05/09/2020 às 23h16min - Atualizada em 05/09/2020 às 23h16min

CIÊNCIA, CONSCIÊNCIA, PACIÊNCIA E INOCÊNCIA

Rogerio Reis. Foto:Arquivo Pessoal.

Conta-se, numa antiga piada, que um viajante chega a uma cidade pela primeira vez, se dirige a um local de lutas e pergunta a um morador qual o lutador “bom” e lhe apontaram o tal. O viajante então nele aposta todo o seu dinheiro, mas, uma vez iniciada a luta, o lutador “bom” foi de imediato massacrado por outro. O viajante então foi reclamar com quem lhe deu a dica e este lhe respondeu:  - “O “bom” era aquele, o “mau” foi o que ganhou a luta.

A piada, cuja autoria desconheço, mas aqui homenageio, revela-nos paradoxos interessantes e inspiradores e também nos leva a pensar na necessidade de assertividade, para se fazer entender com clareza e, assim, gerar uma resposta à altura da expectativa.
Seria certo se supor que na situação narrada na piada, alguém tem perfeita ciência dos fatos, mas intencionalmente não o declara com clareza? Outro tem consciência do que quer (apostar tudo e ganhar muito) e inocentemente confia na informação, sem contudo confirmá-la ou revelar o seu intento de aposta? Ao mesmo tempo, há um silêncio entre a resposta dada e o resultado final, a cargo do morador local que, se não significa tenha agido com logro, revela-se a alguns inocente ou malicioso ante à pergunta do visitante.
De toda forma, independente do que se pensar sobre a situação e de quão profunda possa ou não ser a análise que a respeito se fizer, quantas vezes na vida acreditamos intensa e verdadeiramente no que nos propõem, agindo como cegos diante do precipício? Quantas vezes confiamos em algo que nos é dito, mostrado, sugerido ou comprovado, ainda que nossos instintos ou os melhores conselhos e análises de risco nos convençam do contrário? Momentos há em que confrontam-se a ciência e a consciência e a nossa inocência, num desafio de forças para ver quem se há de sair-se vencedor: a emoção fomentada pela inocência dos sentidos ou o cognitivo, a razão, a consciência que empiricamente tenha analisado os fatos e circunstâncias e, de modo cartesiano, tenha chegado à uma conclusão.

Isso cabe no mundo dos negócios, na vida privada e no cenário político.

Curiosamente, em Direito há a figura da “torpeza bilateral”, para definir a situação em que as duas pessoas tentam lograr-se uma à outra, como quando a vítima do estelionato tenta também de má-fé obter vantagens no negócio proposto. 

Novamente aqui a ideia da perfeita ciência e consciência, da inocência e da paciência se revelam relevantes e fundamentais para se entender o cenário, pois um age com pleno conhecimento do fato e do que alvitra conseguir de benefício e vantagens, o outro é a vítima que seria enganada, mas que também vê vantagens (digamos, achando que está pagando pouco por um – falso - premiado bilhete de loteria) e acha que vai é se dar bem e cai no golpe exatamente porque é seduzido ao mesmo tempo em que quer vantagens sobre o outro. Novamente, aqui há uma certa tensão no jogo entre ambos, onde a inocência de um é traída pela consciência dolosa do outro... e a paciência se faz fundamental no “jogo”, pois há um tempo e um blefe necessários para que o “golpe” se consume.

Observemos que, tanto na piada inicialmente lembrada quanto na situação acima, o “tempo” é um elemento fundamental no “logro”, no engodo, no engano, no golpe final desferido sobre o inocente que, por seu “excesso de confiança”, acaba sendo derrubado, tal qual Golias, o gigante abatido por uma pedra.

Com suas naturais variações, o caso se faz presente em várias situações de nossa vida.

Nas relações de consumo, se combate a propaganda enganosa e os mecanismos de vulnerabilidade do consumidor, exatamente por situações abusivas outrora ocorridas e que a norma de proteção ao consumidor veio socorrer.

“Ciência” é conhecimento que se domina, é o saber. Consciência revela a ideia de saber-se seguro dominador do conhecimento. Paciência, a ideia de resignação, de sossego enquanto se espera algo desejado e de aceitação dos fatos. Inocência traz o sentido de não ser dominador desses fatos, de pureza e ingenuidade. O jogo entre as 4 palavras é de certo modo o jogo da vida, o jogo dos negócios, o jogo das relações entre as pessoas, onde rivalizam-se as camadas de informações sobre os fatos e sobre as regras do jogo, do mesmo modo que sobre as qualidades do jogador, as intenções disfarçadas ou  não e sobre o propósito de cada um, na vida.

Doutro modo de se refletir, José Saramago, o grande autor português, falava que uma coisa é a verdade e outra é a credibilidade, não sendo demais considerar que grandes players ocultam o alto gabarito das suas técnicas num primeiro momento, enquanto avaliam o nível do adversário, “escondendo o jogo”, como se diz na gíria. Ao mesmo tempo, os inocentes, incautos, puros, entregam-se desde o início e por isso são vítimas fáceis.

Quantas promessas nas campanhas políticas foram não cumpridas em vários cenários e em todas as épocas? Quantos acreditaram nos falsos profetas que levaram tantos incautos a longas estradas tortuosas e a atalhos vãos? Quantos pais de família foram à ruína apostando as suas economias em “negócios milagrosos”, em “correntes” ou mágicas fórmulas de se enriquecer? O Encilhamento, de fins do Século 19, é exemplo vivo da história brasileira e registra o caos econômico dos primeiros tempos da República, em parte resultante de proposta afim. Ademais, nações foram conduzidas à Guerra contra inimigos forjados ou por falsas causas. Quanto sangue derramado, quantas lágrimas choradas, quanto pranto e ranger de dentes?

Somos sujeitos da história! Não somos moribundos ou pacientes passivos, apenas aguardando a morte chegar. 

Somos o elemento subjetivo da nação, o que tem coração batendo no peito e sangue correndo nas veias.

Somos o “Povo heróico” de que fala o Hino Nacional!

É da nossa garganta o “brado retumbante”!

E a nação é de imenso território e é rica, nas matas e florestas, nos minérios e pujantes rios, nos continentais limites territoriais e na plataforma continental, nos vários biomas e climas e características geográficas, verdadeiro celeiro produtor de alimentos para tantos milhões, admirado por tantos que sofrem em condições adversas, de clima, salinidade, precipitação de chuvas ou perenes conflitos armados.

País do futuro, país do presente, país com 500 anos. 

Cinco Séculos, tanto quanto o tempo de vigência da República, no Império Romano (de 509 a.C. a 27 a.C.), mais do que o tempo dos vastos domínios a cargo de Alexandre, O Grande (cerca de 12 anos), mais do que o tempo das dominações de Gengis Khan (de 1209 a 1368 d.C.). 

Que nesse 21º Século avancemos nos indicadores sociais e cresçamos à altura de todo o nosso potencial, galgando superiores degraus.

Que doravante tenhamos um povo plenamente feliz, sorrindo conscientemente pelas reais melhorias das condições de sua vida e do país.

Rogerio Reis Devisate.
Advogado. Defensor Público/RJ junto ao STF, STJ e TJ/RJ. Palestrante. Escritor. 
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