04/10/2020 às 00h10min - Atualizada em 04/10/2020 às 00h10min

POLARIZAÇÃO

Rui Guilherme. Foto:Arquivo Pessoal
Ultimamente vem se falando muito em polarização. Na política, sobretudo, e quando se foca no uso das redes sociais e dos recursos tecnológicos de ponta para formar e deformar a opinião das massas, a polarização, aqui entendida como aquilo que leva o público a se colocar em posições antagônicas ao ser influenciado de um e de outro lado pelas redes de comunicação, a polarização leva a embates cada vez mais acirrados. Está na crista da onda uma produção da Netflix que aborda esse tema. Carrega o título em inglês “The Social Dilema”. A abordagem assusta, mas também exibe, com informações de arrepiar os cabelos, como os algoritmos podem acabar provocando uma guerra civil. As empresas de informática rastreiam os dados de cada um de nós bombardeando-nos com ofertas cada vez mais sedutoras, tanto mais que milimetricamente ajustadas aos anseios do usuário sem que sequer se saiba quanto e como nossas informações pessoais mais íntimas são processadas pelo uso da TI – Tecnologia da Informação.

O documentário da Netflix reflete bem as manobras encetadas pelos algoritmos, coisa que se torna a cada instante mais frequente na vida social, como pode perceber o mais desatento usuário daquela rede. Ao acessar a Netflix, o primeiro ícone que aparece na tela identifica quem está fazendo a conexão. Seguem-se as ofertas por tipo de programa (ação, aventura, ficção científica, série, romance histórico, drama, terror etc). Revela-se na tela o “continuar assistindo como Fulano” – sendo Fulano o assinante da rede, ou alguém por ele autorizado e de posse da senha individual. Na sequência vem uma seleção de produtos identificados como “Porque você estava assistindo tais e quais filmes”; de posse desses dados, a rede lhe oferece tentadoramente filmes, séries e documentários diretamente relacionados àquilo que você estava vendo, tudo perfeitamente ajustado ao gosto de quem está assistindo. É o Big Brother nos levando a consumir aquilo que é de nossa preferência mais imediata, com o objetivo de gerar dependência paulatinamente mais escravizante. 

O termo Big Brother foi popularizado no Brasil por uma rede de televisão servindo-se de um reality show que se vale das iniciais BBB – Big Brother Brasil, já em sua vigésima edição e caprichando pela cafonália e mau gosto na produção. O nome do show foi baseado no personagem cunhado por George Orwell em sua profética obra “1984”. Lançado na década de 1940, o livro foi influenciado pelas máquinas oficiais de propaganda dos apocalípticos tempos da Segunda Guerra Mundial. Então, o mundo foi profundamente afetado pelo excepcional papel que a propaganda de guerra desempenhou. Criaram-se verdadeiros estereótipos pela inteligtentsia de aliados e potências do Eixo.

Para o nazifascismo da Alemanha e Itália e seus satélites, a Itália reeditaria a glória da Roma imperial; o alemão era um super homem, espécie de semideus ariano, representante de uma raça superior a todos os humanos. Esse mesmo Ministério da Propaganda do III Reich, capitaneado pelo satânico dr. Joseph Goebbels e a serviço do monstro Adolf Hitler, criou imagem do americano como povo bêbado e festeiro, consumista que só queria a boa vida, afogando-se em rios de álcool e dançando o fox trot; o francês era o bobo sensual de bigodinho fino, bebedor de champanhe e seguidor de modas e fúteis regras de etiqueta; o russo era carnal estuprador, bebedor voraz de vodka, pouco mais que um primitivo; o judeu – esse, então, nem se fala! – era o protótipo do avarento, pervertido e imoral.

No outro prato da balança, a propaganda aliada pintou o alemão como um gordo consumidor de cerveja e chucrute, cruel, sádico, torturador – um monstro feroz a ser eliminado da face da terra. Quando o americano entrou na guerra após o ataque nipônico a Pearl Harbor, a maquina de propaganda aliada logo desenhou o japonês como um soldado fanático, suicida, baixinho, dentuço, traiçoeiro como uma cascavel.

Pois foi naquele cenário em que os governos faziam de tudo para dirigir a opinião pública no rumo que lhes fosse mais conveniente que o britânico Eric Arthur Blair, nascido em 1903 em Bengala, Índia, na época colônia inglesa, viria a adotar o peseudônimo George Orwell, escrevendo seu romance “1984”. Naquele extraordinário livro, – escrito na década de quarenta do século passado, note-se – Orwell concebe o surgimento de um mundo novo, um país de dimensões continentais a que chamou de Oceania. Lá se desenvolveu uma distopia sob a regência de um líder fictício denominado Big Brother: literalmente traduzido como O Grande Irmão, mas que em inglês se usa para denominar o irmão mais velho.

Em toda parte da Oceania os movimentos, tanto os de massa, quanto os de cada cidadão, eram controlados pelo todo-poderoso Big Brother através de um eficiente sistema de vigilância e censura. Por onde se andasse, câmeras estariam controlando os passos. Cartazes advertiam continuamente “The Big brother is watching you” (“O Irmão Mais Velho está te observando”!).

Uma de minhas passagens favoritas de “1984” é: - “Enquanto eles não se conscientizarem, não serão rebeldes autênticos e, enquanto não se rebelarem, não têm como se conscientizar”.

O ano de 1984 aconteceu 34 anos após a morte de Orwell em 1950. Estamos em 2020. Já se passaram 36 anos da distopia anunciada para 1984. O mundo mítico do país Oceania nunca aconteceu. Do Big Brother, o que de mais aparente existe na atualidade é um ridículo programa de televisão que uma rede insiste em exibir apesar da audiência que encolhe significativamente – o que é bom, do ponto de vista crítico. 

Nada obstante, os algoritmos aí estão a fazer com o mundo aquilo que o Irmão Mais Velho fez com o povo da Oceania. E não se anunciam movimentos eficientes para nos rebelarmos contra esse controle cada vez maior que as máquinas exercem sobre todos, controle esse que atinge sobretudo crianças e jovens que se tornam submissos escravos da Tecnologia da Informação. Com tristeza, registra-se que o mundo disso não se conscientizou, fazendo com que não despontem rebeldes autênticos; até porque, enquanto ninguém se rebelar contra o intoxicante vício do celular e de outras ferramentas de TI, não há como se conscientizar dessa condição de dóceis e até gratos escravos.



Rui Guilherme 
Juiz de Direito e Escritor
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