22/11/2020 às 16h21min - Atualizada em 22/11/2020 às 16h21min

As viúvas do apagão

Vicente Cruz. Foto: Arquivo Pessoal.
O apagão no Amapá será um marco histórico triste, não há dúvidas. É um fato que deixará sequelas terríveis em todos os amapaenses, até mesmo nos habitantes dos municípios não atingidos pela tragédia causada pela negligência do poder público. Teve a desdita de ocorrer em plena pandemia onde todos os hábitos estão afetados e o modo de vida transformado. O apagão tem culpados, não tanto pela negligência, mas pela ganância operativa do capitalismo que tudo faz para otimizar os lucros, mesmo que isso implique numa miséria humana. Mas quem, de fato, sairá marcado dessa tragédia como vilão horroroso pela sua irresponsabilidade?  

 A equação é até simples quando se pergunta quem tinha o dever de não deixar acontecer e quem tinha a responsabilidade de fiscalizar para que o apagão não acontecesse. Sucede que a tragédia do apagão ocorreu em meio de uma pandemia e de um processo eleitoral quando toda a estrutura do Estado funciona na excepcionalidade e sob o olhar fiscalizador e crítico do cidadão. Ademais, o Brasil está há meia década em instabilidade política e sob o comando de um presidente que não economiza no protagonismo de fatos polêmicos. O caldo de tudo isso é indigesto e exige tomadas de decisão profundamente pensadas, a fim de evitar que possíveis soluções se transformem em problemas ainda maiores. 

O Amapá tem algumas vantagens competitivas que conspiram a seu favor. Tem, por exemplo, o Presidente do Congresso Nacional e o Governador que preside o fórum de governadores da Amazônia. Essas forças têm a capacidade de mudar um cenário desfavorável. Ocorre que essas duas forças estavam num processo político e viram no apagão uma oportunidade de tirar proveito eleitoral em prol de seus aliados. O tiro saiu pela culatra. Primeiro, assumiram um protagonismo exagerado na busca da solução que os fez parecerem os verdadeiros responsáveis pelo ato danoso; depois, uma série de práticas de atos impensados e a demora na solução do problema fez convergir para eles a indignação da população. O resultado está sendo cruel para as respectivas imagens daqueles agentes públicos que no início tinham uma expressiva vantagem competitiva para sair como heróis na batalha cruel para restabelecer o bem-estar do povo do Amapá.

A tragédia do apagão no Amapá deixará viúvas. A causa eficiente desse passivo de imagem foi a inabilidade da ação na crise, consistente em não saber usar as vantagens com inteligência e estratégia adequada no momento oportuno.  O que se viu foram ações de nítidos propósitos políticos, praticadas como se fossem ferramentas de marketing eleitoral impulsionadas por amadores e não ações responsáveis que visassem construir soluções para uma população em desespero. O resultado está sendo desastroso e ainda não mensurável em sua dimensão mais profunda, mas uma hora a conta vai chegar. 

Enquanto a solução do apagão não chega os cálculos dos estragos estão sendo feitos. O Amapá entrou na pauta nacional pela porta da frente da tragédia e pelo protagonismo de suas lideranças políticas que não trouxeram a solução no tempo esperado pela população. O sofrimento do povo é contado em dias e em imagens televisivas que revelam um povo pobre e desassistido numa região rica que até exporta o que agora mais lhe faz falta: a energia elétrica. Com certeza viúvas terão!!!



Vicente Cruz
Presidente do Conselho de Administração, advogado sênior e Estrategista Chefe do IDAM (Instituto de Direito e Advocacia da Amazônia) 

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