09/08/2020 às 02h24min - Atualizada em 09/08/2020 às 02h24min

ALÉM DA COR DA MESTIÇAGEM

Paulo Rebelo. Foto: Arquivo Pessoal.
Eu jamais tive problemas com minha cor morena. 

Sou um mestiço; uma temperada mistura entre o branco anglo-saxão e o caboclo Amazônida. 

Sou egresso de uma família vinda dos confins da Amazônia, cujos antepassados eram os WALLACES e os CAMPBELLS, que se perderam no tempo. Deles pouco ou nada sei.

Às vezes, sou tomado por um sentimento atávico como se eu não fosse daqui, mas a impressão logo se desfaz deixando para trás o rastro de uma pálida sombra.

Todos chamavam-me "preto". 

Morávamos em uma vila de casas conjugadas de classe média baixa no meio de um quarteirão, imprensada entre duas belas mansões de comerciantes árabes em cada esquina. Essa era a visão que eu tinha de riqueza tão próxima e tão distante. Havia um belo jardim onde lá em pensamento eu me aprazia e corria livre.

Meu pai era piloto de rio e minha mãe, dona de casa. Acostumei-me com suas longas ausências.

A maioria dos costumes era burguês e a religiosidade católica cristã e eram salientados quando se queria atribuir fineza e classe à qualquer evento social, porém a vida era enriquecida pela cultura indígena e negra na alimentação rica em peixes, frutas e hortaliças e os rituais de umbanda. 

Sim, isso mesmo, UMBANDA; a vila toda frequentava o concorrido Terreiro de Umbanda de minha tia-avó JUCA, uma linda mulher boleada e cafuza.

A vila inteira e o bairro todo se valiam da ajuda espiritual da Mãe de Santo Juca, pobres e ricos, estes, com muita discrição, claro.
Ainda lembro-me das estatuetas de São Jorge e Iemanjá, a deusa mãe de todos os deuses africanos, os orixás, oferendas e sacrifícios de galos, das cantorias da roda das baianas, dos toques dos tambores, do aroma inebriante da fumaça do charuto que emanava de sua boca grande e carnuda, o cheiro forte da cachaça e cerveja e agradável odor das colônias de ervas e flores espraiada nos corpos suados dos dançantes, dos óleos medicinais e ainda daquelas palavras ininteligíveis, quando nos aflitos e necessitados, tia Juca, aparentando incorporada de um ORIXÁ forte, purificava seus corpos e almas, dando-lhes "PASSES". Eu mesmo tomei muitos, esmo sem saber exatamente o porquê. Aquele aroma ficava entranhado na minha pele, roupa, cabelo e até no hálito.

Nunca fiquei assustado, até mesmo quando alguém caia no meio salão tendo pego um "santo", depois outro e mais outro. 

A sessão varava a noite. No fim, tia Juca e os demais presentes estavam exaustos. Eu, não, só enfadonhado. Como criança, achava aquilo tudo muito engraçado, mas ficava só para mim.

Assim, não sou mestiço apenas na cor da pele, mas na alma.




Paulo Rebelo
Médico e poeta
 
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