02/08/2020 às 04h03min - Atualizada em 02/08/2020 às 04h03min

FREITAS LEITE. UM CRIMINALISTA QUE NÃO PODE SER ESQUECIDO

Osvaldo Serrão. Foto:Arquivo Pessoal.

São três horas da madrugada. Vou começar a escrever a última crônica para o meu livro de memórias DIA A DIA DE UM CRIMINALISTA. CASOS E CAUSOS.

Como sempre, primeiro escolho o tema e, tal qual faço no plenário do júri, procuro me trasportar mentalmente para o palco dos acontecimentos. 

Gosto de sentir o ambiente e entender seus personagens. Dá mais inspiração.

Na de hoje, porém, deixareí falar apenas o coração. Escreverei sobre um saudoso colega, que influenciou diretamente minha carreira: Antônio Maria de Freitas Leite.    

O video tape de minha memória vai, então, celeremente, me conduzindo para trinta anos atrás.

Logo no primeiro dedilhar das teclas do computador, uma inexplicável vontade de chorar e um arrepio incontrolável pelo corpo. Parece a saudade do ‘nunca mais’.

Estou, neste momento, em pensamento, começando a vivenciar todas as emoções da turbulenta década dos anos oitenta.   

Iniciei muito cedo minha trajetória como advogado. São quarenta e quatro anos de pura, efervescente e irrepetível emoção. Por isso, nem vi o tempo passar. 

Convivi, nessas mais de quatro décadas, com um sem fim número de advogados. Muitos colegas, poucos amigos.
 
Sou um dos últimos remanescentes de uma sofrida confraria de criminalistas, que foi duramente perseguida e discriminada pelo regime político de exceção brasileiro, tratados como uma espécie de subraça social e jurídica.

É que o cruel sistema precisava nos enfraquecer institucionalmente. Afinal, éramos a unica voz daqueles que não podiam falar: despidos dos seus valores mais sagrados: vida, integridade física e honra.

Não havia defensoria pública à época. Por isso, os corredores dos nossos escritórios se tranformavam num caudaloso rio de pessoas em busca de ajuda jurídica para seus filhos ou esposos, vítimas da famigerada ‘prisão para averiguação’.

Mas, não podiam pagar honorários. O apelo, contudo, era comovente, principalmente pelas crianças chorando com fome, algumas, ainda de colo. De nossa parte, tínhamos pouco a oferecer, salvo a coragem para enfrentar os desmandos. 

Éramos, pois, um pequeno grupo de advogados, caminhando sem rumo, sobretudo, devido à inércia da OAB, uma vetusta casta, sem qualquer identificação com nossa causa, tanto que não havia nenhum advogado criminalista em seus conselhos.

Enfim, órfãos duma instituição comprometida com o sistema, por covarde omissão.

É quando surge a figura do criminalista Antônio Freitas Leite, titular de uma festejada banca de advocacia, com clientes, financeiramente, bem acima dos nossos.  

Não tinha, por isso, nenhuma vantagem pessoal em se aproximar de nós.  

Mesmo, assim, com singular coragem, reuniu um pequeno grupo de colegas, dentre os quais me incluo, e fundou a Associação dos Advogados Criminalistas do Estado do Pará, hoje, infelizmente, em sono letárgico nos friolentos porões da OAB. 

Tinha eu pouquíssimos anos de advocacia, mas, mesmo assim, Freitas Leite dedicava um carinho muito especial por mim, tanto que me escolheu como diretor jurídico da instituição da qual foi o primeiro presidente.

A semente da resistência estava, pois, plantada por suas corajosas mãos, impulsionadas pelos benfazeja energia dos colegas que confiavam no seu comando.

Não contávamos, contudo, com sua brusca perda ao meio do mandato, soltando nossas mãos no climax da luta, quando a associação começava a se destacar. 

Mesmo na hora da dor, com a saúde definhando, esteve ao nosso lado, nos encorajando e incentivando, ao lema de que a luta não podia parar.

Fui o terceiro presidente da associação. Chegamos, em certo momento, a ter tanta força institucional, que ocupamos mais da metade do conselho secional da OAB.

Elegemos um presidente criminalista, e colaboramos na eleição de tantos outros.
 
Me tornei amigo da familia. Vi seus filhos crescerem e, por merecimento próprio, concretizarem seus sonhos profissionais sob o comando da dedicada esposa.

A humanidade, infelizmente, não tem memória. A frenética roda viva do mundo não para, e vai sepultando fatos marcantes e ilustres personagens que ajudaram a construir nossa história.

Não posso, por isso, permitir que a poeira do tempo retire de minhas mãos a derradeira oportunidade de imortalizar em meu próximo livro a lembrança de um homem bom, extremado chefe de família, e excepcional colega: ANTÔNIO MARIA DE FREITAS LEITE, o eterno Presidente dos Criminalistas.



Osvaldo Serrão 
Crônicas – advogado, presidente da Associação Brasileira dos Advogados Criminalistas
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