01/11/2020 às 14h14min - Atualizada em 01/11/2020 às 14h14min

Atualizando memorias

José Altino. Foto:Arquivo Pessoal.
E num passado distante, garimpeiros fizeram época expandindo e conquistando a Amazônia. Todas suas fronteiras sobre maravilhas minerais, ficaram Brasil.

E esta Amazônia, um último grande lugar no mundo, onde simples enunciado dito por um cientista ou imbecil irresponsável com acesso a mídia pode mudar vidas, costumes e até sagrados direitos conquistados pelos seres humanos que a habitam.

Era um extraordinário mundo abandonado sempre saqueado por tantos outros povos que aqui buscaram seringueiras, juta (para cordames dos navios de antanho), chá de base anticoncepcional, medicinas naturais, foi-se tanta coisa e já agora, até bom remédio para potência masculina.

Ao estourar a segunda guerra, convocou-se o primeiro expressivo batalhão laboral de ocupação territorial. Logo ali no Nordeste chamaram gente para formação dos famosos soldados da necessária borracha ao esforço de guerra, que não era bem nossa. Estávamos na bélica garupa apenas.... há controvérsias.... Finda a tal mortífera pendenga não foi dado o toque de recolher e abandonaram todo o exército borracheiro dentro do mato. Bem por isso, tenho grande desconfiança que foi esta a primeira tropa garimpeira em tempos ditos modernos.

No regime militar mais outro toque de avançar. Transamazônica e perimetral norte e mais gente. Desta vez, a convocação foi especialmente dirigida a cavalaria do campo. Terra para quem não tem terra e integrar para não entregar. Retiraram bons homens de um sofrido Maranhão, único estado da nação corretamente ocupado a partir do interior. Veio gente demais, muito além do esperado, porque afinal a promessa era grande. E deste movimento tenho certeza foi a maior leva contribuinte ao trabalho de pesquisa e descoberta mineral numa região predominante vegetal. 

E neste mesmo período lá no distante Roraima, os cearenses borracheiros e maranhenses da terra descobriam coisas do arco da velha. Se libertaram de dependências, criando asas e autonomias.

Não satisfeitos, partiram para cima da vizinha Venezuela expondo riquezas até então ignorada por seus donos. Ouro, pencas de diamantes e mais que isso, aprendendo e trazendo de lá a então nova técnica do desmonte hidráulico e da caixa resumidora/concentradora. Aquela estatua do profissional garimpeiro no centro da capital Boa vista, foi uma homenagem dos garimpeiros que aqui ficaram ao espetacular sucesso daqueles que para lá foram fazer o vizinho.

 
Nesse mesmo período no rasgo de lucidez o governo federal pariu com destino a Amazônia um dos melhores tônicos revigorantes que poderia arranjar. A partir das escolas nos trouxe o projeto Rondon, o que fez que o pêndulo da balança cultural se volvesse a favor da cultura social local.

O “inferno verde”, diferentemente de todo o restante brasileiro mostrou ser nenhum inferno, pelo contrário, as crises socioeconômicas abaixo do paralelo divisor amazônico nunca o atingiram, pois sempre bem supriu sua gente. 

Questões indígenas, todas numa boa. Sem tantos reclamos e gente a ganhar dinheiro com a boca alegando estar em defesa deles. Hoje, parece ter mais gente os “defendendo” que índio no mato. 
 
Não muito tempo atrás a política nacional era de controle extremo nas áreas de fronteiras. Não para abrigo de direito indígena ou ocupações outras sem as devidas atenções ou autorizações controladas pelo governo central. Se assegurava soberania. Hoje, está uma avacalhação danada, haja crime...para ocupá-la. 

Entretanto, tudo por aqui tem, entretanto ou porem, mesmo exibindo tal pujança e a surpreendente qualidade humana que a ocupa, os administradores da Federação, jamais cogitaram em conhecer seus costumes, seus arranjos sociais e econômicos, códigos comportamentais não escritos construídos na omissão do próprio estado, pesando ainda a imissão de leis por “cultos” legisladores desinteressados. Sequer a quantificam seja em suas potencialidades, suas atividades, alicerces de suas economias ou saber cultural. Desconhecem que depois da grande floresta “natura”, seu segundo maior patrimônio é “cultura”. 

A todos que nos passam, o que interessa é arbitrariamente determinar sobre ela, seja lá de onde vier opinião ou influência. Uma constância feita com muito emprego de desrespeitosa violência. Contrariando todo um passado, provamos baixo de terror e cacete, devotado da ignorância de todos que nela mandaram ou ainda mandam. 

Sequer um vento carinhoso de atenção aos verdadeiros guardiões de uma das maiores ambições externas a nosso país acontece chegar aqui. Edificando-a Deus se perguntou: “Amazônia um paraíso?” 

A resposta dos homens choca: “sim o é, mas com muito sofrimento”.


José Altino
Jornalista diário, escritor, aviador, ex-fundador da União Sindical dos Garimpeiros da Amazônia Legal, ex-membro do Conselho Superior de Minas.
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