02/08/2020 às 15h19min - Atualizada em 02/08/2020 às 15h19min

Filosofia

Luiz Mauricio Bentim. Foto: Arquivo Pessoal.
Prometeu Revoltado

Na coluna de hoje, nos propomos a pensar o sentido da revolta. O que significa se revoltar contra algo? Em 1951, Albert Camus publicou “O Homem Revoltado”, livro em que ele retomava por outro ângulo o problema posto a tantos anos pelo “Mito de Sísifo”. Enquanto no Mito de Sísifo a questão primordial é se alguém deveria ou não tirar sua própria vida, em outras palavras, se a vida tem um sentido para ser vivida; no Homem Revoltado o problema que se levanta é se alguém estaria autorizado a tirar a vida de outrem, isto é, se a vida do outro tem em si um valor que me impeça de cometer o assassínio. De todo modo, o que permanece em ambas as obras é a noção do absurdo:

“O sentimento do absurdo, quando dele se pretende, em primeiro lugar, tirar uma regra de ação, torna o crime de morte pelo menos indiferente e, por conseguinte, possível. Se não se acredita em nada, se nada faz sentido e se não podemos afirmar nenhum valor, tudo é possível e nada tem importância”. (Camus. O Homem Revoltado)

E se o senso de indivíduo for maior do que o de coletivo? Não seria essa uma questão legítima? Afinal, o que leva tantas pessoas a preferirem arriscar suas vidas em festas, shopping, bares e restaurantes em meio à uma pandemia de covid-19? Por um lado, há pessoas que não querem pegar covid-19 e mesmo assim se arriscam pelo coletivo. Médicos, enfermeiros, garis, pedreiros, subempregados, faxineiras. Por outro lado, há pessoas egoístas que só pensam em si e não se importam com as consequências de seus atos junto ao coletivo. Realmente parece absurdo demais tudo isso.

No meio desse sentimento absurdo que surge a revolta, pois “a revolta nasce do espetáculo da desrazão diante de uma condição injusta e incompreensível” (Camus). E é pensando nisso que trazemos para discussão o mito de Prometeu da maneira como ele é retratado na obra de Camus. Como uma entre tantas outras interpretações possíveis sobre Prometeu, Camus nos apresenta um Prometeu revoltado diante da injustiça que sofre dos deuses que o aprisionaram com correntes.

“As primeiras teogonias nos mostram Prometeu acorrentado a uma coluna, nos confins do mundo, mártir eterno, excluído para sempre de um perdão que ele se recusa a solicitar, Ésquilo torna ainda maior a estátua do herói, cria-o lúcido (“nenhuma desgraça que eu não tenha previsto recairá sobre mim”), faz com que ele grite bem alto o seu ódio a todos os deuses e, mergulhando-o em “um tempestuoso mar de desespero fatal”, oferece-o finalmente aos raios e ao trovão: “Ah! vejam a injustiça que suporto!””. (Camus. O Homem Revoltado)

O revoltado para Camus é aquele que se coloca contra os senhores, que ousa se libertar, que defende a sua liberdade acima de qualquer escravidão e não aceita nenhuma forma de totalitarismo ou prisão. Prometeu é um personagem central para representar toda essa revolta: se voltou contra os deuses, se apiedou dos humanos. Não cedeu em nenhum momento o seu conhecimento, a sua capacidade de ver adiante para se tornar um escravo dos deuses.

“Promete, e apenas ele, tornou-se deus e reina sobre a solidão dos homens. Mas ele só conquistou a solidão e a crueldade de Zeus; ele não é mais Prometeu, é César. O verdadeiro, o eterno Prometeu tem agora a cara de uma de suas vítimas. O mesmo grito, vindo do fundo dos tempos, ressoa sempre no fundo do deserto da Cítia”. (Camus. Homem Revoltado)

Prometeu é aquele que desafia, que se manifesta contra o poder reinante, independentemente das consequências que ele possa vir a sofrer. É nesse sentido que o mito de Prometeu é tão elucidativo e continua a apresentar diversas propostas interpretativas.






Luiz Maurício Bentim
Doutor em Filosofia pelo PPGLM/UFRJ. Professor de Filosofia Política, Ética e Filosofia da Tecnologia do IFTM
 
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