30/08/2020 às 00h10min - Atualizada em 30/08/2020 às 00h10min

Minha internet ou minha filha


—Bom dia professora!

— Bom dia, como vai a senhora mãezinha?

—Vou bem não professora, estou ligando pra lhe dizer que minha menina não irá mais estudar.

—Como assim? Por que mãezinha? Aconteceu alguma coisa?

— Ah! professora, não tenho condições de assistir aula com a minha filha, é muita coisa e eu não sei mais nem que letra ela escreve. E a internet não é pra isso, eu comprei meu chip para o meu interesse, não foi pra assistir aula.

—Mãezinha, eu entendo, mas a sua filha não é de seu interesse? 

—É professora, mas tenho outros interesses mais importantes e eu não tenho tempo para dar o meu celular para ela estudar, e a minha internet eu pago para meu uso, ninguém me ajuda.

—Entendendo perfeitamente a senhora, mas será que não é possível separar uma hora para a sua filha assistir as vídeos aulas.
—Não professora, como já lhe disse meu celular é pra outras coisas, ela estuda quando voltar pra escola.

—Mãezinha, essa situação poderá demorar um pouco, para a segurança das crianças e principalmente de sua filha.

—Professora, minha filha é forte, não pega nem gripe, acho melhor ela está na escola, pois lá ela estuda; em casa só brinca e ainda me dá muito trabalho.

—Entendo senhora, mas no momento não podemos estar na escola, é perigoso por questões sanitárias ,gostaríamos muito de estar com nossas crianças e poder fazer nosso trabalho ,não queremos que as crianças fiquem atrapalhando a vida de vocês , e  muito menos  dando trabalho e tendo que tirar o celular e a internet de vocês para aprender um pouco com as atividades remotas, por isso sabendo que há perigo  nós estamos tentando fazer com que as crianças desenvolvam mesmo de forma remota.

— Professora, mas não tem nada a ver com o seu trabalho é porque eu tenho outros compromissos viu!

— Certo mãezinha, irei reportar a sua situação para a coordenação pedagógica e peço que a senhora aguarde, as pedagogas entraram em contato com a senhora só por questões de controle escolar.

— Professora isso pode prejudicar a minha filha? ela vai perder o kit merenda? vai perder a bolsa? porque eu não posso perder professora, pois é isso que está ajudando aqui em casa.

—Mãezinha, essas questões eu não sei e não tenho como responder, por este motivo quem conversará com a senhora é a coordenação pedagógica. E como a senhora afirmou que ninguém lhe ajudava, a escola irá responder todas as suas dúvidas.

— Mãezinha, como professora lhe aconselho a reservar pelo menos uma hora para sua filha continuar acompanhando as aulas, isso é para o futuro dela e principalmente para o seu. Ajudando sua filha hoje, amanhã ela que lhe ajudará.  Lembre-se que é direito da criança ter acesso a escola, e dever da família proporcionar isso para ela.

— É professora, mas só eu que estou tendo trabalho.

— Não mãezinha, a escola está fazendo o possível para alcançar a criança, inclusive eu estou aqui conversando com a senhora, mas não posso resolver todos os seus problemas, por isso aguarde a ligação da coordenação e no momento exponha seus motivos do porque a criança não poderá estudar e tente resolver os problemas de sua filha.

— Ei professora quando é que vão entregar os kits merenda novamente? Estou quase sem nada. A senhora pode me informar?

— Assim que a coordenadora entrar em contato, pergunte para ela. Pois elas poderão lhe informar melhor. Tenha um bom dia e que Deus lhe abençoe.

Nossa função não é julgar, muito menos aceitar. A única coisa que podemos fazer é incentivar os pais a ajudar. Quando percebemos que, mesmo com o incentivo os pais não demonstram interesse pela educação de nossas crianças e colocam outros seus interesses como mais importantes, nossa única opção é pedir ajuda da escola. E então a escola toma as providencias cabíveis.

Ser professora é ter um olhar diferente, mas não conivente.


 
Tags »
Leia Também »
Comentários »