16/08/2020 às 00h30min - Atualizada em 16/08/2020 às 00h30min

VERSOS BRANCOS, VERSOS LIVRES E SAPATOS

Rui Guilherme. Foto:Arquivo Pessoal

Comecemos pelos sapatos. Vieram-me estes em sonho. No térreo de um descomunal edifício comercial. Servido por oito elevadores, uma vitrine. Nela, um poema concreto: consistia em vários pares de sapatos de todas as cores, feitios e formatos, botas, tênis. Levava o espectador a pensar nos caminhos do artista. Este era o meu colega/amigo/irmão o baiano Eduardo Navarro. No sonho, ele aparecia vestindo branco. Baiano, lembrava um pai de santo.

Na vitrine dos sapatos, um jogo de luz induzia a pensar em caminhadas. Saindo o foco da vitrine, a mensagem dos sapatos vinha completada por um grupo de dançarinos em contagiante samba. Ao fim, o poeta Navarro falava à platéia de suas andanças. Ao me ver, dirigia-me afetuosas palavras, apontando-me ao público como poeta. Logo eu, poeta? Minha praia é a prosa, pensei. Falta-me coragem para publicar as poesias que ouso cometer.

Poeta é o Robert Frost. Olhem só que coisa linda ele publicou em 1923, em New Hampshire. Primeiro, vai no original, mas logo segue tradução livre que me arrisquei a fazer:

“STOPPING BY WOODS IN A SNOWY EVENING
Whose woods these are I think I know
His house is in the village though
He will not see me stopping here
To watch his woods fill up with snow

My little horse must think it queer
To stop without a farmhouse near
Between the woods and the frozen lake
The darkest evening of the year

He gives his harnesse bells a shake
To ask if there is some mistake
The only other sound is the sweep
Of easy wind and downy flake

The woods are lovely, dark and deep,
But I have promises to keep
And miles to go before I sleep
And miles to go before I sleep.

 PARANDO NO BOSQUE EM UMA NOITE DE NEVE
De quem é este bosque eu acho que sei
Embora a casa dele seja na cidade.
Ele não me verá parando aqui
Para ver seu bosque encher-se de neve.

Meu cavalinho deve achar esquisito
Fazer essa parada sem uma casa por perto
Entre o bosque e o lago congelado
Na noite mais escura do ano.

Dá uma sacudida nos guizos do arreio
Para perguntar o que há de errado.
O único outro som vem do murmúrio
Da brisa gentil e dos flocos da neve que cai.

O bosque é adorável, escuro, profundo,
Mas eu tenho compromissos a cumprir
E milhas para andar antes de ir dormir
E milhas a percorrer antes de dormir

Poesia é tarefa arriscada. Quem a produz tem um coração valente que talvez me falte. Tem que ter a coragem de um Paulo Madeira, que acaba de vencer a Covid 19 e segue impávido em sua judicatura no Amapá, sem esquecer o reggae e o balanço de sua ilha de São Luíz do Maranhão, de suas noites com amigos, de suas rodas de música e poesia. Como o poema “Só”, versos brancos que ele me mandou cujo fecho mostro a seguir, e sem pedir licença:

“SÓ
…........
A palavra mostrou a voz distante
A voz não queria vir
Tava de saco cheio de conversa
Sem opção, saiu com a palavra muda”

Animado pelos sapatos do Navarro, pela poética gelada do Robert Frost, pela ginga do meu brother Paulo Madeira, arrisquei-me a compor o haikai com que fecho esta matéria:

VERSOS BRANCOS, VERSOS LIVRES
Muda a palavra,
Tudo muda.
Só uma verdade é constante:
Tudo muda.



Rui Guilherme 
Juiz de Direito e Escritor.
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