16/08/2020 às 00h30min - Atualizada em 16/08/2020 às 00h30min

Estrangeiros e novos costumes

José Altino. Foto:Arquivo Pessoal.
Estrangeiros, estrangeiros, e com eles outro marcante acontecimento. Chegada de “repórteres” de uma universidade da Itália, acompanhadas de um rapaz, que se apresentava como produtor. A maior distinção era a presença, pela primeira vez, de duas beldades tituladas naquela profissão, lindas, lindíssimas mulheres! O produtor, um tanto simplório. Alguém já lhes havia dado meu telefone, e a maneira de me encontrar. Queriam conhecer um garimpo, o trabalho na floresta, fazer filmagens, produzir uma matéria para a universidade e para o jornal da sua cidade, Milão. 

Não sei se mais atraído pela beleza das mulheres, resolvi levar o grupo. Avisei-os de que eu os levaria para conhecer o garimpo do Acari. Eram duas horas de voo, quase às margens da Transamazônica. Na chegada, encontramos meu amigo e consultor técnico da União Sindical, Antônio da Justa Feijão. Viu-nos passando e ficou impressionado com o que viu de relance, lindas cabeleiras loiras, esvoaçantes, que o fizeram pensar ter Deus lhe ouvido as suas preces, após dezessete dias no mato fazendo “pesquisas”. Quando as jovens desceram do avião, ele se embasbacou. Realmente as mulheres eram muito bonitas, extremamente atraentes. Inexplicavelmente, antes de alguém mencionar a hora da partida, Feijão estava todo arrumado, bem vestido. Estranhei aquilo e brinquei, lhe dizendo: -agitado è? Ele meio desconcertado, explicou me que com cheiro de mato, não poderia estar meio a elas, todas perfumadas. Ficaria até desinteressante ser junto filmado e entrevistado, como se encontrava. 

Quando falei que ia regressar, chegara a hora limite do pôr do sol para chegar a Manaus, ele logo se dispôs a ir conosco. Entendi bem as artes do garanhão, e não fiz mais que concordar. Ganhamos o céu rumo a Manaus. Na chegada, combinamos com as senhoritas um jantar no hotel onde elas se hospedavam, o melhor de Manaus. Minha casa ficava próxima a ele. Após o jantar, alguém sugeriu que fôssemos a uma casa de Roda de Samba. Discretamente, disse a Feijão que eu não iria. Durante o jantar, bateu-me um sentimento de que existia um comportamento estranho entre o produtor e elas. Fui explicando, sem permitir réplica, que não iria. Sugeri que fossem os quatro. Fiquei em casa e fui dormir, só sabendo da verdade quase às cinco horas da manhã.

Despertei-me com o barulho de Feijão entrando aborrecido. Estranhei. Imaginara que ele dormiria fora. Terminando por acordar me, questionava o motivo de não o ter avisado. E eu sem ideia do que ele falava. Então, bastante constrangido, Feijão foi me narrando o acontecido, que na tal Roda de Samba, a mais bonita delas sentara se a seu lado, e começaram até a criar um pouquinho de intimidade. Deu se o entusiasmo. A outra ficara a dançar com o produtor. Daí a pouco, a que estava com ele, o abandonou e levantando-se agarrou aos outros dois, pulando, dançando desvairadamente, e, à medida que tomavam caipirinha entornando, começaram a se esfregar, cada vez mais próximos. E ele olhando meio de longe. De repente, saiu fora, aquilo começara a incomodá-lo. Saiu de perto deles. Não adiantou, nada tardou para que o tal produtor deixasse as duas na pista e viesse sentar se a seu lado, e perto demais. 

Aí fez uma pausa no relato e solenemente me disse: “você sabe como é, nós somos da Amazônia, aqui homem é homem, mulher é mulher; meio termo aqui complica. As moças atracaram-se na pista de dança, fiquei preocupado... Pelo amor de Deus! Logo, eu, Antônio Feijão, esse pessoal todo me conhece da União Sindical dos Garimpeiros, enfiado num troço desses, rapaz!!! Com pressa danada, pedi a conta, e o puto do garçom, demorando, agoniou-me. Quando veio a dolorosa, paguei e fui chamando, bora, bora, bora”. 

Segundo seu lacrimoso relato, ele achava, que ao chegar ao hotel, ainda teria uma chance de pelo menos bom pernoite. Chegou a propor ao produtor se poderia dormir no quarto dele com uma, e pagaria outro quarto para o rapaz dormir com a outra. Disse que o cara ouviu calado, sem nada responder, por isso acreditara em sua concordância. Pensara mil mirabolâncias na volta para o hotel. Mas, não teve tempo de nada nem de coisa alguma. Lá chegando altas horas da madrugada, ao passar nas proximidades da piscina, elas foram tirando a roupa, e entrando n’ água, só de calcinhas. Ele, ali, sem jeito, ar de matutão, começou até a desabotoar a calça e a pensar em pular também meio das duas. Só então percebeu que elas o ignoravam totalmente, embora o tenham olhado de relance, com as calças no meio das pernas. Pasmo, as viu se abraçarem, e ali, dentro d’água, começarem a maior transa. 

Bom, eu, nós, todos, achamos graça, mas o Feijão, nenhuma, coitado...

Realmente, não só Feijão mesmo solteiro à época, mas a Amazônia tem dificuldades com estranhos...




José Altino
Jornalista diário, escritor, aviador, ex-fundador da União Sindical dos Garimpeiros da Amazônia Legal, ex-membro do Conselho Superior de Minas.
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