09/07/2022 às 19h40min - Atualizada em 09/07/2022 às 19h40min

A 1ª GUERRA VERDADEIRAMENTE GLOBAL

Rogerio Reis Devisate. Foto Arquivo Pessoal
As duas guerras mundiais no Século XX iniciaram-se por aspectos europeus, mesmo com as batalhas no Pacífico, as manobras no deserto africano e o torpedeamento de navios no Atlântico. 
 
A Primeira Guerra decorreu da tensão e crescente militarização entre a Alemanha, o Império Austro-Húngaro e a Itália e, do outro lado, a Inglaterra, a França e a Rússia. 
 
Impérios colonizadores queriam se proteger e ampliar os seus domínios, pactos foram firmados sorrateiramente e a explosão decorreu do assassinato do Arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do trono Austro-Húngaro. Rapidamente a Áustria-Hungria culpou a Sérvia, que foi apoiada pela Rússia. A partir daí as coisas se desenrolaram e o controle se perdeu. 
 
Quem imaginaria que um assassino inconsequente levaria a uma guerra generalizada e à máquina do juízo final europeia?
 
A verdade é que aquela guerra explodiria por qualquer outro motivo, caso aquele incidente não houvesse ocorrido, pois já estavam ávidos por batalhas os poderosos parentes que, então, lideravam as grandes nações que guerreariam. Os jovens morreram, sangrando nas trincheiras e tingindo a terra de vermelho. Aliás, até hoje há isolada e inabitável região na França, por estar cheia de armamentos e de poluição química: a Zone Rouge. 
 
A guerra terminou em 1918 e os vencedores impuseram à Alemanha as pesadas cláusulas do Tratado de Versalhes. Mesmo os países que venceram a 1ª Guerra Mundial percebiam que curvaram demais a Alemanha, derrotada naquele conflito. O peso das indenizações de guerra, o desmonte dos exércitos e outras sanções que lhe foram impostas, criaram o caos econômico e social que se mostrou o caldeirão perfeito para a nova guerra, que começou em 1939, com movimentos militares alemães em solo europeu.
 
Depois da 2ª Grande Guerra tivemos outras regionais e, em âmbito maior, a chamada Guerra Fria, quando tudo passou a um cenário diferente, deixando de ser opção justificável a “guerra quente” com armas nucleares, pois seria o fim da humanidade. Aliás, só para registro, consta que, hoje, em 2022, países possuem bombas nucleares com capacidade para destruir o mundo 16 vezes (há armamentos nucleares capazes de acabar 16 vezes, em sequência, com a vida conhecida). 
 
Além disso, agora, após 90 anos desde que o início da 2ª Guerra, ocorre o conflito na Ucrânia, algo terrível, mas delimitada a certa região. Todavia, aquela guerra já afeta o mundo como nunca antes visto e a sua avalanche é crescente, abalando a economia global, ao atingir a produção, a circulação e o preço dos alimentos, além de outros motivos econdutas oportunistas, que potencializam os danos. 
 
As armas econômicas, as sanções e os boicotes dessa guerra não envolvem os soldados, pois causam vítimas civis, como as pessoas comuns e as inocentes famílias, de cidades e países até bem distantes do cenário de guerra ucraniano. 
 
A globalização criou essa armadilha. Parte fundamental de produto é industrializada num país e comercializada em outro. O Porto de Taiwan opera bem abaixo da sua capacidade, em parte sob a justificativa da Pandemia e de lockdown parcial na China. Como é o maior do mundo, tudo o que ali ocorre afeta o todo, que está conectado de modo jamais visto. 
 
Esta extraordinária conectividade se traduz em mundialização do capital, globalização dos mercados muito além das fronteiras dos países e movimentações bancárias ágeis e silenciosas, pelo mundo. Não mais se carregam malas ou caminhões com notas de dinheiro. Para a transferência de milhões de dólares, basta a digitação de uma senha. O global fluxo de capitais é guerra à parte e vitima muita gente, sendo armamento mais eficaz do que os tiros dos soldados. 
 
Também já derruba economias fortes e governos. Nesta semana renunciou o 1º Ministro Inglês, Boris Johnson, enquanto o Federal Reserve (o Banco Central dos EUA) elevou a taxa de juros ao maior nível desde 1994, prenunciando iminente recessão.
 
Em grande resumo, a guerra joga gasolina e reacende as chamas da insensatez, em meio ao contexto da Pandemia, da instabilidade da economia global e da diminuição do fluxo de circulação de mercadorias pelos portos... Tudo junto e misturado, num grande caldeirão. Nas anteriores Guerras Mundiais, ocorreu o colapso do Sistema Europeu. Agora, o mundo colapsa.
 
É bom lembrar que, contemporâneo a isso, embora girando como força independente, o Euro também tropeça na Europa, não sendo demais lembrar as lições de Philipp Bagus, na obra A Tragédia do Euro, acerca do movimento dos políticos franceses, que buscaram um banco central comum na Europa, para controlar a forte influência alemã, após a reunificação que se seguiu à queda do Muro de Berlin. Como visto, de novo e como há tempos, as forças giraram em torno da contenção da potência alemã na Europa.
 
 Ocorre que, agora, há a China ocupando espaço vital na economia mundial e a tal ponto que, Richard Nixon, quando presidiu os EUA, disse que talvez tivessem “criado um Frankenstein” ao só focar na antiga União Soviética e deixar livre a China Comunista.
 
Outro aspecto fundamental é que os países não mais são como eram, sucumbindo como conceito, já que o Estado foi capturado pela economia, enquanto os governos reduziram impostos e endividaram-se, com dívidas públicas alarmantes. Em 2021, o Brasil pagou aos seus históricos credores cerca de 51% de tudo o que arrecadou - assustador!
 
A Rússia quer a Ucrânia entre as suas fronteiras e a OTAN e esta quer se expandir. 
 
Ocorre que não é ali um mero conflito territorial. Há imensa relevância geopolítica e econômica, já que  a Ucrânia possui cerca de 1/3 (um terço) das terras aráveis da União Europeia e, em idos de 2008/2009, foi o terceiro maior exportador de grãos do mundo, significando dizer que qualquer coisa que se faça em seu território afeta produção de alimentos e a imensa cadeia produtiva daí decorrente e, além disso, pelo território ucraniano passa imensas quantidades de gás e petróleo, que alimentam a economia europeia e a residência das pessoas, nos gélidos dias de inverno. Sem isso, o exército branco de gelo e neve marchará pelas indústrias e pelos lares, deixando destruição imensa e mais pratos vazios nas mesas, pelo mundo afora.
 
No momento, o contexto fabrica gargalos econômicos, atinge modais na cadeia produtiva, abala o crédito global, as taxas de juros e a circulação de produtos. O mundo, atônito, observa.
 
Por fim, não nos esqueçamos de que aquela Guerra envolve a OTAN, que nasceu do fim da 2ª Guerra e do fracasso da Liga das Nações. São muitas as fichas na mesa, envolvendo a OTAN, os EUA, a Rússia, a Europa e a China e curiosidades, como a informação de que a Índia, pelo boicote imposto à Rússia, estaria comprando desta o petróleo a preço mais barato e o revendendo diretamente aos EUA. 
 
A gigantesca China só observa. É a maior credora dos EUA e o mundo não pode vê-la não crescer, pois dela depende para não erodir a economia e a ordem política vigente. 
 
Enquanto isso, o tempo passa, sem que tenhamos qualquer chance de controle do futuro, a Pandemia ainda existe e a Guerra na Ucrânia já ultrapassou os 100 dias, sem previsão de término. 
 
Esta guerra não é mundial por conceito ou envolvimento dos exércitos de muitos países, mas é global pela dimensão da sua esfera de influência e pelas graves consequências que produz desde o seu início, há apenas 4 meses.
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