22/11/2020 às 15h45min - Atualizada em 22/11/2020 às 15h45min

A crise elétrica no Amapá

Foto: Arquivo Pessoal
Tenho procurado resistir a falar sobre a crise de energia do Amapá. Agora não aguento mais. É que a minha indignação sobre o que está acontecendo é insuportável. Não queria falar nada com receio de que fosse interpretado como uma tentativa de participar da luta política que está se realizando, que até hoje se arrasta.

Não é o caso de solidarizar-me: este sofrimento também é meu. Não há quem desconheça no Amapá a minha obsessão com o problema energético, que deixei resolvido. E vejo agora que a falta de manutenção de um transformador, por descuido, descaso ou irresponsabilidade, levou esse sofrido povo do Amapá a passar por um doloroso momento de perdas pessoais com a falta de energia, que incluem da assistência à saúde aos problemas econômicos.

Quando cheguei ao Amapá em 1990, as cidades viviam no escuro, sem qualquer negócio que precisasse de refrigeração, como o gelo para o pescado — a pesca era a maior oportunidade de trabalho da população mais pobre. A única fonte de abastecimento de energia eram uns velhos motores russos, antigas turbinas de avião que algum malandro tinha empurrado ao governo do então Território do Amapá.  Tive que comprar um motor a diesel para fornecer energia à casa em que morava. Era uma calamidade pública, sem solução à vista.

Assumindo o mandato minha primeira ação foi a de resolver esse problema. Consegui que fosse nomeado Presidente da Eletronorte técnico com a tarefa de resolver o problema de energia. A primeira providência foi fazer com que Antônio Carlos Magalhães liberasse os motores de Camaçari, que eram reserva daquele Polo Petroquímico, e levá-los para o Amapá. Isso resolveu o problema imediato. Em seguida, estabelecemos o levantamento do potencial energético dos rios do Amapá e descobrimos que o rio Araguari podia comportar três hidroelétricas e o rio Jari outra, em Laranjal do Jari. Uma luta com o Pará para que a casa de força ficasse do lado do Amapá atrasou o projeto. Isso me custou uma briga com o Amazonas, pela qual paguei caro: um senador daquele Estado passou a fazer uma campanha contra mim, que muito me atingiu e prejudicou.

Como meu projeto para o Amapá era de longo prazo, continuamos a trabalhar com os sucessivos presidentes da Eletronorte, entre os quais tivemos como colaborador um grande técnico, autor de um projeto global que foi finalmente executado: José Antônio Muniz, depois Diretor e Presidente da Eletrobrás.

Surgiu o grande projeto de levar a energia de Tucuruí para Manaus. A linha de transmissão correria do lado esquerdo do rio Amazonas. Com o Ministro Silas Rondeau e a ajuda da então Ministra Dilma, o projeto foi modificado, passando para o lado direito, com a finalidade de estabelecer uma linha para Macapá. E assim foi feito. O Amapá ficou ligado ao Sistema Nacional de Energia e hoje é exportador de energia. A energia possibilitou iluminarmos todo o interior do Estado, que vivia na escuridão.

Para dar trabalho (hoje é a maior fonte de emprego), criamos a Zona de Livre comércio de Macapá e Santana, que melhorou a vida de todos, pois os produtos passaram a ficar mais baratos.

Agora, depois dessa luta toda, de anos e anos, vem a irresponsabilidade na manutenção de uma Estação de Rebaixamento, sem compromisso técnico, sem um transformador de reserva e provoca essa tragédia.

 O Amapá sabe o quanto o problema de Energia me toca.
A todos a minha revolta e o meu desejo de pronto restabelecimento do sistema.
Como eu disse na inauguração de Santo Antônio, citando Rui Barbosa: “Eu não vim aqui plantar couves e sim carvalho.”


José Sarney 
Advogado, político e escritor brasileiro, 31º Presidente do Brasil de 1985 a 1990, ex-presidente do senado por quatro mandatos e Membro da Academia Brasileira de Letras.
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