28/11/2020 às 23h43min - Atualizada em 28/11/2020 às 23h43min

A súplica

Foto: Arquivo Pessoal
Ao longo de décadas fui médico de uma senhora inesquecível, logo a partir de seu apelido: ZUZA.
Era uma mulher espirituosa e voluntariosa. Católica fervorosa, era pessoa muito humana e solidária com as pessoas ao seu redor. A franqueza era a sua marca mais visível; o que tinha de dizer não mandava recado.

A amizade e o amor dela por mim só cresciam com o tempo a ponto de ela, realmente, me ver quase como um filho e me dar broncas se eu não ligasse para ela “nem para saber se estava viva”.
Sabia que eu adorava um pato “bem grande” para o Círio de Nazaré e meu aniversário e assim me presenteava com os que criava no seu quintal. Mulher sofrida com a perda de marido e filhos, fiel à sua FÉ, otimista, sempre tinha uma palavra de esperança e tranquilidade para todos aqueles que vinham em busca dela e isso a mantinha sempre disponível pelo seu apego ao próximo. Nunca a vi dizer “não”.

Diante de tanto sofrimento pessoal, passei a me afeiçoar mais ainda por ela. Passei a considerá-la muito e fomos muito amigos e felizes por isso. Jamais foi afeita à bajulação, mas me considerava uma espécie de anjo na sua vida.

A despeito de sua hipertensão arterial- estágio 3, o mais alto, depois que me tornei seu médico, jamais teve a necessidade de buscar ajuda no pronto atendimento ou internação clínica por crise/emergência hipertensiva ou outro problema. Creio que pelo fato de eu ser uma das poucas pessoas que ela obedecia.

O peso da idade e da vida, com o passar do tempo, a tornaram deprimida e, por outro lado, mesmo rezando mais ainda, se perguntava e a todos, por que parecia agora duvidar de sua FÉ. Eu lhe dizia que os problemas do cotidiano se avolumavam em sua volta e ela já não tinha mais a energia nem força de outrora para enfrentá-los.

A partir daí, nos últimos anos, a depressão se agravou e dado às complicações cardiovasculares teve que internar algumas poucas vezes, mas a fé parecia ali latente, sempre rezando com um terço nas mãos.

O golpe de misericórdia em sua vida ocorreu com o AVC hemorrágico de seu filho mais velho, que o deixou sequelado com afasia e hemiplégico, se tornando ele uma pessoa completamente dependente dela e de sua irmã, até para atividades e necessidades do cotidiano.

Isso foi demais até para uma grande mãe. Lúcida, com o tempo perdeu a alegria de viver. Sofria calada. Pouco ou nada falava.

Uma das cenas mais dantescas que assisti como médico na minha vida ocorreu ao vê-la sentada em sua poltrona diante do quarto do filho. Com a porta semiaberta, cabisbaixa olhando para ele, ela rezava, mas seus olhos não tinham a vida, só lágrimas.

Apertou brevemente minha mão, ela me olhou com a pálida força que lhe restava, perguntou sobre as condições clínicas de seu filho para, então, dizer em solilóquio: “por que meu DEUS? Por que não me levas logo?”

Então, um dia DEUS escutou às suas súplicas. Ela morreu pouco tempo depois.

Algumas semanas antes, por obra do destino, mãe e filho acabaram internando quase que simultaneamente no mesmo CTI; ela, por AVC com a memória ainda preservada. Curiosamente, ficaram lado a lado, separados apenas por um biombo.

Era doloroso visitar um e outro e ver familiares esconder seus dolorosos sentimentos e lágrimas. Com muita dificuldade, ela perguntava: “como está meu filho?”

Assim, DEUS a poupou de sofrimento maior; ela faleceu antes sem que soubesse que seu filho amado estava bem lá ao seu lado, do mesmo jeito de quando nasceu.



Paulo Rebelo
Médico e poeta
 
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