26/09/2020 às 22h00min - Atualizada em 26/09/2020 às 22h00min

A ÁGUA JÁ É COMMODITIE NA BOLSA

Marcelo Creão. Foto: Arquivo Pessoal.

Para quem ainda não sabe, vou dar um spoiler. Você já pode começar a economizar, conservar e preservar os recursos hídricos, a famosa água, da sua região. O bizu é que estão acontecendo fenômenos naturais e antrópicos que estão mudança a cabeça das bacias hidrográficas e da humanidade.

Quem poderia imaginar há 50 anos atrás que a água iria ser, em alguns lugares com abundância, coisa rara de se ver? Hoje em alguns centros de decisão econômica a água foi transformada em Commodities, que são artigos de comércio, bens que não sofrem processos de alteração (ou que são pouco diferenciados), como frutas, legumes, cereais e alguns metais. Como seguem um determinado padrão, o preço das commodities é negociado na Bolsa de Valores Internacionais, e depende de algumas circunstâncias do mercado, como a oferta e demanda.

A mais famosa bolsa de tecnologia NASDAC e o CME Group (Bolsa de Chicago) que é o principal e mais diversificado mercado de derivativos do mundo, essa empresa controladora das seguintes bolsas: Chicago Mercantile Exchange (CME), New York Mercantile Exchange (NYMEX), Chicago Board of Trade (CBOT) e Commodities Exchange (COMEX), anunciaram que planejam em breve colocar um novo produto no mercado financeiro para contratos futuros, e que esse produto se chama água.

O mercado financeiro de contratos futuros serve para você se proteger de oscilações bruscas de valores da commoditie que depende para o desenvolvimento de suas atividades. Ouro, Petróleo, Soja, Milho, Suco de Laranja, Ferro, dentro inúmeros outros produtos. Há dois anos foi criado o Índice do Preço da Água com base em contratos efetivamente fechados para o fornecimento na região da Califórnia nos EUA que sofre com fornecimento há vários anos. O índice calcula uma espécie de preço médio da água no dia, com base nos acordos firmados entre as companhias de distribuição e os governos locais. 

O índice da água se chama Nasdaq Veles California Water Index (NQH2O), ou, numa tradução simples, Índice Nasdaq Veles Água da Califórnia (percebeu que o código termina em H2O?). É esse índice que servirá de base aos negócios com contratos futuros de água. Este índice tem mostrado que o valor da água tem dobrado.

Mas você não mora na Califórnia, mora em qualquer cidade do Brasil. Mesmo assim, acompanha as notícias sobre o Estado americano e tem certeza de que o preço da água vai ficar mais caro por lá daqui um ano. O que você faz? Faz um contrato futuro de água californiana para ver se lucra com o aumento de preço, sem ter nenhum interesse em receber a água. Ou seja, em vez de buscar proteção, você vira um especulador de H2O. Fica aqui torcendo para o preço da água subir e receber seus US$ 40 (ou seja lá o valor que for). E claro: se o preço da água cair, você se trumbica. Terá de pagar a diferença para a companhia de água lá na Califórnia. Eles afirmam ainda acreditar que o contrato futuro oferecerá a agricultores, empresários e prefeituras “transparência, mapeamento de preços e transferência de risco com o custo da água”. E que isso permitiria um maior equilíbrio entre oferta e demanda desse “recurso vital”. 

“Com quase dois terços da população mundial sujeito a desabastecimento de água até 2025, a escassez de água apresenta um risco crescente para negócios e comunidades ao redor do mundo, particularmente para o mercado de água de US$ 1,1 bilhão da Califórnia”, afirma Tim McCourt, executivo global de índices e produtos alternativos de investimento da CME. (Você S.A). 

O mercado chinês é tão gigantesco que seu novo multibilionário fabrica um produto super comum. Na semana passada a Nongfu, maior produtora de água engarrafada da China, levantou 1 bilhão de dólares em sua abertura de capital em Hong Kong. Em dois dias as ações da companhia subiram 80%. “Rei da água” chinês chega a fortuna de R$ 260 bilhões (ou duas Magalu). E aí? Você já vai proteger sua água ou vai deixar o preço subir? marcelo_creao@yahoo.com.br.




 Marcelo Creão
Ex-secretário de Estado na SEMA-AP, mestre em Biologia Tropical e Recursos Naturais, professor de Gestão Ambiental na FAMA.
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