09/08/2020 às 02h39min - Atualizada em 09/08/2020 às 02h39min

O Anel de Gyges

Luiz Mauricio Bentim. Foto: Arquivo Pessoal.

No Livro II da República, Platão, através de seu personagem Gláucon, irá nos contar a narrativa de Gyges e de como ele encontrou o seu anel de ouro. Através do uso desse anel, Gyges irá usurpar o trono da Lídia, matando seu soberano, e irá se tornar o primeiro tirano. Diz o mito que Gyges era um pastor da Lídia, região da Ásia Menor, e que cuidava do rebanho do rei quando presenciou um forte terremoto. O terremoto abriu uma fenda bem onde Gyges tomava conta do rebanho. Sentindo curiosidade, resolveu descer pela fenda e chegou a um lugar repleto de maravilhas e riquezas. Dentre essas, viu um cavalo de bronze oco e dentro deste estava um cadáver de um homem nu, tendo apenas um anel de ouro na mão. Gyges pegou o anel e saiu da caverna em que estava. Mais tarde, reunindo-se com os demais pastores, ele deu um giro com o engaste do anel para dentro da palma da mão e ficou invisível. Depois deu um novo giro no engaste e ficou novamente visível. Percebendo que tinha o poder de ficar visível e invisível quando tivesse vontade, resolveu corromper a rainha para ajudá-lo a matar o soberano da Lídia. Feito isso, Gyges passou a ser o novo soberano da Lídia.

A lírica grega desenvolvida entre os séculos VII e VI a.C. deixou, nos fragmentos que nos restaram, um precioso tesouro a respeito de Gyges da Lídia. A primeira fonte que temos a seu respeito é de Arquíloco de Paros, que assim nos fala sobre ele:

“Não me preocupam as coisas de Gyges, rico em ouro, /Nem ainda me persegue a cobiça, nem invejo/ As obras dos deuses, ou amor pela grande tirania; /Isto longe está dos meus olhos”. (Fr. 19W)

Arquíloco que viveu entre 680-640 a.C. foi contemporâneo de Gyges, que teria reinado entre 682-644 a.C. Tal fragmento além de ser o primeiro a tratar de Gyges, parece também ter sido o primeiro a utilizar no grego o termo “tirania”. O anel de Gyges é, portanto, um anel de poder capaz de tornar os homens símiles aos deuses e, como isso, testar a capacidade dos humanos de se manterem justos se tiverem esse poder ou, melhor dizendo, se não estiverem sendo vistos por outras pessoas. Pois esse é o real significado da invisibilidade, o que fazemos quando não somos vistos. Sendo o desafio que se faz, a partir da narrativa do anel da invisibilidade, é: quem se manteria justo mesmo invisível? A justiça é natural ao homem ou é apenas uma obrigação moral dada por um contrato legal entre os humanos, que qualquer um deixaria de cumprir quando não está sendo observado pelos outros humanos? A liberdade total é uma corrupção do desejo e tem relação direta com a pleonexía, que é a vontade de ter sempre mais. Se o ser humano se reduzir apenas ao desejo, então não será capaz de atos de justiça ou bondade em si mesmos, mas apenas se for coagido a agir conforme a lei estabelecida por um contrato. Gyges demonstra como o contrato pode ser deturpado pelo seu governante se a ele for permitido "agir como um deus" (Rep., 360c3). Dessa forma, o anel de Gyges é a metáfora do caminho do tirano.



Luiz Maurício Bentim
Doutor em Filosofia pelo PPGLM/UFRJ. Professor de Filosofia Política, Ética e Filosofia da Tecnologia do IFTM
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