16/08/2020 às 00h30min - Atualizada em 16/08/2020 às 00h30min

DOIS PERSONAGENS FUNDAMENTAIS DA MINHA CARREIRA

Osvaldo Serrão. Foto:Arquivo Pessoal.

Quando no último ano de faculdade, a ansiedade sobre o desconhecido mundo que me esperava, embora assustadora, era, para mim, simplesmente fantástica.

A par disso, a angustiante expectativa de conhecer mais de perto meus ídolos e referências profissionais, até então vistos somente nas reportagens jornalísticas.

Sempre quis ser criminalista. Mas, entre o ‘querer’ e o ‘ser’ havia uma abissal distância. Na verdade, minha carreira tinha tudo para não dar certo, seja pelas dificuldades de minha humilde origem social, como, principalmente, pelo meu sofrível curso de direito, já que lecionava de manhã, de tarde e de noite.

Mas, quando recebi a carteira da OAB, foi quando ‘a festa realmente começou’.

De saída, a emoção ao vestir um terno pela primeira vez. Lembro como se fosse hoje, mamãe, costureira, dando os últimos retoques no meu vestuário e gravata, com as lágrimas escorrendo pelo seu rosto. 

Por quê chorava? O que passava por sua cabeça naquele momento? Não sei. Só sabia que suas lágrimas também me contagiavam, e eu chorava junto com ela. Éramos muito apegados um com o outro, desde seu sofrível parto para me ter.

Meu pai, vendendo suas verduras no Ver-o-peso, também torcendo por mim. A vitória, afinal, também era dele
Era, enfim, um garoto de apenas 21 de anos que saia pela primeira vez de casa no subúrbio em busca da realização dos seus sonhos. 

Já na rua, os vizinhos mais próximos me olhavam perplexos. Nunca tinham visto aquela cena, muito menos eu: ‘Eras, pra onde ele está indo todo de paletó’?

E lá segui pelo mundo afora, sob as bênçãos e o entusiasmo de minha saudosa mãe. ‘Vá meu filho. Boa sorte. Seja feliz e que Deus o proteja sempre’.

Como não ser grato a essa maravilhosa mulher, que além da vida, me formou, e me deu a energia e o incentivo que tanto precisava naquele momento?

Comecei, então, meu dia a dia no fórum criminal, sem conhecer absolutamente ninguém. Não tinha escritório, livros e nenhum cliente. Nada. 

Mas, tive o singular privilégio, de passar a conviver com meus ídolos logo nos trôpegos primeiros passos da carreira, 
Um deles, entretanto, teve uma influência decisiva na minha formação e ascensão profissional: o criminalista Odilson Novo, falecido com apenas 52 anos de idade.

Meu aprendizado jurídico começava, mas, por demais, doloroso. Sem qualquer orientação técnica, fui aprendendo por fragmentos, sem qualquer visão panorâmica do Direito, que, como qualquer ciência, constitui um sistema.

Cada assunto puxa outro. Mas, meu voo, naquele momento, era demais rasante. 

Certo é que, abstraída a vontade de vencer, faltava-me, entretanto, uma base mínima de conhecimento.

O pior é a traumática experiência nesse comovente aprendizado, justo quando não encontramos nos livros a resposta para as nossas dúvidas. É, o mais grave: quando não se tem ninguém para conversar.

Certo é que, Logo nos primeiros contatos, surge uma empatia entre mim e Odilson.

E nessa ciranda de amizade, certo dia me convidou para ia a sua casa. Tive, então, o privilégio de conhecer sua sala de estudos. No primeiro passar dos olhos por sua imensa biblioteca, livros que nunca sonhei manusear. Um mundo surreal.

Mas, a emoção maior era passar a conviver com a intimidade do meu ídolo.

Ficava horas sentado numa cadeira, vendo-o redigir suas peças, como um verdadeiro artesão. Sempre à caneta. Entre um tópico e outro, parava, olhava o vazio, como em transe, buscando as palavras corretas para emoldurar seu raciocínio.

O que mais me impressionava é que nunca corrigia seus textos. A redação era impecável e o conteúdo infalível. 

Com o tempo percebi que o segredo do seu talento emergia no exato momento em que fazia suas paradas estratégicas entre uma frase e outra.

Tópicos curtos, que lançavam dados certeiros, atingindo o âmago do processo.

Ele respirava o a causa em que estava trabalhando. Era impressionante como se transportava mentalmente para o palco dos acontecimentos, na frenética busca pelo ‘algo mais’.

Esse certamente um dos segredos seu sucesso: conhecer a alma dos personagens

Odilson era correto e cavalheiro, como homem e como colega. Esse seu coração fazia com que alguns oportunistas se prevalecessem de sua bondade.

Era constrangedor chegar a sua casa, e saber depois, por ele próprio, que o ‘desembargador, ‘juiz’, o ‘promotor’, fulanos de tal, ficaram escondidos no banheiro, com vergonha de serem vistos por mim, até porque priorizava minha presença.

Havia uns tão cínicos que já levavam seus papéis timbrados para que Odilson datilografasse neles. Sei disso, não apenas porque me contava, como porque as letras de sua máquina eram inconfundíveis.

Acredito que, por essa razão, gostava muito de mim. Ia até ele somente para tirar dúvidas. ‘Nunca pede pra eu redigir alguma peça pra você’, reclamava.

Não posso negar que seus ensinamentos foram fundamentais para minha formação técnica. ‘Não faça assim’. ‘O caminho é outro’, e, assim por diante.

Fui, então, beneficiado pelo privilégio de conviver com sua intimidade profissional. 

Trabalhei ao seu lado em alguns processos comuns. A grade mágoa, porém, é de nunca ter feito um júri ao seu lado, porque o destino acabou me golpeando. 

É que quando ia realizar meu sonho, com julgamento de repercussão nacional já marcado, ele largou minha mãos de surpresa, indo morar no mundo de Deus, falecendo no auge da sua brilhante carreira.

Odilson vivia para estudar. Tinha poucos amigos, mas, incomodava demais aqueles que não gostavam dele simplesmente pelo seu sucesso profissional.

Quando sabia de alguma crítica injusta, respondia com ironia: “Serrão, ao contrário de mim, se você ver o doutor beltrano andando de muleta com a perna engessada, fique certo que não caiu de uma estante tentando desesperadamente pegar um livro para estudar’.

Se mil vidas tivesse, em todas elas exaltaria a gratidão por esses dois personagens decisivos em minha carreira: Mamãe, RAIMUNDA OSMARINA, e o querido colega e amigo ODILSON FERREIRA NOVO.




Osvaldo Serrão 
Crônicas – advogado, presidente da Associação Brasileira dos Advogados Criminalistas
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