26/09/2020 às 22h00min - Atualizada em 26/09/2020 às 22h00min

MEDO - COVID-19: UM MEDO QUE É NOVO PARA MIM

Dra Denise Morelli Foto:Arquivo/Pessoal
Estado afetivo suscitado pela consciência do perigo, temor, ansiedade irracional ou fundamentada; receio.

O medo não é sinal de fraqueza ou covardia. Muito pelo contrário: é uma reação involuntária e natural com a qual o ser humano convive ao longo de vários momentos de sua vida.

Muitas situações podem desencadear essa emoção, desde ver uma barata até um revólver na sua cabeça. O cérebro é ativado involuntariamente quando sofre tais estímulos estressantes, liberando substâncias que disparam o coração, tornam a respiração ofegante e contraem os músculos. Essa é a conhecida reação de luta ou fuga, afinal, o medo está associado ao instinto de sobrevivência.

Se as pessoas não sentissem medo, não viveriam por muito tempo. Isso porque sem essa emoção faríamos qualquer coisa sem pensar duas vezes: andaríamos entre os carros em alta velocidade nas avenidas, ficaríamos lado a lado de animais ferozes, pularíamos de prédios etc. O medo, portanto, é uma trava que nos ajuda a pensar nos riscos e consequências antes de fazermos algo e também é uma resposta imediata nos momentos em que nos sentimos amedrontados e precisamos agir.

Uma pesquisa feita pelo Pew Research Center, em 2017, em 38 países ao redor do mundo, revelou que os três maiores medos da humanidade são:
Estado Islâmico – 62%;
Mudanças Climáticas – 61%;
Ciberataques – 51%.
Esses são medos em escala global, com algumas variações conforme a região no planeta Terra. No entanto, não podemos nos esquecer dos medos corriqueiros, que perseguem as pessoas no dia a dia mesmo. Falar em público, por exemplo, é um medo muito mais comum do que imaginamos.

Uma pesquisa conduzida pelo jornal britânico Sunday Times entrevistou 3 mil pessoas no Reino Unido e demonstrou que o “receio de falar em público” era o maior medo de 41% dos entrevistados. Esse medo superou até o temor de viver com problemas financeiros e o receio em relação à morte e doenças.

Entenda as diferenças entre medo e fobia
Como já citamos anteriormente, o medo é uma emoção completamente natural, que surge em diversas situações. É um mecanismo de proteção que nos mantém vivos. No entanto, quando esse medo evolui e passa a comprometer o seu dia a dia e as suas relações, há o risco dele ter se tornado uma fobia.

Diferente do medo, a fobia é algo extremo. De acordo com uma pesquisa feita pela ISMA-BR, associação internacional sem fins lucrativos, 23% das pessoas deixam de fazer algo em seus dias por conta de um nível excessivo de medo.

A fobia é um medo desproporcional e exagerado, muito acima do normal. Há pessoas que têm fobia de animais, objetos ou situações. Existem vários tipos de fobias, por isso, nesses casos, é preciso buscar tratamento, como a terapia, para entender melhor pelo o que você está passando e como trabalhar as causas e sintomas.

O medo do coronavírus (covid-19) tomou conta do mundo, enquanto escrevo esse texto quase 155.000 casos foram confirmados e 5800 pessoas morreram por causa do covid-19.

Porque temos mais medo do que desconhecemos?
Enquanto outras doenças mais perigosas como a dengue, que causam mais mortalidade não causam tanto medo, pois suas consequências são previsíveis, o vírus Covid-19 causa muito mais por sua imprevisibilidade e consequências ainda inesperadas como; possíveis mutações, se o vírus pode ser transmitido por pessoas que não apresentam sintomas, e se pode ser impossível de controlar.

A ansiedade e o pânico, nascem do medo, a principal função evolutiva do medo e para nos ajudar a sobreviver. De fato, o medo é o mecanismo de sobrevivência mais antigo que temos. Ele nos ajuda a aprender a evitar situações perigosas no futuro através de um processo chamado reforço negativo.

Por exemplo, se sairmos em uma rua movimentada, virarmos a cabeça e vemos um carro vindo em nossa direção, iremos correr instintivamente para a calçada buscando a segurança. A evolução tornou isso automático para nós. Tão simples que precisamos de apenas de três elementos em situações como essa para aprender: uma sugestão ambiental, um comportamento e um resultado.

Nesse caso, caminhar até uma rua movimentada nos leva a olhar para os dois lados antes de atravessar. O resultado de não sofrermos acidentes nos ajuda a lembrar de repetir a ação novamente no futuro.

Nos últimos milhões de anos, os humanos desenvolveram uma nova camada em cima do nosso cérebro, chamado córtex pré-frontal. Envolvido em criatividade e planejamento, o córtex pré-frontal nos ajuda a pensar e planejar o futuro. Este tenta prever o que acontecerá com base em experiências passadas. Se não houver informação suficiente, apresenta diferentes cenários sobre o que pode acontecer e suposições mais prováveis. Faz isso executando simulações baseadas em eventos anteriores parecidos com o atual.

E é aqui que entra a Ansiedade relacionada a Incerteza
Definida como “um sentimento de preocupação, nervosismo ou desconforto, geralmente sobre um evento iminente ou algo com um resultado incerto”, a ansiedade surge quando nosso córtex pré-frontal não têm informações suficientes para prever com precisão o futuro. Vemos isso agora com corona vírus.

Os cientistas estão fazendo o máximo para estudar as características do Covid-19, para que possamos saber com precisão o quão contagioso e mortal é – e agir de acordo. A incerteza é abundante e, sem informações precisas, é fácil para o nosso cérebro criar cenários de medo e pavor.

Além de ser alimentada pela incerteza, a ansiedade também é contagiosa. Na psicologia, a propagação da emoção de uma pessoa para outra é apropriadamente denominada contágio social. Nossa própria ansiedade pode ser atenuada ou desencadeada simplesmente conversando com alguém que está ansioso.

O medo da incerteza é metaforicamente como um espirro diretamente em nosso cérebro, infectando emocionalmente nosso córtex pré-frontal e o deixando fora de controle, pois a função deste e se preocupar com qualquer ameaça ligada a incerteza. Passando por medos de que nossos familiares ficarão doentes e até de como nossos empregos serão afetados.

O que tem acontecido na bolsa de valores (Ibovespa) é um ótimo exemplo de contágio social: observamos o mercado de ações subir e cair, os índices de ações sendo um termômetro de quão febril é nossa ansiedade coletiva no momento.

Quando não conseguimos controlar nossa ansiedade, essa febre emocional entra no estágio de pânico. Pânico é definido como “medo ou ansiedade repentina e incontrolável, geralmente causando um comportamento descontrolado”.

Reprimidos pela incerteza e pelo medo do futuro, as partes racionais de nossos cérebros se desligam. Logicamente, sabemos que não precisamos de um suprimento de papel higiênico por seis meses, mas quando vemos o carrinho de alguém empilhando papel no supermercado, sua ansiedade nos infecta e entramos no modo de sobrevivência.

Como superar essa Ansiedade em tempos de corona vírus?
Então, como não entramos em pânico? Muitas vezes, meus pacientes tentam suprimir os pensamentos ansiosos, como uma solução para diminuir a ansiedade. Infelizmente tal estratégia não funciona, seria o mesmo que eu te pedisse agora para não pensar em Elefantes Brancos, me diga agora no que você está pensando? Provavelmente o que falei anteriormente.

Em vez disso, começo ensinando a eles como seu cérebro de funciona, para que eles possam ver como a incerteza enfraquece a capacidade destes de lidar com o estresse, estimulando-a à ansiedade quando o medo atinge.

Mas este é apenas o primeiro passo. Para treinar nosso cérebro e interromper o ciclo de ansiedade, precisamos tomar consciência de duas coisas: de que estamos ficando ansiosos ou em pânico e quais os resultados disso.

Isso nos faz enxergar se nosso comportamento está realmente nos ajudando a sobreviver, ou pelo contrário, nos movendo na direção oposta – o pânico pode levar a comportamentos impulsivos que são perigosos; a ansiedade é tanto mental quanto fisicamente desgastante, e pode ter consequências graves a longo prazo.

Uma vez que tomamos verdadeira consciência de como a ansiedade não é recompensadora, podemos deliberadamente mudar para uma opção mais funcional e saudável. Como nosso cérebro escolhe comportamentos mais gratificantes simplesmente porque se sente melhor, podemos praticar a substituição de comportamentos habituais antigos – como a preocupação – por hábitos que são mais funcionais e gratificantes.

Se percebermos que temos o hábito de tocar em nosso rosto, podemos estar atentos a quando agimos desse comportamento.
Por exemplo: Se estamos começando a nos preocupar: “Ah, não, eu toquei meu rosto, talvez eu fique doente!”,

Em vez de entrar em pânico, respire fundo e pergunte: “Quando foi a última vez que limpei minhas mãos?”
Pense: “Oh, certo! Acabei de lavar as mãos.

Por um momento apenas fazer uma pausa e fazer a pergunta, damos ao córtex pré-frontal a capacidade fazer o que faz de melhor: pensar.

Aqui, podemos aproveitar a certeza: se apenas lavamos as mãos e não saímos em público, a probabilidade de ficarmos doentes é muito baixa.

Quanto mais podemos ver o sentimento positivo e os efeitos de uma boa higiene e compará-los com o sentimento negativo de incerteza, mais nosso cérebro se move naturalmente em direção ao primeiro, porque se sente melhor.

Outra ação útil para diminuir a ansiedade é encontrar algumas fontes confiáveis de informação, como a organização mundial de saúde (OMS) e a mídia especializada. Os profissionais da área da saúde fazem o possível para fornecer as melhores informações e isolar os boatos para você ter uma visão clara do que está acontecendo.

Outra ação a se fazer é uma simples análise de risco racional sobre a possibilidade de contaminação. Exemplo; Onde estou aconteceram casos confirmados? Estou na faixa etária mais vulnerável?

Se depois disso tudo você acredita que ainda tem muita ansiedade, pode procurar ajuda fazendo terapia virtual! Além desta funcionar tão bem quanto a presencial, convenientemente nesse momento é mais segura para sua saúde.



Denise Morelli 
Psicóloga Jurídica na POLITEC, Coordenadora Nacional da Especialização em Criminologia e em Psicologia Jurídica e Inteligência Forense do INFOR, Professora de diversas Universidades em cursos de graduação em Direito e Psicologia, Especializações e Mestrados, Palestrante Nacional e Internacional, Tutora da Secretaria Nacional de Segurança Pública - SENASP.
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