais da saúde que se descobrisse contaminados e, principalmente, ter investido em um sistema público de saúde capaz de oferecer, aos que nele trabalham, condições, senão ideais, como as que deixamos encaminhadas para o Hospital Universitário, pelo menos eficazes para cuidar de nossa gente.
 
Em vez disso, os gestores escolheram a corrupção e a ineficiência. Mas a população começa a perceber isso e se revoltar. Estão despertando e tomando consciência coletiva de que somos uma sociedade que não aguenta mais ser abandonada, roubada e maltratada. Por isso acompanhamos juntos, cada vez mais, as reações à má gestão e ao desvio de recursos públicos. Os governantes de todos os poderes precisam enxergar que a política praticada não é mais suportável. Os Sans-culottes do Amapá irão derrubar o Setentrião e adjacências… É questão de tempo! Eu não pagaria pra ver!

Marcos Reátegui 
Advogado, ex-procurador geral do estado, ex-deputado federal, atual delegado da Polícia Federal.
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