26/09/2020 às 22h00min - Atualizada em 26/09/2020 às 22h00min

TREPA NO COQUEIRO, MARIÁ

Rui Guilherme. Foto:Arquivo Pessoal

Luzia era preta. Preta luzidia, olhos grandes como azeitonas. Preta por estirpe, com pai, mãe e cinco irmãs pretas.  Se fossem transformados em estátuas, seriam perfeitas esculturas em ébano.

O pai, pescador, ganhava seus trocados vendendo o que o rio dadivosamente lhes assegurava: siris no puçá, camarões no matapi, caranguejos no manguezal e uma variedade de peixes puxados no espinhel. Aquilo que não comiam ele mesmo, sua mulher e as filhas, junto com a farinha que produziam, levava para vender na Vila do Turco. A cidade mais próxima, Vizeu, ficava longe demais do igarapé Jacaretinga, em cujas margens lamacentas e isolados do mundo viviam a pretinha Luzia, seus pais e manas.

A Vila fora fundada por um sírio-libanês que se aventurara como regatão por aqueles cafundós. Ao ver a formosura da enseada, a riqueza da fauna e da flora, o sírio virou Turco, acabou largando o barco para ser comido pelo turu na beira do rio maior; botou casa, arranjou-se com uma cabocla boa de cama e fogão, encheu-a de filhos e, em honra de sua ancestralidade fenícia deu início ao armazém em torno do qual algumas pessoas foram chegando, foram ficando, levantaram até uma capelinha com sino e tudo para receber raros missionários que aportavam por aquelas bandas.

Para Luzia e os seus, a Vila do Turco era o que de mais civilizado logravam ver. Até luz elétrica o Turco inventara de levar para a casa dele, acionada por um gerador barulhento que ficava ligado das seis da tarde às nove. Desligado o motor de luz, os sons da floresta voltavam a reinar embalando o sono dos moradores. 

Num daqueles raros passeios na igarité com sua família, aconteceu do pai de Luzia conhecer na Vila do Turco o segundo sargento Lisboa. O graduado servia no destacamento do Exército postado em Vizeu, nordeste do Pará, fronteira do Maranhão, separado pelo rio Gurupi.  Ao se anunciar que seria transferido para a capital, Belém, em razão de sua promoção a primeiro sargento, Lisboa fora convocado para atender uma ocorrência. Uma família de ribeirinhos havia sido molestada por grileiros. As vítimas viviam nas cercanias da Vila do Turco, e as polícias militar e civil conseguiram apoio do Exército na caça aos malfeitores, com Lisboa no comando da operação.

Lisboa era um homem culto. Antes de sentar praça, menino ainda, morando com os pais em Vizeu, Lisboa fora acolhido por padres do clero secular. Como eram tempos anteriores ao Concílio Vaticano II, os ofícios religiosos eram em latim, com o oficiante de costas para os fiéis. Com os ritos em latim, o coroinha Lisboa foi levado a se familiarizar com o idioma da Roma imperial. Seu amor pelas letras clássicas, aliado ao incentivo dos bons sacerdotes, fez com que Lisboa adquirisse invulgar cultura humanística e domínio do vernáculo. Ao ser incorporado como soldado raso para cumprir serviço militar obrigatório, acabou se afeiçoando à vida castrense e subiu na graduação até segundo sargento, estando em vésperas de sua promoção a primeiro sargento.

Homem severo, extremamente correto e cumpridor de seus deveres, era duro na disciplina, tanto no quartel quanto em casa, com a mulher e filhos, duas mocinhas e dois meninos. Respeitado pelos pares e subordinados, querido pelos superiores, ao atingir a máxima graduação de sargento, fora chamado pelo seu ex-chefe e atual coronel comandante do 26º Batalhão de Caçadores aquartelado em Belém. Lisboa deveria assumir o cargo de aprovisionador daquela unidade de Infantaria.

Na Vila do Turco, ao ver aquela família de pretos retintos, Lisboa encantou-se com a molequinha mais velha:
- “Teu nome, pequena?”

- “Luzia”, respondeu, alegre e ao mesmo tempo intimidada com o vozeirão daquele homem forte, muito branco, alourado, afogueado do sol, metido no uniforme verde-oliva de campanha.

-“Tu queres ir morar comigo? Tenho duas meninas pouco mais velhas do que tu. Vou te civilizar. Vou te levar para Belém comigo”, - finalizou, com um tom de quem não admitiria recusa.      

Luzia olhou de esguelha para os pais e não viu resistência por parte deles. Aquela ideia de virar “civilizada” dançou na cabeça da criança. Civilizar-se, para ela, passou a implicar em um futuro que não seria o de ficar grande como a mãe, juntar-se a um caboclo, montar seu sítio e parir uma renca de filhos. Os dias iguais se sucederiam num traçado sem escapatória.

Os pais de Luzia estavam acostumados a obedecer e não ousavam contrariar a vontade daquele homem tão poderoso. Voltariam conformados para a choupana no Jacaretinga sem a filha mais velha. Quanto à Luzia, submissamente embarcou na lancha do Exército para cumprir sua sina na casa do Sgt Lisboa.

A mulher e a filharada de Lisboa já estavam instalados em Belém, na Vila Militar Pandiá Calógeras. As casas reservadas aos sargentos eram boas, bem equipadas com utensílios e mobiliário, prontas para abrigar confortavelmente o sargento e sua “tropa”, como ele se referia à própria família. 

Na cabeça da pretinha Luzia as maravilhas da cidade grande se sucediam, sepultando as ocasionais lembranças dos banhos de igarapé, da pirapitinga e do mandubé fresquinhos ainda se debatendo ao serem puxados do espinhel, do siri capturado no poço, do caranguejo gordo apanhado no manguezal, do camarão fresco despescado do matapi, da farinha ainda quente do tacho, do capitoso açaí amassado na peneira pela mãe. Ficara na memória da menina a letra de uma canção que a mãe lhe ensinara e às irmãs:- “Oi, trepa no coqueiro / E tira coco / Nheco nheco, nheco nheco / No coqueiro, Mariá”. Feliz, Luzia repetia a musiquinha tola sem se dar conta da troça que faziam os dois meninos, sobretudo eles, com esporádica ajuda das mocinhas, todos dando corda em Luzia e a pedir-lhe que cantasse o “trepa-trepa no coqueiro”.

No processo de tornar-se “civilizada”, não se incrustara na cabeça da pequena a noção de propriedade. Acostumada à vida comunitária, na sua pequena família o que era de um, era de todos. Luzia, em sua vida no Jacaretinga, tinha como natural que até as roupas fossem compartilhadas. Uma coisa nunca vira: lingerie, roupa íntima feminina. Nem mesmo cuecas conhecia. O pai estava o tempo todo de calção, e camisa só raramente vestia. A mãe jogava um trapo qualquer sobre o corpo sem usar nada por baixo; e, quando o fazia, era um calção de chita parecido com o do pai. Luzia e as irmãs, impúberes, não tinham necessidade de cobrir o busto. Dia e noite usavam calçõezinhos de tecido barato. Os banhos de rio, tomavam-nos nuas, em plena inocência.

Luzia ficou enlevada quando a mulher do sargento lhe presenteou com uns poucos vestidos caseiros e calcinhas compradas no bandejão. Pareceu-lhe o enxoval de uma princesa.

As filhas do sargento, adolescentes, usavam delicadas calcinhas de diferentes cores e sutiãs de menina-moça – peças que para Luzia eram completa novidade. Certa vez Luzia viu a filha do meio em seu quarto vestindo calcinha e sutiã. A menina pôs-se a imaginar como ficaria lindo o contraste entre sua pele preta e uma calcinha amarela ou rosa, que nem as da filha do patrão. Com toda naturalidade, apropriou-se de duas peças nas cores desejadas e se dispôs a usá-las. Afinal de contas, pensou, a mocinha tinha tantas daquelas roupinhas maravilhosas que não iria se importar se Luzia pegasse duas para si.

Radiante depois do banho de chuveiro com sabonete cheiroso – maravilhas da civilização – Luzia pôs um vestidinho limpo e colocou a calcinha amarela. Exultou ao ver refletido no espelho o contraste entre sua pele escura e a roupa amarelo ouro. Não se conteve e desandou a cantar a plenos pulmões:- “Oi, trepa no coqueiro / Tira coco / Nheco-nheco nheco-nheco / No coqueiro, Mariá!”

Acusada de furto, foi repreendida duramente por ser uma criança sem princípios e de maus costumes, Luzia foi recambiada para o Jacaretinga. Aturdida, consolava-a ver que pelo menos não lhe proibiram de levar para sua casa no interior as calcinhas que lhe haviam impedido de progredir no processo civilizatório.



Rui Guilherme 
Juiz de Direito e Escritor
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