09/11/2020 às 23h09min - Atualizada em 09/11/2020 às 23h09min

Pai, Filho e Burro.

Com saudades de filhos distantes, resolvi atender ao apelo de um deles, para que republicasse uma velha crônica, praticamente 20 anos. Vamos lá...

José Altino. Foto:Arquivo Pessoal.
Fui visitar José. José é meu filho, então universitário na Federal de Viçosa. Mais que prazer em ver-me, notei, gostava mesmo é de estar em seu ambiente estudantil, exibindo-o com segurança e exata noção do tamanho de seu reino. Formando em agronomia, tão logo chego, leva-me a percorrer aqui, acolá, vendo de tudo. Extensas plantações experimentais, como ele diz, que conheço como arrozal, milharal, etc.Piscicultura ele diz, e eu açude de peixe; ranário ele, perereca, sapo eu. Enfim, seguia vaidoso mostrando tudo que eu deveria ter feito a meu tempo, como rural agrícola; como diz ele e eu só roceiro, fazendeiro não fiz.. 
 
O que sei é que o sentimento gerado em meu coração de pai é de dúvida. Se na verdade eu e meu pai que o precedemos, realmente erramos tanto, ou se há muita inocência juvenil nessa garotada, novos descobridores do mundo e da arte do trabalho. 
Eu já conhecia bastante esta universidade. Afinal quem nunca ouviu falar em sua fama. O mundo inteiro manda gente para lá as pencas para aprender a mais antiga arte dos homens:  a LIDA COM TERRA e o sustento.

Confesso aqui agora, que não disse a ele, também para que entristece-lo, que aquela universidade está meio decaída.Houve tempo em que seu nome varria o mundo como modelo educacional, avanço tecnológico e sucesso em pesquisas. Ela realmente infundia imenso orgulho na brasileirada. Meu pai fez o que pode para eu ir para lá, mas o encanto da liberdade rural, dos garimpeiros e porque não das moçoilas que me levaram ao casamento precoce. foi  maior e o andarilho aqui não foi. Corrigi este deslize filial, conseguindo que meu filho pagasse a conta, devida, pelo pai ao avô dele. Ainda bem!

Mas nesses passeios por lá, dá melancolia verificar que a praga instalada em nosso Brasil também lá viceja. Confusões políticas, desajustes e a velha falta de recursos impedem que ela continue a brilhar. Professores ganham mal, vão à greve, não há recursos para pesquisas, alunos insatisfeitos. Presentes se fazem o PT, a CUT, outros e até estudantes profissionais; há 25 anos que não querem sair. Seus servidores, funcionários federais, no rigor de suas exigências, não gostam, contrariam e toma mais greve e reboliço. É uma pena, mas também ninguém mais sabe o que é mais importante para nossa nação. Não se sabe mesmo; afinal; qual é o interesse primeiro, ela ou nós.

E nesta caminhada no mundo de ensino, numa curva da estradinha, em grande disparada, vem sobre nós uma carroça puxada por um burro gigantesco de pelagem aloirada. E sozinho, sem carroceiro nem guia. Não deu tempo nem de perguntar, pois me filho já gritava: - “Tira o carro da frente que este é o super burro”. Passou, e enquanto olhava assustado aquele monstro desembestado, perguntei: -Que diabo é isto rapaz? “Pai isto é ciência .. É o resultado de pesquisa da escola, e continuou, ele puxa uma carroça com 1500 Ks e morro acima. A este fenômeno foi dado o nome de Gaúcho. Tem um defeito é verdade, por ser da universidade é funcionário público federal, só trabalha nas horas certas. Pode olhar o relógio, são cinco da tarde. Ele deixa a pé quem estiver utilizando-se da carroça e se dana rápido, veloz para o desarreador. Seu almoço então, só na sombra, é de duas horas certas, nem minutos a menos: nas sextas, tarde em diante, refuga trabalho”. 

A esta altura, interrompi curioso, para saber se como os gaúchos, o dito burro também bebia nos fins de semana.

“Não pai, pelo menos isso não”, respondeu, e foi explicando: “O pai dele, um Picherron, importado, na origem também era funcionário público, a mãe, uma jumenta espanhola safada como ela só. E vai ver que isto é que deu num problema mais grave”.
Admirado, já perguntei depressa, mas outro problema e mais grave, qual?

Ele meio sem graça, no maior respeito conservador mineiro: “É pai, não se sabe por que, quando o burro Gaúcho passa pelas cocheiras arriado, todo garboso, rodando o rabo com o calor provocado pelo rabicho, o Pipoca, um mineiro de boa cepa, jumento reprodutor dos melhores, fica todo agitado e logo armado. Efeito desviado da experiência ou o Gaúcho é bicha!” 

Digo-lhe eu, sei lá filho, sei lá. E fomos para casa, pensativos, pois tem gente assim também...



José Altino
Jornalista diário, escritor, aviador, ex-fundador da União Sindical dos Garimpeiros da Amazônia Legal, ex-membro do Conselho Superior de Minas.
 
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