28/11/2020 às 23h32min - Atualizada em 28/11/2020 às 23h32min

DIEGO ARMANDO MÃORADONA

Foto: Arquivo Pessoal
Foi no dia 22 de junho de 1986, nas quartas de final na Copa do Mundo disputada no México. Maradona, estrela da seleção argentina, brilhava com jogadas geniais na partida em que disputava a classificação com a Inglaterra. Aos seis minutos do segundo tempo, em ataque da Argentina, com a bola disputada no alto no limite da pequena área inglesa, o goleiro britânico Peter Shilton saltou tentando evitar a cabeçada de Maradona, porém este esticou o braço e, com a mão, empurrou a bola para o fundo das redes da Inglaterra, desonestamente marcando gol que iria tirar os ingleses da Copa, classificando a Argentina. Os ingleses protestaram pedindo a anulação do tento marcado com falta pelo atacante argentino, mas o árbitro tunisiano Ali Bin Nasser validou o lance, e a partida continuou. 

Aos dez minutos do segundo tempo, em jogada de gênio na qual arrancou deixando para trás seis jogadores da desnorteada defesa da Inglaterra, Maradona marcou um segundo tento, levando a Argentina às semifinais. Esse gol espetacular tem sido reproduzido exaustivamente pela imprensa esportiva mundial, que rotulou a jogada como “o gol do século”.
Ao ser entrevistado após a partida, o craque da seleção alviceleste, quando lhe perguntaram sobre o primeiro gol marcado faltosamente, respondeu: - “Eu fiz com a cabeça de Maradona, mas com a mão de Deus.”  

-“Con la cabeza de Maradona”, até aí, tudo bem. Mas... -  “?con la mano de Dios?”, aí já é apelação.

O futebol, na sua origem na Inglaterra em fins do século XIX chamado “football association”, ou “soccer”, nasceu como esporte da elite acadêmica de Oxford, evoluindo sempre até se tornar um dos mais, ou até o mais popular esporte. Foot, pé; ball, bola, significa esporte em que se joga com os pés. Ninguém precisa ser perito nessa modalidade para saber que só o goleiro (em inglês, goal keeper) é que pode usar as mãos para pegar e arremessar a bola. Se qualquer outro jogador, atacante, defesa ou armador, puser a mão na pelota comete uma falta, levando o árbitro a paralisar a jogada e autorizando o time adversário do faltante a fazer chute livre direto. Se o jogador (que não seja goleiro) de um time toca na bola com a mão ou braço estando nos limites da sua própria grande área, comete penalty, penalidade máxima cobrada com um chute a onze pés de distância contra o arqueiro (goleiro ou guarda-metas) e que geralmente resulta em gol. De outro lado, como no caso do gol “mano de Dios”, Maradona, atacante argentino, disputou a bola com o arqueiro na área inglesa; ludibriando a arbitragem, mandou a bola com a mão pro fundo da rede adversária. Gol cometido com falta, nada mais justo que tivesse sido anulado. Só que não foi isso que aconteceu, tendo Maradona afirmado que o gol fora feito com a cabeça dele (o que tornaria válido o gol) mas com a mão de Deus – que jamais seria válido: a uma, porque gol feito por atacante que usa a mão não deve ser validado; a duas, porque o papa pode ser argentino, mas Deus não é, tanto que não estava jogando por nenhum dos dois times. Sorte dos argentinos, ou azar dos britânicos, é que em 1986 não existia o VAR, pois se já houvesse não teria sido validado o “mano de Dios”.
A afirmação de que o gol argentino fora marcado pela mão de Deus veio de uma das tantas declarações espetaculosas prodigamente divulgadas pelo ídolo de nossos “hermanos”, mas sua celebrização veio da imprensa. Ora, pode bem ser que don Diego estivesse fazendo gracinha ao invocar o Todo Poderoso como aliado da seleção portenha, mas quem deu eco à ideia foram os órgãos da mídia internacional. Disso resulta a blasfêmia de se colocar o Criador como capaz de se tornar cúmplice de uma jogada ilegal, antiesportiva, desonesta, enfim.

Tem sido decantado em verso e prosa que não basta a mulher de César ser honesta, mas que também deve parecer honesta. E honestidade é tudo que faltou na jogada que prejudicou a Inglaterra. Deus é justiça na sua mais perfeita acepção. E Justiça, no imortal dizer do jurisprudente romano, é a vontade constante e perpétua de viver honestamente, de não prejudicar o próximo, atribuindo a cada qual o que lhe é devido.

Há certas superstições no futebol. Uma delas diz que pênalti mal marcado é chutado para fora, ou bate na trave, ou o goleiro agarra. Em uma partida decisiva o árbitro marcou pênalti em favor de um time da Escandinávia.  Acontece que o árbitro se enganara, pois a jogada que tinha dado origem à penalidade máxima não havia sido faltosa. O time nórdico ponderou ao juiz que o defensor não havia praticado a falta e pediu ao árbitro para desmarcar o pênalti, mas o referee não voltou atrás, e manteve o pênalti. O cobrador disciplinadamente colocou a bola na marca, mas ao atender o apito autorizando a cobrança, deliberadamente chutou a pelota para longe da meta adversária. O time escandinavo perdeu a partida e foi desclassificado do certame. Para o mundo ficou um belo exemplo de fair play, de como o calor da disputa não deve absolver quem se aproveita de uma falha da arbitragem para tirar vantagem indevida.

Um amigo meu enricou e se tornou colecionador de relógios raros. À cata de peça para sua coleção foi a Suíça. Em Genebra comprou uma jóia de relógio de pulso, uma obra de arte de elevado preço. Sentou em um banco na gare até chegar o trem expresso para Zurique. Acabou esquecendo a sacolinha com a preciosidade no banco, embarcando no expresso. Já iniciada a viagem, desesperou-se ao constatar que deixara para trás o relógio raro, mas não tinha jeito de interromper a viagem. De Zurique embarcou no expresso de volta para Genebra, com uma vaga esperança de recuperar a peça esquecida.

Chegando a Genebra, foi em achados e perdidos, até ser encaminhado ao chefe daquela seção da estação de trem.

-“O senhor já foi ao lugar em que esteve sentado para ver se sua compra não está no mesmo lugar?”, perguntou o guarda suíço ao brasileiro.
-“Que estupidez”, pensou meu amigo. “Já passaram sei lá quantas pessoas por lá e é claro que não vou mais reaver o relógio.”
Ledo engano. O embrulho estava lá, sobre o banco, no mesmíssimo lugar em que havia sido esquecido. Meu amigo manifestou espanto, mas mais espantado ainda ficou o guarda da estação. –“Por que o senhor está tão surpreso? Todas as pessoas que passaram por aqui podem até ter visto o embrulho, mas como sabiam que não era delas, deixaram onde estava. Na Suíça, meu senhor, sabemos tudo o que é nosso. Por extensão, também sabemos o que não é nosso, que não nos pertence porque pertence a alguém. Simples assim.”

Honestidade, em resumo, não é deixar de tirar vantagem indevida de alguém. É, na essência, não ter sequer o interesse em fazê-lo.

Maradona sabia que era a mão dele, e não a de Deus, que havia cavado um gol ilícito prejudicando seu adversário. Partiu, e agora pode muito bem estar apresentando explicações ao Supremo Juiz por ter blasfemado afirmando que o gol saira da cabeça dele, don Diego Armando Mãoradona, mas a mão que empurrara a pelota para o fundo do arco inglês era “la mano de Dios”. Este, se faz tempo que já desistiu de ser brasileiro, nenhum registro há de que tenha se naturalizado argentino.



Rui Guilherme 
Juiz de Direito e Escritor.

 
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