21/11/2020 às 21h37min - Atualizada em 21/11/2020 às 21h37min

CULO SÙ

José Altino. Foto:Arquivo Pessoal.
De realismos cruéis e tristes, são lamentáveis para nossas comunidades o atropelo e cotidiano de hospitais municipais, estaduais e/ou emergências, apesar do sacerdócio e zelo de seus funcionários se desdobrando para que eles possam cumprir seus propósitos. São longos seus corredores de lamentações, sofrimentos, dores e angústias; severas vias crucies até para sadomasoquistas.

Quanto mais melhorias recebem, mais se expandem e ampliam seus concursos. Em passados recentes, nem mais sabiam o que fazer com e por eles. Obras, ampliações e políticas para seu desempenho, foram estabelecidas sem cuidados ou projetos responsáveis. Uma difícil herança para a qual não é legada solução possível a prazo curto.

Chamá-los de especiais nosocômios chega a ser até abusado. Atendem sem recusas ou achando ruim, a todos, alguns milhões de pessoas. Verdadeiros cortejos de ambulâncias adentram seus portões todos os dias, trazendo a necessidade e também despejando responsabilidades de vizinhas ou longínquas comunidades. Por emergência, são sempre prioritários em todos os atendimentos, deixando bem atrapalhada a fila da necessidade, próxima, chegando a atrapalhar os trabalhos e sustentações funcionais desenvolvidos pelos esforços dos servidores no atendimento. Os climas nervosos destas casas são bem visíveis, bafejados que são, por irritados e bravos acompanhantes de doentes ou acidentados. Quando não eles, vez por outra as próprias polícias dão o tom dos agitos.

O setor ambulatorial então, algo fora de sua missão e objetivo, que é urgência e emergência, está mais próximo da loucura pela imensa procura. De dor de cabeça, passando por vermes a prisão de ventre, nem mais é na farmácia da esquina que se vai... é lá mesmo, problema cultural viciante de busca a hospitais. Neste caso, é possível que campanhas fortemente educativas e investimento de bom dinheiro nos postos de saúde sejam uma boa saída. 

Indiscutivelmente nossas comunidades pagam caro pelo desastre da saúde nacional como um todo, ainda mais sempre agravada internamente, pela participação política de quem só isto faz ou fez e ainda torce para que sobrevenha e assume o caos, imaginando, na oposição, tirar proveito eleitoral com as falsas promessas e ilusórias soluções.

Porém, somos um simples ponto de base, de toda uma desarrumada estrutura piramidal na lida com a saúde do povo brasileiro. Dela fazemos de conta que cuidamos e a cabeça de ponta da pirâmide sempre faz de conta que suas responsabilidades estão resolvidas.
 Significativo, diferente, digno de registro o que acontece no outro lado da água grande na comunidade europeia em país de primeiro mundo. Bem onde moram os italianos com costumes discutíveis, como comer muita massa, e não fazer parte de seu dia a dia tomar banho o fazendo só aos sábados; no mais, no decorrer da semana só as “partes” se lavam, em alguns casos perfumando-as artificialmente. Com a saúde totalmente pública e responsabilidade de Estado, sem existir apartamentos particulares, enfermarias com mínimo de quatro pacientes e portas abertas, também cabe a ele cumprir esse item de higiene. 

Na rotina de seus melhores hospitais, em determinada hora da manhã, esvaziados os intestinos, a mais rude das enfermeiras presente passa os corredores a gritar: - “culo sù, culo sù”. Tradução literal, “bunda para cima”. Passando frente às portas, mira-se aquela porção de bundinhas, de todos os tipos fora das cobertas. Uma cena de fantasiar a mente do cineasta Federico Felini. E lá vem a mais forte das enfermeiras, geralmente estrangeira, sem nenhuma suavidade, nem na voz, passar a toalhinha na linha divisória dos glúteos. O procedimento é espartano, lá se vão pelos e cabelos sem reclamações, ficam só os gemidos, esquecidos logo...logo, pelo esmero e qualidade do tratamento que se foi buscar; sempre de excelentes qualidades “culus” a parte...

Em nosso país, pela inexistência de poderosas campanhas para educação sanitária, importantíssimas na prevenção e economia ao custeio da saúde, o caos será sempre previsível; por sinal, delas, por requisito de conhecimento e não gerarem votos no imediato, pouquíssimos políticos gostam. E bem por existência de tais políticos profissionais, maior doença e praga nacional, somos todos impedidos em ceder a mesma confiança com que italianos deferem seu Estado, permitindo-lhe até acesso ao mais sagrado reduto. Por aqui, ainda será por bom tempo “culo giù”, tradução literal “bunda para baixo” e bem resguardada.

Não se pode confiar...



José Altino
Jornalista diário, escritor, aviador, ex-fundador da União Sindical dos Garimpeiros da Amazônia Legal, ex-membro do Conselho Superior de Minas.
 
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